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Viver Bem
Produtos ultraprocessados imitam originais, mas podem comprometer a saúde; saiba como identificar e evitar
Publicado em 18/03/2025 11:38 - Semana On
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A escalada dos preços dos alimentos tem levado a indústria a criar soluções que, na tentativa de manter margens de lucro e preços competitivos, resultam em produtos que parecem os originais, mas estão longe de ter o mesmo valor nutricional. Os chamados “alimentos fakes” — versões modificadas de café, leite, iogurtes e outros produtos essenciais — invadiram as prateleiras dos supermercados, muitas vezes enganando consumidores desavisados.
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A polêmica em torno do chamado “cafake” — um pó para preparo de bebida à base de café que contém misturas como milho torrado — reacendeu o debate sobre a qualidade dos alimentos consumidos no Brasil. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), esse tipo de produto pode não apenas frustrar expectativas, mas também representar riscos à saúde. O caso do café é apenas a ponta do iceberg: compostos lácteos, bebidas lácteas e outros ultraprocessados oferecem alternativas baratas ao consumidor, mas podem comprometer o valor nutricional da alimentação cotidiana.
O fenômeno não é isolado nem recente. Em momentos de crise econômica, a oferta de produtos com ingredientes substitutos cresce, especialmente nos setores alimentícios. No entanto, especialistas alertam que a prática pode trazer implicações severas para a saúde pública, especialmente entre os mais vulneráveis.
O que caracteriza um alimento fake?
Diferenciar um alimento original de um “fake” pode ser um desafio, já que as embalagens muitas vezes imitam produtos tradicionais e a nomenclatura pode induzir ao erro. Pequenas alterações nas descrições, como “tipo”, “sabor” ou “estilo”, são indicativos de que o produto não segue os padrões convencionais.
No caso do leite, por exemplo, o composto lácteo inclui soro de leite, açúcares e espessantes, reduzindo seu teor de cálcio e proteínas. O mesmo ocorre com bebidas lácteas que imitam iogurtes, mas contêm menos leite fermentado e mais aditivos. No café, misturas com cereais e milho torrado diminuem a concentração de cafeína, alterando sua qualidade e sabor.
Para a nutricionista Amanda da Silva Franco, professora da UERJ e pesquisadora do Nucane (Núcleo de Alimentação e Nutrição em Políticas Públicas), um dos principais problemas está na composição dos ultraprocessados.
“Muitos desses produtos contêm gorduras vegetais hidrogenadas, que são fontes de gorduras trans, associadas ao aumento do risco de doenças cardiovasculares.”
Atenção especial deve ser dada à lista de ingredientes nos rótulos. Elementos como açúcar, amido modificado, gorduras vegetais e aditivos como espessantes e aromatizantes são sinais de que o produto pode ser ultraprocessado e menos nutritivo.
Riscos à saúde: do consumo infantil ao envelhecimento
A substituição de alimentos naturais por ultraprocessados pode trazer impactos severos à saúde, especialmente em grupos vulneráveis. Crianças, idosos e pessoas com menor poder aquisitivo são os mais afetados.
No público infantil, o consumo excessivo de açúcares e aditivos está relacionado ao aumento da obesidade, resistência à insulina e maior risco de cáries. Além disso, compostos presentes nesses produtos podem afetar o comportamento, favorecendo quadros de hiperatividade.
“O excesso de açúcar está associado ao aumento da obesidade infantil e pode comprometer o desenvolvimento ósseo e cognitivo.” — Amanda da Silva Franco.
Para os idosos, a substituição de alimentos ricos em cálcio e proteínas por compostos lácteos ou cafés de baixa qualidade pode agravar problemas como osteoporose e doenças cardiovasculares. O alto teor de sódio dos ultraprocessados também potencializa a hipertensão e outros problemas metabólicos.
A nutricionista Brenda Goes, do Hospital São Lucas (PUCRS), ressalta que aditivos e conservantes presentes nesses produtos podem afetar a microbiota intestinal e prejudicar a absorção de nutrientes essenciais.
“A fragilidade do sistema imunológico nos idosos os torna mais suscetíveis a infecções, e a alimentação inadequada pode agravar esse quadro.”
Além das consequências individuais, o consumo frequente desses produtos pode levar a um ciclo vicioso de má alimentação, sobretudo para quem está em situação de vulnerabilidade social. Preços mais baixos e acessibilidade fazem com que famílias optem por alternativas menos saudáveis, perpetuando problemas nutricionais e de saúde pública.
Como se proteger e escolher alternativas mais saudáveis?
Diante da invasão dos “alimentos fakes”, especialistas recomendam maior atenção na hora das compras e algumas estratégias para garantir uma alimentação mais segura:
– Leia os rótulos: evite produtos com muitos ingredientes desconhecidos, açúcares e aditivos.
– Prefira produtos puros: leite integral ao invés de composto lácteo, café 100% arábica ao invés de misturas.
– Compre a granel: queijos, café e leite em pó podem ser mais baratos e de melhor qualidade quando adquiridos em maior quantidade.
– Escolha marcas regionais: muitas vezes, os produtos locais têm preço menor e qualidade superior.
– Desconfie de preços muito baixos: valores muito abaixo da média podem indicar adulteração ou composição inferior.
Para o presidente da ABIC, Pavel Cardoso, uma dica essencial é observar a certificação de qualidade ao comprar café e desconfiar de marcas desconhecidas ou que imitam embalagens de produtos renomados.
“É fundamental conferir a procedência e não se deixar enganar por rótulos confusos ou preços tentadores.”
A regulação da venda desses produtos também é um desafio para órgãos fiscalizadores. No Brasil, o Código de Defesa do Consumidor determina que informações claras e precisas devem constar nos rótulos, mas a fiscalização ainda é insuficiente para barrar a proliferação desses produtos.
Enquanto o mercado dos alimentos ultraprocessados cresce, a conscientização do consumidor se torna a melhor defesa contra produtos que podem comprometer a saúde e a qualidade da alimentação. Afinal, comida de verdade não tem substituto.
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