Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

06/07/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Brasil

O Brasil não assusta mais ninguém

Da camisa sagrada ao produto de aposta: a ruína política da seleção brasileira

Publicado em 06/07/2026 9:31 - Victor Barone

Divulgação Semana On - IA

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O Brasil caiu para a Noruega nas oitavas da Copa de 2026 num jogo que condensou, em 90 minutos, décadas de ilusão acumulada. A atuação brasileira foi passiva, plana e incapaz de produzir domínio real diante de uma seleção europeia organizada, confiante e sem qualquer reverência diante da camisa amarela.

SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAMFACEBOOK, TIKTOK, X E WHATSAPP

E é esse o ponto central da derrocada: o Brasil ainda se imagina temido, mas já não assusta ninguém. A Noruega não entrou em campo como quem enfrentava um mito. Entrou como quem enfrentava um adversário possível. E venceu como quem sabia exatamente disso.

Durante muito tempo, o Brasil venceu jogos antes mesmo de jogá-los. Havia uma aura. A camisa amarela carregava Pelé, Garrincha, Tostão, Rivellino, Zico, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho. O adversário enfrentava não apenas onze jogadores, mas uma espécie de fantasma histórico.

Esse tempo acabou.

O futebol global se nivelou em organização, ciência esportiva, formação física, leitura tática e profissionalização. Países que antes entravam para resistir hoje entram para competir. A Noruega é exemplo disso: tem Haaland, tem Odegaard, tem jogadores habituados ao futebol de elite europeu e, sobretudo, tem uma seleção que já não vê o Brasil como assombração. Antes do jogo, o goleiro Ørjan Nyland já dizia que a Noruega poderia “parar qualquer seleção” da Copa. Não era bravata vazia; era uma declaração de época.

O problema brasileiro é que a narrativa interna não acompanhou a realidade externa. Parte da imprensa, da publicidade, dos ex-jogadores e da própria CBF continua vendendo ao torcedor a fantasia de que o Brasil está sempre a um drible, a uma convocação ou a um “craque iluminado” de recuperar a majestade perdida.

Não está.

Neymar precisa entrar nessa reflexão não apenas como jogador, mas como símbolo. Ele talvez seja o maior retrato da passagem do futebol brasileiro do campo da epopeia para o campo da mercadoria absoluta.

O “menino Neymar” envelheceu, mas a mitologia em torno dele não envelheceu junto. Continuou sendo tratado como promessa mesmo depois de já ter atravessado uma carreira inteira. O resultado é uma espécie de infantilização permanente do ídolo: o jogador é preservado da crítica estrutural porque ainda é embalado como gênio incompreendido, vítima de tudo, centro emocional de uma seleção que não conseguiu se emancipar dele.

A provocação ao goleiro norueguês após o pênalti e a tentativa de comprar briga com o jogo perdido, são politicamente eloquentes: quando falta futebol, sobra teatro; quando falta grandeza, sobra encenação de valentia. A provocação vazia, nesse contexto, não intimida. Apenas aumenta o constrangimento. É o gesto de uma seleção que já não consegue impor respeito pelo jogo e tenta recuperá-lo pela pose.

A imprensa internacional já vinha tratando Neymar como figura secundária e problemática dentro do desenho de Ancelotti. Antes do jogo, havia dúvida sobre seu papel, sua condição física e sua insatisfação com uma função menor na seleção. Essa é uma chave importante: o Brasil ainda orbitava simbolicamente Neymar, enquanto o futebol mundial já orbitava outra lógica.

As bets e a captura do futebol pela lógica do cassino

A derrota também permite discutir a captura moral e econômica do futebol brasileiro pelas casas de apostas. Não se trata de dizer que as bets “causaram” a eliminação. Isso seria simplista. O ponto é outro: as bets são o sintoma mais ostensivo de um futebol que trocou pertencimento por monetização total.

Reportagem da Agência Pública mostrou que, dos 26 convocados da seleção brasileira para a Copa de 2026, nove atuavam em clubes com casas de apostas como patrocinadoras principais na camisa. O próprio Neymar foi citado no contexto de divulgação de bet após sua convocação, e o Santos, clube ao qual estava vinculado, tinha uma casa de apostas como patrocinadora principal.

