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Viver Bem

Novas diretrizes buscam redefinir diagnóstico da epidemia de obesidade

Em Campo Grande, 27,9% dos homens e 26,2% das mulheres são obesos

Publicado em 15/02/2025 11:24 - Semana On

Divulgação Pixabay

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Dados recentes indicam que a obesidade em Mato Grosso do Sul continua a ser uma preocupação significativa de saúde pública. Em 2023, a pesquisa Vigitel revelou que, em Campo Grande, 27,9% dos homens e 26,2% das mulheres estavam obesos.

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Além disso, informações do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional apontam que, em 2023, 71,54% das pessoas atendidas na Atenção Primária à Saúde no estado apresentavam excesso de peso, percentual superior à média nacional de 67,96%.

Em termos absolutos, somente em 2023, mais de 152 mil pessoas foram diagnosticadas com obesidade em Mato Grosso do Sul. No ano seguinte, até 15 de maio de 2024, já haviam sido registrados mais de 67 mil novos casos, representando uma média de quase 15 mil diagnósticos por mês.

Esses números evidenciam a necessidade de estratégias eficazes para combater a obesidade no estado, incluindo a promoção de hábitos alimentares saudáveis e a prática regular de atividades físicas.

Como avaliar a obesidade?

A obesidade atingiu níveis alarmantes em todo o mundo, levando a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classificá-la como uma verdadeira epidemia. Atualmente, mais de 1 bilhão de pessoas estão acima do peso ideal, incluindo um número crescente de crianças e adolescentes. Frente a esse cenário, especialistas buscam novas formas de diagnóstico e classificação da obesidade, desafiando o tradicional Índice de Massa Corporal (IMC).

Por décadas, o IMC tem sido o principal critério para definir obesidade, sendo calculado a partir do peso (em quilos) dividido pelo quadrado da altura (em metros). Indivíduos com IMC igual ou superior a 30 são considerados obesos, critério que abrange quase um quinto dos brasileiros, segundo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

Entretanto, especialistas alertam que o IMC não distingue gordura de massa muscular, nem avalia o estado de saúde de cada indivíduo. Com isso, um grupo internacional de mais de 50 pesquisadores elaborou novas diretrizes diagnósticas para a obesidade, publicadas na renomada revista The Lancet Diabetes & Endocrinology.

As novas recomendações sugerem que, além do IMC, devem ser considerados três fatores adicionais:

– Uma medida da composição corporal (circunferência da cintura, relação cintura-quadril ou relação cintura-altura);

– Duas medidas da massa corporal, independentemente do IMC;

– Medição direta da gordura corporal.

Além disso, os especialistas defendem que o excesso de peso só seja classificado como obesidade caso existam sinais claros de impacto na saúde. Quando o IMC ultrapassa 40, a alta taxa de gordura já é considerada um fator de risco.

Obesidade infantil: um perigo crescente

A obesidade infantil é uma das maiores preocupações dos especialistas, pois aumenta significativamente o risco de doenças graves, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial e distúrbios no metabolismo de gorduras. Também podem surgir complicações mais severas, como esteatose hepática (fígado gordo), cálculos biliares, doenças cardiovasculares e até AVC.

Além dos impactos metabólicos, o peso excessivo pode levar a problemas ortopédicos, como artrose e desvios na coluna vertebral, além de dificuldades respiratórias, como apneia do sono e asma. O dado mais alarmante é que metade das crianças obesas manterá essa condição na vida adulta, aumentando o risco de doenças fatais.

Quando o excesso de peso vira doença?

O novo estudo propõe uma classificação mais detalhada para a obesidade, separando-a em duas categorias:

– Obesidade pré-clínica: caracteriza-se pelo excesso de gordura, mas sem prejuízo funcional evidente. Os indivíduos ainda não são considerados doentes crônicos, mas correm alto risco de desenvolver doenças.

– Obesidade clínica: ocorre quando o peso excessivo já provoca alterações funcionais no organismo ou limitações nas atividades cotidianas. Nesses casos, o tratamento médico é essencial.

Com essa abordagem, os especialistas esperam solucionar o debate sobre a obesidade como doença e permitir tratamentos mais direcionados, o que também ajudaria na distribuição de recursos de saúde.

Novas diretrizes dividem opiniões na comunidade médica

As propostas dos pesquisadores, no entanto, não são unânimes. Parte da comunidade médica apoia a revisão do conceito de obesidade, argumentando que o IMC sozinho pode levar a classificações equivocadas. A médica Susanna Wiegand, da Clínica Charité de Berlim, destaca que o índice pode classificar como obesos atletas com grande massa muscular, enquanto algumas pessoas com alto IMC não apresentam problemas metabólicos.

Já o endocrinologista Martin Wabitsch, da Universidade de Ulm, vê na nova proposta um avanço para o atendimento de crianças e adolescentes com obesidade. “Antes, acreditava-se que a obesidade infantil desaparecia com o crescimento, o que é cientificamente incorreto. A nova abordagem ajudará a identificar quem realmente precisa de tratamento”, afirmou.

Por outro lado, há quem veja riscos na mudança. O médico Thomas Reinehr, da Clínica Infanto-Juvenil de Datteln, argumenta que as novas definições são vagas e difíceis de aplicar na prática. Além disso, ele alerta que a reformulação pode levar a um menor número de diagnósticos de obesidade, reduzindo a cobertura dos planos de saúde para tratamentos.

“O IMC é um método simples e reprodutível. Já medições como circunferência da cintura e taxa de gordura podem variar conforme o avaliador, o consumo de líquidos ou o horário do dia. Métodos mais precisos são inviáveis no dia a dia”, critica Reinehr.

O futuro do combate à obesidade

Enquanto especialistas debatem a melhor forma de diagnosticar e tratar a obesidade, os números seguem crescendo. A doença já afeta milhões de pessoas em todo o mundo e exige políticas públicas eficazes, que vão além do diagnóstico clínico e envolvem educação alimentar, incentivo à atividade física e acesso a tratamentos adequados.

Seja pelo IMC ou por novos critérios, o fato é que a obesidade já se consolidou como um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI.

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