22/04/2024 - Edição 540

Poder

PGR e ex-comandantes demolem a pose do Bolsonaro perseguido

Confira os nomes que disputarão o legado de um moribundo

Publicado em 06/03/2024 9:12 - Josias de Souza (UOL), Orlando Calheiros e João Filho (Intercept_Brasil), Igor Gadelha (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Intercept_Brasil

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Desde que foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral, Bolsonaro desfila pela conjuntura uma pose de vítima de perseguição política. Enfeitou o figurino com os inquéritos criminais que responde no Supremo Tribunal Federal.

Nessa versão, uma Polícia Federal submetida aos interesses de Lula atuaria em conluio com o ministro da Suprema Corte Alexandre de Moraes para construir um enredo ficcional que transforma um ex-presidente exemplar em golpista. Não está dando certo.

A delação de Mauro Cid, um ex-ajudante de ordens que Bolsonaro dizia considerar como “um filho”, já havia fragilizado o papel de vítima. O endosso do procurador-geral Paulo Gonet às operações da PF enfraqueceu ainda mais o roteiro da perseguição.

Embora tenha sido indicado por Lula, o substituto de Augusto Aras foi aprovado no Senado com o aval da bancada bolsonarista. No dia da aprovação, havia em plenário 77 senadores. Graças ao endosso dos bolsonaristas, Gonet obteve 65 votos —ou 84,4% dos presentes.

Os depoimentos prestados no inquérito sobre o golpe pelo general Freire Gomes e pelo brigadeiro Baptista Júnior arrancaram de vez o manto de proscrito perseguido que Bolsonaro tentava acomodar sobre seus ombros.

Ex-comandantes do Exército e da Aeronáutica, respectivamente, o general e o brigadeiro integravam aquilo que o capitão chamava de “minhas Forças Armadas”. Ambos confirmaram à PF ter participado da reunião em que Bolsonaro expôs a chamada minuta do golpe.

Referindo-se ao depoimento de Freire Gomes, considerado pelos investigadores o mais devastador contra Bolsonaro, um ministro do Supremo disse que se trata de documento “melhor e mais valioso do que uma delação, porque contém revelações de uma testemunha, não de um criminoso à procura de benefício judicial.”

Estima-se que a PF indiciará Bolsonaro pela tentativa de golpe até julho. Dá-se de barato que Gonet encaminhará ao Supremo uma denúncia. A delação, os depoimentos que a corroboram e as provas adicionais reunidas no inquérito derrubam a tese segundo a qual o investigado é vítima de uma conspiração da lei das probabilidades contra um inocente.

A denúncia será convertida em ação penal. Bolsonaro e seus cúmplices terão, então, a oportunidade esgrimir o contraditório que se abstiveram de exercer ao silenciar em seus interrogatórios à PF. Cristalizou-se no Supremo a percepção de que a condenação tornou-se incontornável.

PF marca novo depoimento de Mauro Cid

A Polícia Federal (PF) marcou mais um depoimento de Mauro Cid. Ele será ouvido na próxima segunda-feira (11/3), no inquérito que investiga suposta tentativa de golpe de Estado pelo governo anterior.

O principal objetivo é confrontar Cid com as declarações dadas pelo general Marco Antônio Freire Gomes e outros comandantes nos recentes depoimentos.

O próprio Cid afirmou que Freire Gomes, último comandante do Exército do governo Bolsonaro, participou de reuniões para articular a “minuta do golpe”. O general, chamado como testemunha pela PF, teria confirmado pelo menos duas versões do documento.

A PF deflagrou em 8 de janeiro a Operação Tempus Veritatis contra organização que atuou em suposta tentativa de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito. Na ocasião, foram cumpridos 33 mandados de busca e apreensão, quatro de prisão preventiva e 48 medidas cautelares.

Esses são os nomes que disputarão o legado de um Jair Bolsonaro moribundo

O ato convocado por Jair Bolsonaro na Avenida Paulista serviu para duas coisas: juntar um grupo cada vez mais restrito de pessoas apartadas da realidade e mostrar quem vai disputar o espólio de um bolsonarismo em decadência: Nikolas Ferreira, Ronaldo Caiado e Michelle Bolsonaro – cada um com seu público-alvo.

Apesar de ter reunido centenas de milhares de pessoas, o bolsonarismo parece ter encontrado seu ocaso na Paulista. Quem se reuniu para celebrá-lo e defender Jair Bolsonaro é o próprio sintoma de sua derrocada.

Os dados não mentem: o fenômeno parece confinado ao chamado “núcleo duro” de seus antigos apoiadores. Homens brancos, acima dos 45 anos, radicalizados e, em sua maioria, católicos. Um grupo que oscila entre a ignorância do momento político que vivem e a frustração de constantemente se depararem com o que consideram uma falta de “pulso firme” de sua maior liderança.

Uma massa que aguarda ansiosamente a proclamação de uma nova revolução conservadora, mas que, em troca de toda essa fidelidade, recebe apenas o anúncio de um curso de formação política comandado pelos filhos de Bolsonaro.

Na Paulista foi ainda pior. No lugar da revolução, ganharam um líder político assustado, que implorava por anistia ao som de uma música triste.

Me parece inegável que estamos diante da decadência do movimento que não apenas elegeu um presidente da República – e quase o reelegeu –, como fagocitou a maior parte da direita brasileira e outros grupos conservadores, ao mesmo tempo que praticamente reinventou a forma como as campanhas políticas eram feitas no país.

Mas o que o anúncio do declínio de Bolsonaro nos diz sobre o atual estado da arte da política nacional? Que o movimento se tornou uma força irrelevante? Que os movimentos progressistas estão avançando sobre os seus antigos domínios?

Eu não apostaria em nada disso.

O desmantelamento do bolsonarismo expresso pela manifestação na Avenida Paulista emerge como sintoma visível de três movimentos intestinos.

O primeiro é o fato de que as antigas ramas da direita, fagocitadas pelo bolsonarismo em meados de 2018, agora reivindicam a sua antiga autonomia, até mesmo para se beneficiarem de cargos e dos benefícios de pertencerem à base do atual governo Lula.

O Partido Progressista e o União Brasil talvez sejam os exemplos mais flagrantes desse processo.

O segundo movimento vem, justamente, de setores e grupos conservadores que não são necessariamente políticos no estrito senso da palavra e que, agora, e por razões distintas, buscam se dissociar do bolsonarismo.

Por exemplo, muitas igrejas e lideranças evangélicas não apenas têm ignorado os apelos de Bolsonaro, como deliberadamente buscam se afastar dele.

Isso fica evidente nas atitudes do pastor André Valadão. Ele, que já foi considerado o “pastor 02” do ex-presidente, não apenas se negou a participar do ato na Avenida Paulista, como declarou, por meio de sua assessoria, que “nunca foi bolsonarista”.

O resultado desse afastamento pode ser visto no perfil do ato. A despeito da presença e do apoio de algumas outras lideranças, em especial Silas Malafaia, apenas 29% dos presentes se declaravam evangélicos. Pouco, muito pouco para o segmento que lhe entregou mais de 70% dos seus votos em 2018 e cerca de 60% em 2022.

Por fim, temos um terceiro movimento, que é a emergência de ramas independentes e, friso, concorrentes do próprio bolsonarismo. Grupos que nem se deram o trabalho de esperar a prisão de Bolsonaro para se reivindicarem como herdeiros do seu legado.

Só no palanque da Paulista havia quatro: os governadores Ronaldo Caiado, de Goiás, e Tarcísio de Freitas, de São Paulo; a ex-primeira dama, Michelle Bolsonaro; e o deputado federal Nikolas Ferreira. Cada qual com suas agendas, cada qual com o seu estilo, cada qual com o seu público-alvo.

Nikolas Ferreira é quase um caso à parte, pois vem sendo preparado pelo Partido Liberal, em especial pelo próprio Valdemar Costa Neto, como o próximo grande líder da direita brasileira.

No presente, o deputado é responsável pela manutenção e agitação de toda uma base de apoiadores mais jovens do bolsonarismo. Em certa medida, assume o papel que o MBL teve nas eleições de 2018.

Contudo, seu crescimento é visto com certa desconfiança por algumas figuras próximas a Bolsonaro.

No mundo idílico e paranoico do bolsonarismo, Nikolas só poderá concorrer à presidência em um cenário onde os direitos políticos de Bolsonaro já estiverem restituídos. Enquanto isso não acontece, ele emerge como um adversário direto do ex-presidente.

Se Nikolas representa o futuro do bolsonarismo, Caiado representa, justamente, o seu encontro com o passado. Ele é um legítimo representante da “velha política”, dessa direita composta por lideranças regionais e “eternos deputados” que, a despeito de suas posições, ocuparam cargos em praticamente todos os governos brasileiros desde a redemocratização.

Não por coincidência, o União Brasil, partido de Caiado, pertence à base do governo Lula, ocupando o Ministério das Comunicações.

O atual governador de Goiás jamais escondeu o seu desejo de concorrer à presidência em 2026. E não seria a primeira vez. Pouca gente se lembra, mas Caiado concorreu ao cargo em 1989, quando obteve menos de 1% dos votos.

A sua presença na Paulista é claramente uma tentativa de pavimentar o caminho para essa segunda candidatura. Mas ele tem dois obstáculos imediatos: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e a própria ex-primeira dama, Michelle Bolsonaro.

O primeiro encarna a velha política do management, da aplicação de modelos de gestão empresarial ao estado, enquanto acena sem nenhuma contradição para a extrema direita, especialmente no que diz respeito ao campo da segurança pública.

Michelle, por sua vez, apela para um modelo teológico da política, apostando no entrelaçamento definitivo do púlpito da igreja com o palanque eleitoral.

Pode não parecer, mas um vai de encontro ao outro. E isso ficou muito claro em seus discursos na Paulista.

Enquanto Michelle praticamente pregava o esboço de uma teocracia, Tarcísio focava nos feitos materiais do governo Bolsonaro, especialmente aqueles ligados a sua atuação enquanto Ministro da Infraestrutura.

Questão de fundamento: as políticas de austeridade pregadas pelo governador de São Paulo e, por incrível que pareça, seu discurso sobre segurança pública, não costumam ser muito bem recebidos no seio da população evangélica, formado especialmente por mulheres negras e pobres.

Por sua vez, a pregação de Michelle não encontra bons ouvidos em uma parcela importante da classe empresarial brasileira, aquela que apoiou massivamente a candidatura de Bolsonaro por conta da presença de Paulo Guedes nos quadros de seu futuro ministério.

É fundamental olhar para isso e notar que cada um desses “bolsonarismos” busca reatar ou estreitar os laços do movimento com setores específicos – Caiado com a “velha política”, Michelle com os evangélicos e Tarcísio com a Faria Lima.

Por meio destas alianças, querem sufocar seus concorrentes dentro do próprio bolsonarismo e, assim, garantir a viabilidade de sua própria candidatura em 2026.

O problema – para eles – é que nesse processo, nessa guerra intestina, algo se perde: justamente a relação mais íntima do bolsonarismo (no singular) com alguns desses setores.

Não por coincidência, nenhum deles esteve na Paulista para apoiá-los. E esse talvez seja o maior sintoma da derrocada do bolsonarismo, no presente e no futuro.

Brinde o fim de Jair Bolsonaro, mas siga atento ao bolsonarismo

O comício verde e amarelo de Jair Bolsonaro na Avenida Paulista confirmou que o bolsonarismo continua forte e ainda tem capacidade de mobilização. O golpista extremista continua sendo o grande líder da direita brasileira, tendo conseguido colocar muita gente na rua e aparecer na foto com três governadores de estados importantes ao seu lado.

Essa força política não chega a ser uma novidade e não muda em absolutamente nada a sua condição de inelegível e de futuro presidiário. Bolsonaro é um morto-vivo na política, mas o bolsonarismo se mantém e se manterá forte por um bom tempo.

Apesar da demonstração de força política, o ato foi um grito dos desesperados, uma tentativa de aumentar o custo político da prisão de Bolsonaro, já que ninguém mais duvida de que ela é inevitável.

Não foi à toa que Bolsonaro pediu anistia para seus parceiros de crimes contra a democracia. Chamou os criminosos que invadiram e destruíram os prédios dos Três Poderes em Brasília de “pobres coitados” e disse que “as penas fogem ao mínimo da razoabilidade”.

Bolsonaro segue empenhado em minimizar a gravidade dos crimes cometidos por ele e sua turma. Os golpistas bloquearam estradas, incendiaram carros e caminhões, planejaram um atentado à bomba no aeroporto de Brasília, tentaram bloquear refinarias de petróleo, danificaram torres de transmissão de energia elétrica, tentaram invadir a sede da Polícia Federal e destruíram os prédios dos Três Poderes.

