13/04/2024 - Edição 540

Poder

Quando a democracia quase caiu, de que lado você estava?

A ação golpista nas eleições de 2022 foi preparada e colocada em prática, ainda que não tenha se concretizado. E Bolsonaro deve ser punido por isso

Publicado em 19/02/2024 10:42 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Orlando Calheiros (Intercept_Brasil) – Edição Semana On

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Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, pode não ser culto, mas ignorante não é. Formou-se em ciências militares pela Academia Militar das Agulhas Negras, e em engenharia civil pelo Instituto Militar de Engenharia, onde obteve a maior média da história do curso na instituição.

Também pelo Instituto concluiu o mestrado em engenharia de transportes. Foi diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes durante o governo Dilma Rousseff, e ministro da Infraestrutura no governo Jair Bolsonaro. Ninguém com esse currículo carece de inteligência.

O Exército sabe distinguir entre quem é ou não capacitado a ocupar altos postos na carreira. Os que só se destacam pelo esforço físico são aproveitados em tarefas que exigiam menos raciocínio. No passado, era o caso dos paraquedistas. A eles, em meio a guerras, cabia obedecer e saltar das alturas.

Como soldado, Bolsonaro demonstrou fôlego para ganhar corridas de curta distância, daí seu apelido: “Cavalão”. Uma vez, jogou-se num rio para salvar um amigo que se afogava, e foi elogiado por seus superiores. Acabou excluído do Exército por má conduta – mas essa é outra história.

Tarcísio sente-se em débito com Bolsonaro porque foi a insistência dele que o levou a candidatar-se ao governo de São Paulo, quando ele achava mais seguro aspirar a uma vaga de senador. Mas não é só por dívida de gratidão que Tarcísio comparecerá ao ato convocado por Bolsonaro para o dia 25.

Está nos planos de Tarcísio disputar o governo de São Paulo em 2026 para em 2030, com Bolsonaro ainda inelegível e talvez preso, suceder a Lula 4. E para isso, Tarcísio espera contar com o apoio do eleitorado órfão de Bolsonaro. É como pensam também outros nomes da direita dita civilizada.

A esquerda extremista foi escanteada por um Lula que prefere a conciliação. No balaio de Lula há lugar até para militares que calaram diante da proposta do golpe, ao invés de ameaçar Bolsonaro com uma ordem de prisão; oficiais de alta patente que escalaram o muro para ver no que daria tudo aquilo.

Contra tais militares, principalmente os comandantes do Exército e da Aeronáutica à época, o general Freire Gomes e o brigadeiro Baptista Júnior, os meliantes de Bolsonaro usaram todos os meios ao seu alcance, dos naturais aos mais sórdidos, para convencê-los a aderir à aventura do golpe. Sem sucesso.

No Chile, em 1973, o comandante do Exército, Augusto Pinochet, só aderiu ao golpe na véspera, apesar de 24 horas antes ter renovado seu voto de lealdade ao presidente Allende. No dia do golpe, os líderes só tiveram certeza da adesão de Pinochet quando as tropas já marchavam em Santiago.

Freire Gomes, Baptista Júnior e outros oficiais estão sendo investigados e serão chamados a depor. É bom que sejam. Se publicamente tivessem soado o alarme, o golpe de dezembro, planejado para manter Bolsonaro no poder, acabaria abortado mais cedo. E o de 8/1 nem teria existido.

Pelo que se sabe até aqui, ninguém entre os militares foi mais sórdido no trato com os companheiros que hesitavam do que o general Braga Neto, ex-ministro da Defesa, e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro. Atacou-os com palavrões e notícias falsas que mancharam sua honra.

É bom que empresários golpistas sejam investigados e mais tarde punidos. Empresários da velha guarda, e os mais jovens antenados com o que se passa no mundo, negaram seu apoio porque aprenderam que golpe faz mal aos negócios. Nessa categoria, há também os democratas por convicção.

Os golpistas de fato ou de ocasião são os milionários que recém-entraram em cena; consideram-se influentes, acham que dinheiro compra tudo e suplicam pelo reconhecimento do seu novo status. O agro é pop, como ele diz que é. Mas o agro, além de pop, pode ser um bocado de outras coisas.

Golpista desde o berço, dedo-duro desde sua juventude, Bolsonaro não precisava de empresários para derrubar a democracia; precisava do apoio da farda e da neutralidade do governo norte-americano. Esse, o presidente Joe Biden negou com firmeza. A farda balançou muito antes de negar.

Bolsonaro deu um golpe, sim

Costumamos dizer que a ditadura militar nasceu com o golpe de 1964.  E acho que essa é uma definição muito profunda do que de fato aconteceu.

“Nasce” é a palavra chave aqui, A metáfora perfeita. Pois sabemos que, quando enunciamos um nascimento, estamos dizendo que algo veio ao mundo, que um elemento, um ser, uma ideia, uma instituição, adquiriu enfim uma existência exterior, física e palpável.

