25/04/2024 - Edição 540

Conexão Brasília

A normalização da vingança

Lázaro em Goiás, Operação Escudo em São Paulo, Faixa de Gaza. O que esses locais tem em comum?

Publicado em 26/02/2024 2:30 - Rafael Paredes

Divulgação Pixabay

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O presidente Lula está sendo muito criticado, até por setores progressistas, por comparar os ataques na Faixa de Gaza cometidos pelas tropas Israelenses com o Holocausto Nazista, na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial.  A fala do presidente aconteceu no dia 18, ao conceder uma entrevista na Etiópia, criou uma crise diplomática e ainda repercute.

O exército israelense iniciou suas operações na Faixa de Gaza em outubro do ano passado alegando seu legítimo direito de se defender depois de monstruosos ataques terroristas protagonizados pelo Hamas. Porém, o que se viu e ainda se vê é um massacre contra uma população de mais de 2,5 milhões de pessoas confinadas pelo estado de Israel há 17 anos em um território do tamanho de São Luís, capital do Maranhão. A cidade brasileira tem pouco mais de 1,1 milhão de habitantes.

Os palestinos que vivem em Gaza não tem para onde correr, de um lado é o Mar Mediterrâneo, do outro é muro. Antes dos ataques, Gaza já era considerada a maior prisão a céu aberto do planeta e a maior densidade demográfica. Tudo que chegava a Gaza era racionado: comida, remédios, água, gás e eletricidade. Os ataques foram iniciados no norte do território com o governo israelense propondo que a população se esmagasse no sul. Agora, a total aniquilação avança para todos os lados. Os relatos são de que milhares de civis, crianças e mulheres estão sendo mortos.

Isso não é direito de defesa. É vingança.

A polícia militar de São Paulo iniciou uma operação denominada “Escudo” no dia 28 de julho do ano passado. Ela foi deflagrado depois da morte de um policial. No final da operação, 28 pessoas foram mortas. A ação foi finalizada em setembro e reiniciou esse ano depois da morte de outro policial. Já foram contabilizadas 26 mortes e poucas imagens das câmeras que deveriam estar funcionando nos uniformes dos policiais. A morte de qualquer pessoa é trágica. A morte de um funcionário público na sua função é mais triste ainda. A morte é uma dor profunda e irreparável. Mas não é dado as forças policiais o direito a vingança.

Por fim a história de Lázaro. Não o personagem bíblico ressuscitado por Jesus. Mas sim um violento criminoso que aterrorizou o entorno de Brasília, em Goiás, estuprando, matando e roubando na zona rural. Lázaro foi caçado pela polícia militar por 20 dias em uma operação cinematográfica e televisionada no ano de 2021. O criminoso deu um verdadeiro baile e deveria ser preso, julgado e condenado a passar longos anos na cadeia. Lázaro foi abatido por policiais com 60 tiros que atingiram o seu corpo. Será que com os cinco primeiros ele já não estava imobilizado? Será que nos primeiros 30 disparos ele já não estava morto?

Essas perguntas servem para quem quer racionalmente viver em uma sociedade civilizada. Mas a vingança não pertence a civilidade. A vingança não é um sentimento institucional, mas sim humano. A vingança talvez seja a faceta mais incivilizada da humanidade. Porém, agora ela é normalizada na conduta da polícia e defendida na conduta de estados-nacionais.

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Rafael Paredes


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