25/02/2024 - Edição 525

Poder

Em resposta à PF, Bolsonaro faz vitimismo barato para seguidores

'Profecia' gera suspeita de vazamento da ação contra Carluxo

Publicado em 30/01/2024 12:03 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL), Lucas Neiva (Congresso em Foco) – Edição Semana On

Divulgação

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Ao se dizer vítima de perseguição política, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) fala sobre o assunto com o conhecimento de um especialista, como deixam claras as evidências sobre a chamada “Abin paralela”. Sempre que se apresenta como vítima de perseguição política, Bolsonaro fala com certo conhecimento de causa. Perseguição é uma de suas especialidades. Não se deve jamais perder tempo discutindo com um especialista.

No caso da ‘Abin paralela’, o debate é até desnecessário. O próprio Bolsonaro assumiu a missão inconsciente de se autodesnudar, como quem desvenda os próprios crimes cometendo-os com um certo desleixo, com descuido extremo. A Polícia Federal chega ao Bolsonaro com quatro anos de atraso.

É desnecessário alguém analisar se há perseguição política, porque ela não existe. O que há é um atraso na investigação. Fica evidente que essa ‘Abin paralela’ operou e são eloquentes os indícios de que Bolsonaro se serviu desse sistema.

Bolsonaro foi muito zeloso no cometimento dos deslizes para que a PF o apanhasse. Neste caso, ele foi um transgressor didático, como se quisesse ensinar os caminhos deixando pistas para a PF apanhá-lo. Não dá para ele alegar que está sendo perseguido.

O argumento é tão tosco que os bolsonaristas desafiam a inteligência alheia. Imaginam que a plateia é 100% feita de idiotas, de pessoas que não se dão conta de que isso não faz nexo. Não tem lógica.

Não existe perseguição política. Essa tese é uma tolice, desprezada por um número crescente de brasileiros. Mas é um argumento que ainda tem muito apelo em um pedaço do eleitorado com apreço pelo direitismo troglodita representado pelo Bolsonaro. O bolsonarismo, com deputados e aliados, ecoa o apito que Bolsonaro toca.

Bolsonaro e seus aliados usam a tese de perseguição política porque não contam mais com a estrutura que armaram dentro da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal para encobrir seus crimes.

A Procuradoria, sem Aras, e a PF, sem o aparelhamento feito pelo ex-presidente, está realizando investigações que poderiam ter começado muito bem durante a presidência do Bolsonaro. Só que ele agiu para manietar esses órgãos

O que há é uma profusão de crimes que não puderam ser investigados quando foram cometidos porque a Procuradoria estava aparelhada e a PF, submetida às conveniências do Bolsonaro. Isto de perseguição política é uma tolice de grandes proporções.

‘Profecia’ de Bolsonaro gera suspeita de vazamento da ação contra Carluxo

Uma “profecia” de Bolsonaro, que vem sendo divulgada em suas redes e aplicativos de mensagens desde o dia 21 de janeiro, reforça a suspeita de que o ex-presidente e sua família sabiam sobre as operações da Polícia Federal que investigam espionagem em seu governo e que atingiram seu filho, Carlos Bolsonaro (Republicanos). E, com isso, cresce a desconfiança no governo sobre o atual número 2 da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Alessandro Moretti.

O vereador no Rio de Janeiro é o principal nome da operação que apura quais foram os beneficiários de espionagem ilegal conduzida na Abin durante o governo de seu pai. Na última quinta (25), o alvo já tinha sido o ex-diretor-geral da agência e, hoje, deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ).

Ele é investigado pelo uso sem autorização judicial do software First Mile, que monitora o deslocamento de alvos. A Polícia Federal também tenta descobrir se o governo Bolsonaro grampeou as comunicações e investigou a vida financeira de desafetos, produzindo dossiês para o uso do ex-presidente e seus aliados.

Carlos foi apontado na época da CPMI das Fake News como o chefe de um Gabinete do Ódio nas dependências do Palácio do Planalto, com pessoas pagas pelo erário para atacar adversários políticos, partidos, juízes, jornalistas. O tenente-coronel Mauro Cid, ex-faz tudo de Jair, reforçou essa acusação em sua delação premiada.

No dia 21 de janeiro, em uma mensagem a grupos de Telegram, Bolsonaro postou que “as próximas semanas serão decisivas” e que “vivemos momentos difíceis”. A mesma mensagem foi replicada a seus seguidores em outras plataformas, como no X/Twitter, no dia 24 – véspera da operação que teve Ramagem como alvo principal.