Com efeito, o nascimento enunciado também revela a existência de um passado, de um estágio anterior,  pois a enunciação de um nascimento inscreve também um destino, um futuro potencial daquela entidade, um desenvolvimento necessário.

Então, repito: a ditadura militar nasceu com o golpe de 1964! E assim o faço para denunciar, justa e precisamente, o momento em que a trama golpista gestada pela caserna adquiriu uma existência exterior. O que significa dizer também que a trama precede o golpe, que existia sob a forma de uma longa conspiração dos generais.

Golpes de estado não ocorrem da noite para o dia, especialmente em uma das maiores e mais importantes nações do cenário geopolítico mundial. Para que a ditadura militar pudesse nascer foram necessários anos de planejamento e ações coordenadas dos generais, incluindo-se aí estratégias de desinformação da população e alianças com setores empresariais para o financiamento do golpe – óbvio, com o apoio dos EUA. Era necessário garantir não apenas o nascimento do regime, mas a sua continuidade, especialmente nos primeiros anos, enquanto ela ainda estivesse na fase de desenvolvimento.

Esta foi, nas palavras de um de seus principais idealizadores, o general Olimpio Mourão, a “maior conspiração das Américas”. E aqui vamos nos permitir uma pequena especulação: e se por algum motivo o golpe de 64 tivesse fracassado, se por algum motivo a insurreição da caserna não tivesse feito nascer o regime militar, se ele não tivesse se desenvolvido, todo esse conluio contra a democracia no país se apagaria da história? Todos os crimes que foram cometidos antes do golpe e em seu nome, simplesmente desapareceriam? A resposta me parece um tanto óbvia, não?

Um eventual fracasso da “maior conspiração das Américas” não apagaria os crimes que ela cometeu, correto? A morte no nascimento do golpe não apagaria o fato de que ele foi de fato gestado!

Assim, se conseguimos ter esse entendimento sobre o que se passou na ditadura, por que algumas pessoas ainda insistem na reprisada tese de que “se não houve golpe de estado não houve crime” para defender Jair Bolsonaro e seus asseclas? Percebam, inclusive, que estas pessoas sequer se dão o trabalho de contestar os elementos da investigação conduzida pela Polícia Federal. Ignorando, talvez de forma deliberada, que estes elementos, se forem comprovados, em si mesmos, já atentam contra a democracia no país.

Ou alguém acha minimamente razoável que um presidente da República utilize-se das prerrogativas e dos poderes que seu cargo lhe empresta para ativamente atacar o sistema democrático brasileiro? Pois, segundo as investigações da PF, foi exatamente isso que Bolsonaro fez quando publicamente e de forma reiterada pôs em dúvida a segurança das urnas eletrônicas. Inclusive, foi um destes ataques, a famigerada reunião com os embaixadores, que lhe deixou inelegível.E, mais uma vez, isso não é tudo!

Estamos falando de um presidente que, segundo as informações que vazaram do inquérito, não apenas pressionou ativamente outras pessoas, especialmente ministros e aliados políticos, para embarcarem na sua aventura golpista, como se utilizou das redes sociais para deliberadamente desinformar a população a respeito do pleito eleitoral e lhes incutir a ideia de que uma intervenção militar seria necessária.

Isso para não falarmos dos escândalos envolvendo a suposta criação de uma estrutura clandestina na Abin para monitorar os seus adversários políticos e o bloqueio de estradas no Nordeste durante as eleições presidenciais.

Todo esse planejamento, toda essa mobilização, tudo isso deve ser esquecido, relativizado, apenas por que eles falharam no seu intuito? Apenas por não terem sido capazes de repetir o feito da “maior conspiração das Américas” e dado um novo golpe militar no país? O fracasso do golpe anularia tudo aquilo que foi feito em seu nome?

A resposta deveria ser óbvia, não?

Assim como deveria ser óbvia a constatação de que se as investigações da Polícia Federal estiverem corretas, o Brasil não esteve na iminência de sofrer um golpe em 2022. Ele de fato sofreu um!

E escrevo isso sem medo de parecer leviano. Pois não há outra palavra capaz de designar com a mesma precisão o que vivemos naquele ano.

Ou alguém aqui seria capaz de dizer que uma eleição que se deu sob a influência direta dessa máquina de desinformação em massa foi realizada nos termos de uma “normalidade democrática”?

Uma máquina de desinformação que, inclusive, segundo as investigações, agiu sob as ordens de integrantes do governo e se voltou até contra oficiais das próprias Forças Armadas que não embarcaram nessa trama golpista.

Se tudo isso for verdade, o golpe de fato ocorreu, ele foi gestado e efetivamente nasceu! Ele apenas não teve forças para se desenvolver, ao menos, não ao ponto de impedir a derrota de Jair Bolsonaro e a ascensão de um novo governo do PT.

No fim, foi o povo, a sua vontade, que o matou! Mas ele existiu.

Só idiotas e bolsonaristas mascarados ainda acreditam em Bolsonaro

Só os idiotas de verdade serão capazes de acreditar na desculpa de Bolsonaro para justificar a transferência de R$ 800 mil de sua conta em um banco no Brasil para a conta aberta por ele em um banco nos Estados Unidos. Os bolsonaristas mascarados, também.

Foi por ocasião de sua fuga para Orlando, na Flórida, onde assistiu pela televisão, em doce conforto, à tentativa de derrubada de Lula em 8 de janeiro do ano passado. Dera em nada o golpe planejado por ele entre novembro e dezembro para manter-se no poder.

Descoberta a transferência, Bolsonaro agora disse ao jornal O Estado de São Paulo: “Eu mandei o dinheiro acreditando na derrocada completa da poupança no Brasil. […] O pessoal me disse que o volume de dinheiro enviado por brasileiros após as eleições multiplicou por três”.

Grossa mentira, mais uma de quem mente compulsivamente. Diz a Polícia Federal em documento enviado ao ministro Alexandre de Moraes, presidente do inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal para apurar atentados à democracia: “Evidencia-se que o então presidente Jair Bolsonaro, ao final do mandato, transferiu para os Estados Unidos todos os seus bens e recursos financeiros, ilícitos e lícitos, com a finalidade de assegurar sua permanência do exterior, possivelmente, aguardando o desfecho da tentativa de golpe de Estado que estava em andamento”.

A fuga de Bolsonaro começou a ser tramada ainda em junho de 2022, a quatro meses da eleição que perderia, quando ele e seu ajudante de ordem, o tenente-coronel Mauro Cid, embarcaram juntos no dia 8 para Los Angeles, onde haveria a Cúpula das Américas convocada pelo presidente Joe Biden.

Mauro Cid levou no avião oficial da FAB um kit de joias presenteadas por governos estrangeiros ao Estado brasileiro durante o governo Bolsonaro. Fazia parte do kit: um relógio da marca Rolex de ouro branco, um anel, abotoaduras e um rosário islâmico.

A comitiva de Bolsonaro voltou ao Brasil sem Mauro Cid. Ele levou as joias para a casa do seu pai, o general Mauro Cesar Lourena Cid, amigo de Bolsonaro há décadas, que chefiava em Miami o escritório da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos.

No dia 13 de junho, Mauro Cid viajou à Pensilvânia para vender o relógio Rolex de ouro branco e outro relógio da marca Patek Philippe. A Polícia Federal localizou um comprovante da venda no valor de US$ 68 mil, o que correspondia a R$ 332 mil.

O dinheiro foi depositado no BB Américas, na conta do general Mauro Cid, segundo ele informou ao seu filho. De fevereiro de 2022 a maio de 2023, o general movimentou em sua conta quase R$ 4 milhões – entre valores recebidos e enviados –, destaca relatório do Coaf.

Um novo conjunto de presentes oficiais deixou o Brasil em 30 de dezembro no avião que levou Bolsonaro para o exílio voluntário nos Estados Unidos. Entre os presentes carregados por Mauro Cid dentro de uma mala, havia duas esculturas douradas: a de uma árvore e a de um barco.

Em 18 de janeiro de 2023, em mensagens trocadas com Marcelo Câmara, assessor de Bolsonaro, Mauro Cid disse: “Aquelas duas peças que eu trouxe do Brasil – aquele navio e aquela árvore –, elas não são de ouro. Elas têm partes de ouro, mas não são todas de ouro. Então, eu não estou conseguindo vender”.

Em março, o Tribunal de Contas da União começou a discutir sobre a necessidade da devolução das joias que pertenciam ao Estado brasileiro. Foi então que auxiliares de Bolsonaro deram início a uma operação para recuperar e repatriar às pressas o kit de joias roubadas.

Bolsonaro retornou ao Brasil no dia 30 de março. Embora Mauro Cid tenha providenciado para ele um certificado falso de vacinação contra a Covid-19, ele corria o risco de ser forçado pelo governo americano a deixar a casa que um amigo lhe emprestara em Orlando.

Seria humilhante para ele retornar nessas condições. De resto, parte do dinheiro obtido com a venda das joias sumira com a recompra de algumas delas. Bolsonaro não gosta de perder dinheiro, gosta de ganhar, lícita ou ilicitamente, e também por meio de doações.

Em 23 de junho, aliados de Bolsonaro anunciaram uma campanha e pediram doações via Pix para ele. A Justiça de São Paulo havia bloqueado mais de R$ 370 mil de Bolsonaro pelo não pagamento de multas durante a pandemia por não ter usado máscara em diversas ocasiões.

O total doado nos seis primeiros meses foi R$ 17,2 milhões, 17 vezes superior ao necessário. Só idiotas e inocentes ainda acreditam no que Bolsonaro lhes diz. Acreditam também os que escondem seu DNA bolsonarista, seja por vergonha ou falta de coragem de tirar a máscara.


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