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Ágora Digital

Sim, Trump representa o fascismo

Entenda as ferramentas usadas pela extrema direita para te convencer a lhe entregar o poder

Publicado em 09/12/2024 3:57 - Victor Barone

Divulgação Reprodução

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Nos últimos anos, assistimos a um retorno inquietante de ideais que julgávamos adormecidos nas páginas sombrias da história. A ascensão de figuras políticas que, embora atuem em regimes democráticos, encarnam elementos do fascismo e promovem políticas de extrema direita lança uma sombra sobre a sociedade contemporânea. Entre esses líderes, destaca-se o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja retórica e ações reacenderam discussões urgentes sobre o neofascismo e o autoritarismo na era moderna.

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O fascismo clássico promoveu líderes carismáticos que personificavam a nação e seus valores. Trump, nesta linha, construiu uma narrativa que centraliza sua imagem como salvador da pátria, alguém que luta contra as “elites” políticas tradicionais e promete um retorno a um passado glorioso. Como escreve Jason Stanley, em How Fascism Works: The Politics of Us and Them, o fascismo depende de uma figura que possa “encarnar” a nação, apresentando-se como a única solução para seus problemas. Esse culto à personalidade frequentemente desestimula o debate democrático e reforça a lealdade cega ao líder.

O fascismo historicamente atacou as elites intelectuais, econômicas e políticas, projetando-as como corruptas ou “traidoras” do povo. Trump, por sua vez, usa uma retórica populista que demoniza não só adversários políticos, mas também figuras da mídia e do judiciário. Como explica o historiador Roger Griffin, em The Nature of Fascism, o fascismo alimenta um “mito de renascimento nacional”, em que o líder pinta o sistema como corrupto e ele próprio como a única fonte de pureza e justiça.

Sob o disfarce do populismo e do nacionalismo exacerbado, líderes como Trump evocam um passado idealizado — uma era dourada que nunca existiu de fato, mas que, aos olhos de seus seguidores, representa o ápice de um poder e de uma pureza a serem restaurados. “Make America Great Again” não é apenas um slogan; é um apelo à nostalgia de um tempo mítico, em que a identidade nacional, supostamente, não estava ameaçada pelos “outros”. Umberto Eco, em seu brilhante ensaio Ur-Fascism, alerta para essa manipulação do passado, que se converte em uma obsessão por um complô imaginário, uma necessidade de combate aos inimigos que, segundo o fascismo, infestam e corrompem a nação.

É uma retórica sedutora — e letal. Ao invés de propor uma verdadeira solução para as crises, esse tipo de discurso se enraíza na polarização e no ódio. Cria-se, assim, uma divisão dicotômica e simplista: de um lado, o povo puro e patriota; do outro, a elite corrupta, a imprensa “mentirosa” e os imigrantes “ameaçadores”. Jason Stanley descreve essa estrutura divisiva como uma “política de nós contra eles”, em que o líder surge como salvador da pátria, detentor de uma suposta verdade inquestionável e heroica. Ao demonizar qualquer crítica e ao desacreditar instituições democráticas, ele promove não o renascimento de um país, mas sim o nascimento de uma era de desinformação e desconfiança.

O fascismo, como alerta Timothy Snyder em On Tyranny, não é um vestígio do passado, mas um espectro que se adapta e renasce em novas formas, aproveitando-se das fraquezas e ansiedades das sociedades modernas. Na era Trump, o desprezo pela verdade factual, a banalização da mentira e o ataque incessante aos veículos de comunicação contrários à sua narrativa configuram um terreno fértil para o crescimento autoritário. Snyder também observa que líderes autoritários frequentemente começam deslegitimando o processo eleitoral como forma de enfraquecer as instituições democráticas e instaurar o caos, que por sua vez justifica ações de controle mais autoritárias. Essa postura representa uma afronta à essência da democracia e ao Estado de Direito, pilares fundamentais que protegem a sociedade de uma concentração de poder perigosa e de seu consequente abuso. Algo aqui lembra a ação trumpista?

A retórica agressiva e nacionalista, a busca por inimigos internos e externos, o desprezo pela crítica e pela divergência de ideias — tudo isso constitui a matriz do fascismo. Robert Paxton, um dos maiores especialistas no tema (e autor de The Anatomy of Fascism), descreve o fascismo como uma estrutura ideológica que glorifica o ethos guerreiro, a violência e o militarismo como expressões de poder e comprometimento com uma causa. Não é de surpreender, portanto, que Trump e seus aliados promovam, direta ou indiretamente, o uso da força e, em casos extremos, tolerem — ou até encorajem — a violência de seus apoiadores em nome de um suposto patriotismo.

A história nos ensina que o fascismo nasce da normalização progressiva do absurdo, do ataque sistemático às minorias, da supressão de direitos em nome da “ordem” e da “pureza nacional”. Ao ignorar esses sinais, ao banalizar o perigo da extrema direita e sua retórica ardilosa, damos espaço para que tais ideias se proliferem, como um veneno invisível que vai contaminando as fundações de uma sociedade livre e plural. É um erro fatal, que os que conhecem a história e valorizam a democracia não devem permitir que se repita.

Em um momento em que o autoritarismo espreita, disfarçado de patriotismo e promessas de segurança, cabe a cada cidadão consciente recusar o fascismo disfarçado e resistir à tentação de soluções fáceis e brutais para problemas complexos. O preço da liberdade é a vigilância, e o silêncio diante da opressão é um convite para que ela se fortaleça. Como ecoa Eco, é nossa obrigação reconhecer o fascismo, mesmo em suas formas mais insidiosas, e combatê-lo com o poder das palavras, da participação política, da justiça e da compaixão pela humanidade, preservando, acima de tudo, a dignidade e a pluralidade que definem uma sociedade verdadeiramente democrática.

E tudo isso vale para o Brasil.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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