Esse dado é poderoso. A seleção brasileira, que um dia foi apresentada como patrimônio afetivo do povo, chegou à Copa rodeada por um ecossistema em que jogadores, clubes, transmissões, influenciadores e competições estão atravessados pela economia da aposta.

O Senado aprovou, em 2025, restrições à publicidade das bets, incluindo a proibição de anúncios com atletas, artistas, comunicadores, influenciadores ou autoridades, justamente pela preocupação com o impacto social dessas plataformas sobre populações vulneráveis. E a CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas investigou esquemas de fraude no futebol brasileiro, apontando manipulação de partidas, participação de jogadores e dirigentes e pedidos de indiciamento.

A questão, portanto, é política: que tipo de futebol nasce quando a paixão popular passa a ser administrada como ativo financeiro, produto de engajamento, mercado de odds e plataforma de vício?

O ufanismo televisivo como anestesia

Outro eixo desta triste epopeia é o papel da transmissão esportiva brasileira. Há um ufanismo que já não celebra o futebol; ele o encobre.

A narração patriótica, desta vez protagonizada pela Cazé TV, o comentarismo de torcida, a insistência em tratar qualquer adversário como obstáculo inferior e a recusa em reconhecer o declínio competitivo do Brasil criam uma bolha emocional. Dentro dela, o torcedor é convidado a acreditar que a seleção ainda é protagonista natural da história. Fora dela, o mundo joga bola.

Esse ufanismo é desagradável porque não nasce mais da grandeza, mas da insegurança. É o grito de quem tenta convencer a si mesmo. A cada Copa, repete-se o rito: vende-se o Brasil como potência temida, transforma-se qualquer sequência de passes em sinal de renascimento, exalta-se um drible isolado como prova de superioridade técnica e, quando vem a queda, procura-se um culpado circunstancial.

Mas a derrota para a Noruega não é acidente. É continuidade.

A crise também passa pela CBF. A chegada de Carlo Ancelotti foi vendida como gesto de modernização, mas ocorreu em meio a uma entidade marcada por instabilidade política, disputa de poder e baixa credibilidade institucional. A imprensa estrangeira chegou a tratar a crise da CBF como sinal de uma estrutura “disfuncional” após o afastamento de Ednaldo Rodrigues e a turbulência em torno da própria contratação de Ancelotti.

Há aqui uma contradição central: tenta-se resolver com um técnico consagrado aquilo que é um problema de sistema. Ancelotti pode organizar uma equipe, mas não pode reconstruir sozinho a formação brasileira, a governança da CBF, o calendário, a relação promíscua com interesses comerciais, a exportação precoce de talentos, a pobreza tática do ambiente nacional e a arrogância cultural de quem acha que tradição substitui trabalho.

O Brasil contratou um nome de elite para comandar uma estrutura que já não produz elite com a mesma naturalidade.

O esvaziamento do heroísmo

O futebol brasileiro perdeu algo que não se mede apenas em estatísticas: perdeu densidade simbólica.

O herói antigo do futebol brasileiro era, com todas as contradições, alguém que parecia carregar uma história coletiva. Garrincha vinha da precariedade. Pelé condensava ascensão, genialidade e país em construção. Romário e Ronaldo ainda pertenciam a uma mitologia popular da bola, da rua, da fome competitiva.

Hoje, o ídolo nasce muitas vezes como ativo de marca. Antes de amadurecer como jogador, já é empresa. Antes de virar referência técnica, já é campanha publicitária. Antes de representar uma coletividade, já representa um portfólio.

Isso não é culpa individual dos atletas. É o sistema. Mas o resultado é visível: a seleção parece rica, famosa, midiática — e espiritualmente vazia.

A eliminação para a Noruega não marca apenas o fracasso de uma seleção. Marca o colapso de uma fantasia: a de que o Brasil ainda é temido por ser Brasil. O futebol brasileiro foi capturado por uma engrenagem de dinheiro, apostas, marketing, idolatria vazia e ufanismo midiático, enquanto o mundo aprendeu a jogar sem medo da camisa amarela.

SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON

A COPA DA VERGONHA


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *