25/02/2024 - Edição 525

Poder

Matéria do Estadão motivou enxurrada fake news e ataques a Dino e Lula

Federação dos Jornalistas vai para cima do jornal paulista por "assédio moral" contra profissionais na sucursal de Brasília

Publicado em 22/11/2023 10:17 - Ivan Longo e Plinio Teodoro (Fórum) – Edição Semana On

Divulgação Marcelo Camargo - Abr

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Publicada no dia 13 de novembro, a reportagem do Estadão que criou um factoide tentando associar Flávio Dino ao crime organizado motivou uma enxurrada de fake news e ataques, feitos principalmente por meio de memes, contra o ministro da Justiça e o governo Lula.

É o que aponta levantamento exclusivo da DataFórum feito através das redes sociais. Desde a publicação da matéria, que dá contra de que Luciene Barbosa Farias, presidente da Associação Instituto Liberdade do Amazonas e esposa de Clemilson dos Santos Farias, o Tio Patinhas, que seria ligado Comando Vermelho, foi recebida em eventos do governo, vieram à tona centenas de publicações falaciosas de que ela teria se reunido diretamente com Dino e que o ministro teria ligações com facções criminosas.

Luciane Barbosa acompanhou a ex-deputada estadual no Rio de Janeiro e vice-presidente da Comissão de Assuntos Penitenciários da Anacrim-RJ, Janira Rocha (PSOL-RJ), na reunião com o secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Elias Vaz, para entregar em mãos um dossiê de 116 páginas sobre denúncias de violações de direitos fundamentais e humanos às famílias e detentos do sistema carcerário no Amazonas. Ela compareceu à reunião como representante da associação que preside e foi indicada por um comitê do Amazonas – sendo que o governo federal não teve qualquer ingerência sobre o convite.

Cabe ressaltar ainda que Luciane Farias não tem condenação em primeira instância. Ela chegou a ser absolvida por “ausência/fragilidade de provas” em processo sobre tráfico de drogas. Condenada em segunda instância somente no mês passado, ela recorre em liberdade. Em certidão judicial criminal negativa de Luciane Barbosa emitida no dia 16 de novembro – após a reportagem do Estadão –a Justiça Federal diz que “não constam, até a presente data e hora, processos de classes criminais” contra ela em primeira instância no estado do Amazonas.

A reportagem do Estadão, entretanto, atribuiu a ela o apelido de “dama do tráfico” – alcunha que um dos repórteres que assinam a matéria chegou a admitir que inventou a partir do “relato de uma fonte”.

O termo, entretanto, foi adotado pela extrema direita nas redes sociais e, somado ao fato de que o tabloide paulistano não deixou claro que Dino não tem qualquer relação com a mulher, uma enxurrada de fake news tomou o debate público nos últimos dias.

Memes contra Flávio Dino e Lula 

Ao menos 40 publicações feitas por usuários das redes sociais e políticos, entre eles o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) e os deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG) e Kim Kataguiri (UB-SP), entre outros, com memes de ataques a Dino e Lula e fake news utilizando como base a matéria do Estadão sobre a “dama do tráfico”.

Uma postagem de Carlos Bolsonaro, que foi compartilhada por mais de 8 mil pessoas, por exemplo, diz que “o governo atual se reúne com traficantes”.

Outras publicações, por exemplo, tentam ridicularizar Flávio Dino usando como base a declaração que o ministro fez em maio, durante audiência no Senado, afirmando que, se o senador Marcos do Val (Podemos-ES) era da “Swat”, ele seria dos “Vingadores”. Boa parte dessas postagens de ataques ao ministro, ironizando sua forma física, forma feitas por Nikolas Ferreira.

Quem também utilizou a matéria do Estadão para promover ataques a Dino foi a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC). Em uma publicação, por exemplo, a parlamentar bolsonarista destacou que Luciene Farias “já foi condenada pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e associação ao tráfico”, sendo que na data da veiculação da reportagem a mulher tinha certidão judicial criminal negativa emitida pela Justiça do Amazonas. Apesar de Dino não ter tido contato com Luciene, Zanatta associou o ministro diretamente a ela e pleiteou um pedido de impeachment contra o ministro.

Já o deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) compartilhou um vídeo de Jair Bolsonaro e atacou o ministro da Justiça afirmando que “chamar Dino de baleia é uma ofensa às baleias”.

O vereador Fernando Holiday (PL-SP), de São Paulo, por sua vez, divulgou a fake news que “a recepção da dama do tráfico” em audiências do Ministério da Justiça é “responsabilidade” de Flávio Dino. Holiday ainda postou uma foto de Dino com uma humorista e disse que o ministro “mentiu” ao dizer que nunca se encontrou com Luciene Barbosa. A foto depois foi apagada, mas o ministro foi às redes para desmentir o vereador.

“A mentira de hoje, continuando a canalhice de ontem, é que essa senhora do vídeo abaixo é uma criminosa com quem eu teria me reunido, o que é absolutamente falso, como afirmo desde ontem. Esses bandidos inventam essas calúnias para aglutinar gente da mesma espécie, a fim de praticar o mal”, escreveu Dino.

