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Ágora Digital
A ideia de que riqueza, carisma ou popularidade digital garantem virtude e capacidade política corrompe a essência do processo democrático
Publicado em 03/01/2025 11:48 - Victor Barone
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O anúncio da candidatura de Gusttavo Lima à Presidência da República em 2026 escancara um fenômeno alarmante: a transformação da política em espetáculo. A ascensão de celebridades ao poder, guiada pela fama e não pela competência, é um atalho perigoso que reduz a democracia a um jogo de carisma, desviando-a de sua essência: a construção de um projeto coletivo ancorado em lideranças preparadas e comprometidas.
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A popularidade nos palcos ou nas redes sociais não equivale à aptidão para o cargo público. O filósofo John Stuart Mill já alertava que “o valor de um estado é o valor dos indivíduos que o compõem”. Eleger líderes por apelo midiático é negligenciar a seriedade de uma democracia que exige mais do que slogans, curtidas e legiões de seguidores.
Precedentes no Brasil, como Romário, Tiririca e, mais recentemente, Pablo Marçal, evidenciam os perigos dessa lógica. Marçal, que disputou o governo de São Paulo, encarnou um novo tipo de “celebridade política”, usando redes sociais para transformar carisma, influência digital e messianismo cristão free style em cacife eleitoral.
Narrativas de superação pessoal, como as usadas por Lima e Marçal, podem emocionar, mas não substituem preparo técnico e visão estratégica. Liderar um país requer mais do que administrar empresas, motivar plateias ou viralizar discursos; exige navegar com competência pelos desafios econômicos, sociais e institucionais de uma democracia em crise. Tratar a política como extensão de marcas pessoais transforma lideranças em produtos e cidadãos em consumidores de promessas vazias.
A ideia de que riqueza, carisma ou popularidade digital garantem virtude e capacidade política é uma falácia que corrompe a essência do processo democrático. Enquanto confundirmos fortuna com virtude e influência com competência, perpetuaremos uma democracia de fachada, onde o espetáculo suplanta a substância.
Exemplos como o governo Trump nos Estados Unidos — marcado por tensões e polarização — reforçam os riscos de eleger figuras populares, mas despreparadas. No Brasil, candidaturas como as de Gusttavo Lima sinalizam a urgência de uma reflexão coletiva: precisamos priorizar líderes que compreendam a profundidade das demandas nacionais, e não ídolos midiáticos disfarçados de salvadores.
Jean-Jacques Rousseau nos lembrou que “o povo não pode, por si só, querer o mal, mas pode ser enganado”. Cabe a nós, como cidadãos, rejeitar o espetáculo vazio da politização da fama. O Brasil merece mais do que promessas embaladas por melodias populares ou discursos virais; merece lideranças comprometidas com o bem público. E a democracia, como projeto comum, exige isso de todos nós.
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VICTOR BARONE
É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.
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Excelente o seu texto e visão Mestre. Infelizmente o nosso Brasil vive dias distópicos . Até Pessoas que tem apreço por atividades políticas acabam se afastando nessa perspectiva péssima que estamos atravessando. Minha esperança é que o nosso povo evolua politicamente em suas escolhas e opções.
Obrigado Manoel. Estamos na luta diária por mais luz.