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Teatro do Mundo

A paixão é uma força ambígua para o artista

Ela acende o fogo — e também pode cegar com a própria chama

Publicado em 12/02/2026 3:23 - Fernando Lopes Lima

Divulgação Reprodução

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Existe uma diferença sutil e brutal entre amar o teatro em você e amar você no teatro. A primeira é entrega: o artista se coloca a serviço da linguagem, do encontro, do risco. A segunda é vaidade disfarçada de vocação. Quando o ego sobe ao palco antes da obra, a arte vira espelho — não janela. E espelhos, por mais brilhantes que sejam, refletem apenas o que já está ali. Não ampliam o mundo.

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Fazer um teatro ruim não é, em si, uma tragédia. O erro faz parte do ofício. O ensaio falho, a cena que não respira, o espetáculo que não encontra sua forma — tudo isso pertence ao caminho de quem está vivo na busca. O realmente perigoso é não perceber que é ruim. É a ausência de autocrítica, a surdez diante do silêncio da plateia, a incapacidade de duvidar do próprio gesto. Aí não há crescimento, só repetição. E repetição sem consciência é morte em câmera lenta.

Denise Stoklos na sua mini poesia, sempre me disse tudo: “não há lá-lá-lá.” Não há enfeite que salve a falta de verdade. Não há virtuosismo técnico que substitua a presença real. Não há estilo que esconda o vazio. O palco é um território cruel com as mentiras — ele amplifica tudo, inclusive a ausência de complexidade.

A dúvida, ao contrário do que muitos temem, é uma aliada. A dúvida move a ciência e deveria mover a arte. Duvidar do próprio talento, da própria forma, das próprias certezas estéticas não enfraquece o artista — afina. A dúvida abre frestas por onde entra o mundo. O artista que não duvida começa a produzir respostas antes de ainda ter feito as perguntas.

Reconhecer a própria insignificância pode soar doloroso, mas é libertador. Milan Kundera escreveu sobre a leveza e o peso da existência — e há uma leveza profunda em aceitar que não somos o centro de nada. Quando o artista entende que é pequeno diante do tempo, da história e da própria arte, algo se reorganiza: a obra deixa de ser monumento e vira gesto. Gesto humano, falível, transitório. E justamente por isso, vivo.

Talvez seja preciso mesmo fazer a “festa das insignificâncias”. Uma celebração onde o artista não se coloca como gênio, mas como alguém em processo. Alguém que erra em público. Que tenta de novo. Que escuta. Que revê. Que desmonta o que fez ontem para descobrir outra coisa amanhã.

Porque a paixão que cega produz espetáculo inflado e alma vazia.

Mas a paixão que se mistura com lucidez, dúvida e consciência da própria pequenez… essa sim cria arte que respira.

E o teatro — quando respira — respira o mundo junto.

FERNANDO LOPES LIMA

É ator, diretor, autor e palhaço. Artista da cena, dedica sua trajetória à pesquisa do teatro como espaço de encontro, afeto e provocação. Com forte atuação no teatro independente e de grupo. Fundador e integrante da Cia Teatro do Mundo e gestor da Estação Cultural Teatro do Mundo de Campo Grande MS.

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