O deputado Kim Kataguiri também promoveu uma série de ataques ao ministro da Justiça e ao governo Lula. Uma publicação do parlamentar, por exemplo, leva uma chamada sensacionalista – e mentirosa – que diz: “Você financiou o Comando Vermelho”.

As postagens de políticos de direita e extrema direita motivaram uma série de publicações falaciosas de internautas bolsonaristas. Um exemplo é o vídeo que mostra Dino com a humorista potiguar Vi Álvares como se fosse Luciene Farias, chamada de “dama do tráfico” pelo Estadão.

Flávio Dino desmente fake news e promete processar autores de mentiras

O ministro Flávio Dino já se pronunciou várias vezes para desmentir o factoide de que teria algum tipo de relação com Luciene Farias ou com o crime organizado.

“Nunca recebi, em audiência no Ministério da Justiça, líder de facção criminosa, ou esposa, ou parente, ou vizinho. De modo absurdo, simplesmente inventam a minha presença em uma audiência que NÃO SE REALIZOU em meu gabinete. Sobre a audiência, em outro local, sem o meu conhecimento ou presença, vejam a história verdadeira no Twitter do Elias Vaz. Lendo lá, verificarão que não é o que estão dizendo por conta de vil politicagem”, escreveu Dino na rede X, antigo Twitter, no mesmo dia da publicação da reportagem do Estadão.

“Obviamente que é um desespero político de quem está insatisfeito com o combate ao crime organizado que nós estamos fazendo”, declarou o ministro em outra ocasião.

Dino chegou a ser defendido publicamente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também associou as fake news e ataques ao ministro às ações do governo federal contra o crime organizado.

“Minha solidariedade ao ministro Flávio Dino, que vem sendo alvo de absurdos ataques artificialmente plantados. Ele já disse e reiterou que jamais encontrou com esposa de líder de facção criminosa. Não há uma foto sequer, mas há vários dias insistem na disparatada mentira. O Ministério da Justiça tem coordenado ações de enorme importância para o país: a defesa da democracia; o combate ao armamentismo selvagem; o enfrentamento ao crime organizado, ao tráfico e às milícias; e a proteção da Amazônia. Essas ações despertam muitos adversários, que não se conformam com a perda de dinheiro e dos espaços para suas atuações criminosas. Daí nascem as fake news difundidas numa clara ação coordenada. Nós reiteramos: não haverá recuos diante de criminosos e seus aliados, estejam onde estiverem, sejam eles quem forem”

O ministro, no mesmo dia da publicação da matéria do Estadão, anunciou que processará na Justiça aqueles que estão inventando mentiras sobre ligação com fações criminosas.

“Sim, irei processar os autores das mentiras. Aliás, fui avisado por um jornalista que a próxima ‘notícia jornalística’ é que tenho ligações com o PCC. Então, vamos resumir os delírios: 1. Eu ‘interfiro’ na Polícia Federal; 2. Eu, ao mesmo tempo, tenho ‘ligações’ com o Comando Vermelho e com o PCC. Mas não há prova de nada, rigorosamente nada, então precisa de uma reunião que não existe e de uma fraude com um vídeo. Daqui um pouco irei descobrir que sou mesmo um super-herói dos Vingadores. Além de crimes, são ridículos”,

Federação dos Jornalistas vai para cima do Estadão por “assédio moral” na sucursal de Brasília

Em nota conjunta divulgada na noite de terça-feira (21), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) partiram para cima do Estadão sobre as denúncias de “assédio moral” denunciadas por repórteres da sucursal de Brasília contra a editora-chefe de Política, Andreza Matais, relacionadas ao factoide da “dama do tráfico” do Amazonas, usado para atacar o ministro da Justiça, Flávio Dino, um dos postulantes à vaga deixada por Rosa Weber no Supremo Tribunal Federal (STF).

No texto, as entidades expõem as violações de direitos do jornal denunciadas há anos e se diz atenta às denúncias de assédio na sucursal comandada por Andreza Matais.

“Como entidades de caráter sindical e, portanto, de defesa dos trabalhadores e seus direitos, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) seguirão cobrando o cumprimento dos direitos trabalhistas no Estadão. Falta de controle de jornadas extenuantes e não pagamento de horas extras são algumas das violações principais que as entidades têm denunciado e combatido há anos. E seguiremos vigilantes sobre quaisquer situações que configurem assédio moral individual ou coletivo na sucursal do jornal em Brasília”, diz o texto.

A nota das duas entidades representativas dos jornalistas, destoa daquelas divulgadas pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) – que tem Francisco Mesquita Neto, “dono” do Estadão, como vice-presidente – e da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), coletivo de jornalistas da mídia liberal, que saíram em defesa de Matais, que se diz vítima de “perseguição” pela mídia independente e pelo governo.

Para a Fenaj e o SJPDF “essas críticas não podem se confundir com perseguições”.