Esses são os “pobres coitados”. Para quem exalta golpe de 1964 e trata milico torturador como herói, não deixa de ser coerente tratar os violentos ataques contra a democracia como mero vandalismo.

O machão que se dizia “imbrochável”, que passou quatro anos de mandato presidencial gritando e enfiando a faca no pescoço da democracia, chega ao fim de sua carreira política de joelhos, pedindo que o golpismo seja perdoado.

Se, por um lado, houve demonstração de força política do bolsonarismo na Paulista, por outro, vimos o seu grande líder enfraquecido e pedindo perdão pelos crimes que diz não ter cometido. É patético, mas não deixa de ser satisfatório para os democratas.

Brindemos o fim de Bolsonaro, mas sigamos atentos ao bolsonarismo.

Bom, dias depois de o líder golpista clamar por perdão, outros “pobres coitados” foram acordados com o toc toc da Polícia Federal na porta de casa. Depois dos invasores que destruíram os Três Poderes, chegou a vez dos empresários que os financiaram irem para a cadeia.

Façamos mais um brinde. Além de três empresários serem presos preventivamente, houve 24 mandados de busca e apreensão, e outros sete financiadores serão obrigados a desfilar por aí de tornozeleira eletrônica. É isso o que eu chamo de festa da democracia!

Tudo está sendo feito “dentro das quatro linhas”. Essas ações da polícia e do Judiciário estão fartamente sustentadas por provas e seguiram rigorosamente o processo legal. Mas esses três empresários presos são apenas a ponta do iceberg do financiamento.

As quermesses golpistas foram montadas nos quartéis de todo o Brasil e contaram com uma estrutura gigantesca, com trios elétricos, fornecimento de alimentos, banheiros químicos, cozinhas industriais, etc.

É muita grana envolvida. Certamente, há outros empresários que estão indo dormir com medo de amanhecer com a polícia na porta de casa.

A narrativa de que os militantes bolsonaristas atuaram de forma espontânea desmoronou depois que ficou comprovado o financiamento dos empresários. Trata-se de uma organização criminosa que atuou em conjunto durante meses. Há os executores, os financiadores e os mentores intelectuais do movimento golpista que desembocou no 8 de Janeiro.

Mesmo com tantas evidências sobre a mesa, boa parte da população continua fanatizada pela ideologia bolsonarista. Uma pesquisa Quaest feita nos dias seguintes à manifestação mostra que quase 40% da população ainda acredita que Bolsonaro está sendo perseguido.

É assustador constatar o tamanho da força que a bolha informativa do bolsonarismo ainda tem entre os brasileiros. Mesmo com uma pororoca de provas incontestáveis surgindo semana após semana no noticiário, há milhões de pessoas se alimentando das fake news fabricadas meticulosamente pelo bolsonarismo e ignorando os fatos que surgem debaixo do nariz.

São pessoas desprovidas de cultura democrática, movidas pelos sentimentos despertados por líderes religiosos e/ou pelas mentiras que circulam na bolha bolsonarista no Whatsapp.

Bolsonaro pode ser flagrado assassinando uma pessoa em praça pública com transmissão ao vivo em rede nacional e, ainda assim, haverá uma narrativa para embaçar a visão do público, esconder os vestígios do crime e de alguma forma transformá-lo em um perseguido pelo “sistema”.

Despertou-se um fanatismo profundo que cegou parte relevante da população. Todos nós temos conhecidos e parentes enfeitiçados pela ideologia bolsonarista e sabemos o quão profundo é esse buraco. Trata-se de uma bomba relógio com a qual os democratas terão que lidar nos próximos anos. Não será tarefa fácil desarmá-la.

Do ponto de vista jurídico, a força política que o bolsonarismo demonstrou nas ruas é irrelevante. O fato é que boa parte dos seus líderes estão cercados e a caminho da cadeia.

Os primeiros presos foram os executores dos crimes do 8 de Janeiro, agora são os financiadores, e os próximos serão os cabeças que planejaram tudo.

Anistia é o escambau! Que os golpistas sofram o peso e o rigor das leis. Esse é o único caminho para que não haja outro 8 de Janeiro.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *