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Artigo da Semana

Dialética do muro

Publicado em 31/03/2016 12:00 -

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Franz Kafka escreveu, em sua "Fábula Curta", uma pequena alegoria sobre os nossos medos e os esforços que realizamos –por vezes em vão– para superá-los.

"'Ah', disse o rato, 'o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para qual eu corro'. – 'Você só precisa mudar de direção', disse o gato, e devorou-o".

Na bela tradução de Modesto Carone, optou-se pelo termo parede, que em outras versões aparece como muro. O resultado é porém semelhante. Paredes ou muros são edificações que limitam a circulação, e essa é a situação experimentada pelo rato.

Se até então ele se sentia livre para correr, com os obstáculos seu mundo acabou estreito, emparedado. É também menos feliz, pois destituído da liberdade de escolha. Aqui temos uma "dialética negativa", na expressão do tradutor, pois não há saída para o rato: ou corre para a ratoeira, ou vai parar na boca do gato.

Essa micronarrativa tem título e estrutura de fábula. Em primeiro lugar, porque esse é um tempo sem tempo, em que os animais falavam. Em segundo, pois há sempre uma moral. Por vezes, como nas histórias de Esopo, é o autor que acrescenta uma mensagem; por vezes, somos nós que achamos uma. E o convite de Kafka, penso eu, nos desafia a esse papel.

"Quem conta um conto aumenta um ponto" e, neste caso, arrisco alguns. É possível pensar que na fábula de Kafka todos os esforços para superar o medo correspondem apenas a variações na forma de reagir a um mundo dominado pela falta de liberdade.

Afinal, o enredo se passa no presente, mas a lembrança do rato resta no passado: "Me dava medo", diz ele. E enquanto a vastidão atemorizava o rato, sua felicidade residia na opção por virar à esquerda ou à direita. A decorrência é supor, pois, que foram as paredes que subtraíram o livre-arbítrio e, assim, a alegria.

O que espanta é ver como no Brasil de hoje sobra muro e falta capacidade crítica para circular entre os dois lados da parede, que são, aliás, muitos.

Falta entender, porém, quem erigiu muros? O próprio rato? Foi ele sua própria ratoeira? Ser comido é desfecho lacônico ou esperado? Perdoem-me os leitores pela interpretação rasteira e colada aos ânimos do presente. A verdade é que ando me sentindo emparedada. A falta de "felicidade" vem talvez desses muros que temos erguido, e esses muros vão ganhando outro nome: intolerância. E a intolerância mora no início do ódio.

Muros são construções reais ou simbólicas, mas sempre sólidas. Por causa deles, muitas vezes viramos reféns de um dos lados, e nesse movimento vai embora (ora quem) a felicidade! Não por descuido, o documento da Independência dos EUA de 1776, incluiu um substantivo forte: felicidade. "São verdades incontestáveis para nós; todos os homens nascem iguais; o Criador lhes conferiu certos direitos inalienáveis, entre os quais os de vida, de liberdade, e de buscar a felicidade (…)".

Para Thomas Jefferson, felicidade tinha dois lados: aquele público, quando nos encontramos uns nos outros para definir o bem comum; e o privado, ligado às escolhas pessoais. Já a declaração francesa de 1789 afirmou solenemente: "A lei é a expressão da vontade geral; todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente ou por seus representantes, à sua formação; ela deve ser a mesma para todos, seja protegendo, seja punindo (…)".

E incluiu uma trinca barulhenta e esperançosa: "Igualdade, liberdade, fraternidade".

Liberdade, igualdade, fraternidade e felicidade fazem parte do ideário e dos sonhos republicanos. Na vida social só se encontra felicidade com diálogo, de iguais e entre iguais. Já o isolamento é caminho certo para a construção de muros cada vez mais altos.

Historiadora e antropóloga que sou, sempre tive medo de previsões. Não me julgo ingênua, quero que os corruptos e os corruptores sejam julgados, mas também que os direitos sejam para todos. O que espanta é ver como no Brasil de hoje sobra muro e falta capacidade crítica para circular entre os dois lados da parede, que são, aliás, muitos.

Wim Wenders, em "Alice nas Cidades", declinou uma frase paradoxal: "Não há nada a temer senão o medo". Quem sabe seja possível inverter a sentença e supor que não há nada a temer, se mantivermos o direito à felicidade. Não somos ratos, muito menos ratoeira.

Lilia Schwarcz – Historiadora e antropóloga, autora de "As barbas do imperador" e coautora de "Brasil: uma biografia", com Heloisa Starling, ambos editados pela Companhia das Letras.


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