“É absolutamente natural que, num ambiente democrático, o trabalho dos jornalistas possa, sim, ser alvo do escrutínio público e receber críticas que ajudem esclarecer enquadramentos e corrigir equívocos, como um processo de aperfeiçoamento do próprio ofício e em nome da necessária pluralidade na esfera pública. Nesse sentido, avaliamos que a cobertura jornalística deve sempre se pautar por diversidade de fontes e devida contextualização dos fatos. Não se deve fomentar, de forma irresponsável, ilações, sem qualquer comprovação, do envolvimento de membros do governo com grupos criminosos, reforçando absurdas teses de setores extremistas que tanto mal causaram à democracia brasileira”, diz o texto – leia a íntegra ao final da reportagem.

Nova denúncia de assédio

Também nesta quarta, três dias após a denúncia feita por colaboradores do Estadão sobre suposta armação na reportagem que tenta ligar Flávio Dino ao Comando Vermelho, o site Brasil 247 teve acesso à nova denúncia feita por jornalistas do veículo de ultradireita paulista contra a empresa e Andreza Matais.

No documento, apresentado ao MPT-DF sob o número de protocolo 003036.2023.10.000/8, os jornalistas fazem um “pedido de socorro” e citam, inclusive, a reação da direção do Estadão às acusações.

“Mais uma vez, colaboradores do jornal Estadão se veem obrigados a procurar o Ministério Público do Trabalho para que seus direitos trabalhistas e fundamentais sejam preservados. Depois de denúncias feitas contra a gestora Andreza Matais, contra a gestão editorial do Estadão e obviamente contra o próprio Estadão como pessoa jurídica, o jornal tenta se fazer de vítima, como se estivesse sendo ‘perseguido’ por fazer jornalismo independente. Tal distorção, feita pelo jornal, investigado seguidas vezes por ilegalidades trabalhistas, é um disparate completo, porque o jornal só está sendo denunciado pelas inúmeras ilegalidades trabalhistas que cometeu”, diz trecho da nova denúncia.

Questionada pelo Brasil 247 sobre a acusação, Andreza Matais se disse vítima de misoginia e de perseguição por parte do governo federal e da mídia independente – leia a íntegra da nova denúncia.

Leia a íntegra da nota da Fenaj e SJPDF

Caso Estadão: entidades pedem respeito ao Código de Ética e repudiam perseguições

Nas última semana, vieram à tona questionamentos sobre reportagens publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo (Estadão) e as reações de membros do governo federal em relação à participação de uma pessoa indicada pelo Mecanismo de Combate à Tortura do Amazonas em reuniões nos ministérios da Justiça (MJSP) e Direitos Humanos (MDHC), bem como no Congresso Nacional e Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

É preciso destacar que o trabalho jornalístico tem como base fundamental o direito à informação, que abrange o direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação, a partir de critérios claros de relevância e interesse público, e de respeito a princípios éticos.

Diante desse quadro, o trabalho da imprensa numa democracia não pode sofrer impedimentos de caráter censório, mas a divulgação da informação precisa, correta, verdadeira e ética é uma responsabilidade essencial dos jornalistas, que desenvolvem um trabalho social, como preconiza o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.

É absolutamente natural que, num ambiente democrático, o trabalho dos jornalistas possa, sim, ser alvo do escrutínio público e receber críticas que ajudem esclarecer enquadramentos e corrigir equívocos, como um processo de aperfeiçoamento do próprio ofício e em nome da necessária pluralidade na esfera pública.

Nesse sentido, avaliamos que a cobertura jornalística deve sempre se pautar por diversidade de fontes e devida contextualização dos fatos. Não se deve fomentar, de forma irresponsável, ilações, sem qualquer comprovação, do envolvimento de membros do governo com grupos criminosos, reforçando absurdas teses de setores extremistas que tanto mal causaram à democracia brasileira.

Essas críticas não podem se confundir com perseguições. Estas últimas, sim, absolutamente repudiáveis. Por isso, não aceitaremos agressões contra jornalistas, seja por parte de entes estatais, autoridade ou personalidade pública. Repudiamos também ações massivas na internet que ataquem a integridade moral de jornalistas no exercício da profissão.

Como entidades de caráter sindical e, portanto, de defesa dos trabalhadores e seus direitos, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) seguirão cobrando o cumprimento dos direitos trabalhistas no Estadão. Falta de controle de jornadas extenuantes e não pagamento de horas extras são algumas das violações principais que as entidades têm denunciado e combatido há anos. E seguiremos vigilantes sobre quaisquer situações que configurem assédio moral individual ou coletivo na sucursal do jornal em Brasília.

Por fim, informamos que quaisquer violações éticas podem ser denunciadas às respectivas Comissões de Ética dos Sindicatos e da Fenaj, que apuram e julgam as denúncias de transgressão ao Código de Ética dos Jornalistas, cometida por jornalista na jurisdição de entidade sindical.

Brasília, 21 de novembro de 2023.

Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)

Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF)


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