O jornalista Leonardo Sakamoto (UOl) conversou com duas fontes no Palácio do Planalto que apontaram que a operação vai ajudar a entender a que informações privilegiadas e ilegais o ex-presidente continua tendo acesso. Ou seja, a questão não é “se” há vazamento, mas o que vaza e como isso ocorre.

A desconfiança é sobre alguns servidores na Agência Brasileira de Inteligência que seguiriam fiéis ao governo passado. Outra fonte no Ministério da Justiça defendeu à coluna que Alessandro Moretti, diretor-adjunto da Abin, não é apenas bolsonarista, mas nome de confiança deles.

Em meio às operações sobre a arapongagem em seu governo, Jair Bolsonaro realizou, no domingo (28), uma live com Carlos, além do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Entre os seus alvos, o Tribunal Superior Eleitoral, o Supremo Tribunal Federal, Lula e seu governo e a Polícia Federal.

A transmissão foi feita a partir de uma das casas do ex-presidente, em Angra dois Reis (RJ). Quando a PF apareceu no local, nesta manhã para cumprir os mandados de busca e apreensão contra Carlos, todos haviam ido embora de lancha e a casa estava vazia. Voltaram somente horas depois e o vereador teve um celular apreendido.

Metade das espionagens foi feita nas eleições de 2020

Informações colhidas pela Polícia Federal na operação que investiga os indícios de criação de um aparato paralelo na Abin para atender a interesses políticos da família Bolsonaro revelam que as eleições municipais de 2020 foram o ápice das ações clandestinas de rastreamento de celulares. Dentre as mais de 60 mil consultas realizadas pela agência ao sistema First Mile, 30 mil aconteceram no período eleitoral.

O sistema First Mile foi um programa adquirido pela Abin, durante a gestão do hoje deputado Delegado Ramagem (PL-RJ), que permite rastrear a localização de aparelhos celulares. A PF acredita que uma de suas atividades tenha sido a de monitorar opositores ao governo de Jair Bolsonaro, motivo pelo qual o parlamentar foi alvo de uma operação de busca e apreensão na última quinta-feira (25).

Nesta segunda-feira (29), um novo mandado de busca e apreensão foi executado na residência do vereador fluminense Carlos Bolsonaro. Em sua decisão, o relator Alexandre de Moraes citou um trecho de relatório da PF com base em informações apresentadas pela Corregedoria-Geral da União (CGU), que aponta para a intensificação das atividades da suposta Abin paralela no período eleitoral de 2020.

“A premissa investigativa ganha concretude com a identificação de informações sigilosas impressas pelo Del. Alexandre Ramagem possivelmente para entregar aos destinatários do núcleo político. A CGU, nesta trilha, identificou impressão de documento pelo então Diretor da Abin contendo a lista contendo informações dos Inquéritos Eleitorais da Polícia Federal no Estado do Rio de Janeiro. A lista (…) apresentava o número de inquérito, nome do investigado, o cargo político e o partido político”, registrou a PF.

A discrepância entre a quantidade de consultas ao sistema First Mile ao longo do período eleitoral em relação ao resto do tempo em que foi empregada. Além disso, a polícia judiciária rastreou uma troca de mensagens de texto entre Luciana Almeida, assessora de Carlos Bolsonaro, e Priscila Pereira e Silva, que foi assessora de Ramagem, solicitando informações sobre um inquérito policial que supostamente envolvia Jair Bolsonaro e três de seus filhos.

Para Alexandre de Moraes, relator do inquérito, as provas colhidas pela PF indicam que o núcleo político da Abin paralela “se valeu de métodos ilegais para a realização de ações clandestinas direcionadas contra pessoas ideologicamente qualificadas como opositoras, (…) bem como para fiscalizar indevidamente o andamento de investigações em face de aliados políticos”.

Para além de monitorar inimigos políticos, a decisão de Moraes destaca a criação de núcleos da Abin paralela para tentar vincular a imagem de rivais ao grupo armado Primeiro Comando Capital (PCC), bem como perseguir agentes públicos, citando como exemplo o servidor do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) Hugo Ferreira Netto Loss, exonerado do órgão em 2020 após coordenar operações contra o garimpo no sul do Pará.

Moraes ressalta a possibilidade de a atuação da Abin contra rivais da família Bolsonaro ter sido ainda mais intensa sob a gestão de Ramagem. “Os significativos indícios colhidos pela Polícia Federal apontam a possibilidade de identificação de ainda mais núcleos de atuação da organização criminosa, com participação de outros agentes ainda não identificados”, comentou na decisão.


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