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Viver Bem

Creatina amplia fronteiras da pesquisa científica e desperta interesse por efeitos no cérebro e no envelhecimento

Suplemento consagrado no esporte também é investigado por possíveis benefícios cognitivos, mas especialistas alertam para limites

Publicado em 31/05/2026 1:17 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Por décadas associada quase exclusivamente ao universo esportivo, a creatina vem ganhando espaço em uma nova frente de investigação científica. Além de seus efeitos já conhecidos sobre desempenho físico e força muscular, pesquisadores têm direcionado atenção crescente ao potencial impacto da substância sobre funções cerebrais, humor e processos ligados ao envelhecimento.

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O interesse não é por acaso. Considerada um dos suplementos mais estudados do mundo, a creatina desempenha papel central na produção de energia celular, característica que ajuda a explicar tanto sua popularidade entre atletas quanto o avanço das pesquisas em outras áreas da saúde. As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo.

A substância é produzida naturalmente pelo organismo a partir de aminoácidos. Sua síntese ocorre principalmente no fígado, nos rins e no pâncreas, antes de ser distribuída para diferentes tecidos. Aproximadamente 95% das reservas corporais ficam armazenadas nos músculos esqueléticos.

Dentro das células, a creatina é convertida em fosfocreatina, composto fundamental para a regeneração do ATP (adenosina trifosfato), principal fonte de energia utilizada pelo organismo. Esse mecanismo é especialmente importante durante atividades intensas e de curta duração, quando a demanda energética aumenta rapidamente.

É justamente essa função que sustenta sua ampla utilização no esporte. Ao ampliar a disponibilidade de ATP, a suplementação com creatina monohidratada pode favorecer a potência muscular, melhorar o desempenho em corridas de velocidade e aumentar a capacidade de treinamento. Ainda assim, especialistas ressaltam que o suplemento não atua de forma independente na construção muscular.

Segundo o pesquisador farmacêutico Mehdi Boroujerdi, autor de uma ampla revisão sobre o tema, a creatina não deve ser encarada como uma solução capaz de substituir hábitos fundamentais para o desempenho físico. Treinamento adequado, alimentação equilibrada e recuperação continuam sendo fatores determinantes para ganhos de força e massa muscular.

Boroujerdi destaca ainda que o organismo possui uma capacidade limitada de armazenamento da substância. Após a saturação dos estoques musculares, quantidades excedentes consumidas por meio da suplementação não resultam em benefícios adicionais. O excesso é convertido em creatinina e eliminado pelos rins.

Nos últimos anos, porém, a discussão em torno da creatina passou a ultrapassar o ambiente das academias. Diversos estudos vêm investigando a atuação da substância no sistema nervoso central e seus possíveis efeitos sobre o funcionamento cerebral.

As evidências disponíveis sugerem que a creatina pode contribuir para aspectos como memória, velocidade de processamento de informações e regulação do humor. Os resultados mais promissores têm sido observados em grupos que apresentam níveis naturalmente mais baixos da substância, caso de muitos idosos.

Apesar do entusiasmo gerado por essas descobertas, pesquisadores alertam que os resultados ainda são preliminares. Embora existam sinais positivos, o conhecimento científico sobre os efeitos cognitivos da creatina permanece em desenvolvimento e requer estudos mais amplos e conclusivos.

A literatura científica também tem explorado possíveis aplicações clínicas da substância. Entre as áreas investigadas estão doenças neurodegenerativas, quadros depressivos e condições associadas à perda de massa muscular decorrente do envelhecimento ou das alterações hormonais da menopausa.

Essas linhas de pesquisa são consideradas promissoras, mas ainda carecem de evidências robustas que permitam confirmar a eficácia da creatina nesses contextos clínicos. Por isso, especialistas recomendam cautela ao interpretar resultados iniciais.

Em relação ao consumo, o protocolo de suplementação mais utilizado prevê uma fase de saturação de aproximadamente 20 gramas diárias durante cinco a sete dias. Após esse período, a recomendação costuma ser reduzida para doses de manutenção entre 3 e 5 gramas por dia.

Outra estratégia adotada por alguns usuários consiste na ingestão contínua de doses menores desde o início. Embora o processo de saturação ocorra de forma mais lenta, os estoques musculares tendem a alcançar níveis semelhantes após algumas semanas.

Os efeitos da suplementação, contudo, não são uniformes entre todas as pessoas. Características individuais como idade, sexo, padrão alimentar e concentração basal de creatina influenciam diretamente os resultados obtidos.

Vegetarianos e veganos, por exemplo, frequentemente apresentam reservas menores da substância devido à ausência de fontes animais na dieta. Como consequência, esse grupo pode perceber respostas mais expressivas à suplementação. Entre idosos, os benefícios potenciais podem envolver tanto a preservação da massa muscular quanto possíveis efeitos sobre funções cognitivas.

Outro aspecto frequentemente debatido envolve a segurança do uso contínuo. Apesar das preocupações disseminadas nas redes sociais, os estudos disponíveis não identificaram evidências consistentes de danos renais provocados pela creatina em indivíduos saudáveis.

Ainda assim, especialistas recomendam avaliação médica prévia para pessoas que já apresentam doenças renais ou outras condições de saúde que exijam acompanhamento específico.

Com um histórico extenso de pesquisas e um perfil de segurança considerado favorável, a creatina permanece no centro de investigações científicas que buscam compreender todo o seu potencial. Para os pesquisadores, entretanto, a mensagem central continua sendo a mesma: embora apresente aplicações relevantes e resultados promissores em diferentes áreas, seus efeitos variam de indivíduo para indivíduo e devem ser interpretados à luz das evidências disponíveis.

“Ela deve ser vista como um suplemento com potencial relevante, mas não como uma panaceia”, resume Boroujerdi.

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