01/03/2024 - Edição 525

Poder

Cerco fechado: Bolsonaro, assessores e generais são alvos da PF por tentativa de golpe de Estado

Federal realiza operação contra organização criminosa bolsonarista que atentou contra a democracia: são 33 mandados de busca e apreensão, quatro de prisão e 48 medidas cautelares

Publicado em 08/02/2024 10:35 - Leonardo Sakamoto, Josias de Souza e Jamil Chade (UOL), ICL Notícias – Edição Semana On

Divulgação

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Após um ano de operações que atingiram, principalmente, a horda que vandalizou as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, além de pequenos e médios financiadores, a Polícia Federal realiza, nesta quinta (8), operação contra a cúpula bolsonarista para apurar a existência de uma organizacão criminosa que tentou dar um golpe de Estado. E, com 60 anos de atraso, atinge vários militares que passaram pela cúpula das Forças Armadas.

Entre os alvos fardados dos 33 mandados de busca e apreensão, quatro mandados de prisão e 48 medidas cautelares, frutos da delação do ex-faz-tudo Mauro Cid, estão o general Augusto Heleno, ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o general Braga Netto, ex-ministro-chefe da Casa Civil e candidato a vice na chapa de Jair à reeleição, o general Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, o general Estevam Cals Theophilo Gaspar Oliveira, ex-chefe do Comando de Operações Terrestres, o almirante Almir Garnier Santos, ex-comandante da Marinha, e o general Mario Fernandes, que foi o número 2 da Secretaria-Geral da Presidência.

E, claro, o próprio Jair Messias Bolsonaro, capitão reformado do Exército e que seria o principal beneficiário do golpismo.

O ex-assessor presidencial Filipe Martins já foi preso nesta manhã, bem como o coronel Marcelo Costa Câmara, ex-ajudante de ordens de Jair. Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, e Tércio Arnaud Tomaz, ex-assessor de Bolsonaro e membro do chamado “Gabinete do Ódio” também estão na lista de mandados de busca.

Segundo a PF, a organização atuou, de um lado, para difundir mentiras sobre fraudes nas eleições e, do outro, para produzir atos para subsidiar um golpe de Estado, inclusive com militares com conhecimento de táticas de guerra híbrida.

Esses alvos da Polícia Federal também estavam no relatório final da senadora Eliziane Gama (PSD-MA) na CPI dos Atos Golpistas, aprovado em outubro do ano passado, como Bolsonaro, Braga Netto, Anderson Torres, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira, Almir Garnier, Filipe Martins, Costa Câmara e Tércio Arnaud.

O texto pediu o indiciamento de 61 pessoas, entre civis e militares, pelo mesmo motivo que guia a operação desta quinta: tentativa de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

Da operação à punição dos que tiverem a culpa comprovada, vai um longo caminho. Mas é salutar que tanto a cúpula do golpismo comece a sentir um suadouro quanto os militares que atropelaram a Constituição também sejam, publicamente investigados.

Isso explica o desespero de uma parte da extrema direita para articular uma anistia no Congresso Nacional. Não era altruísmo, mas autopreservação.

Apesar dos esforços do atual comandante do Exército, general Tomás Ribeiro Paiva, e do naco democrata da cúpula das três forças, para que os militares tenham um comportamento republicano e constitucional, são muitas as vivandeiras cúmplices da tentativa de golpe.

Nos seus quatro anos de governo, Jair fechou uma sociedade com os militares, oferecendo cargos, vantagens na Reforma da Previdência, licitações de produtos de luxo para o oficialato.

Sob o capitão, militares se beneficiaram de Viagra e próteses penianas, camarão e filé mignon e continuaram ganhando pensões especiais para filhas não casadas e acesso a hospitais especiais. Coronéis articularam bizarras reuniões em que se negociou com reverendos, servidores públicos e indicados de políticos, sobrepreço e propinas para a compra de doses de vacina contra a covid-19 enquanto pessoas morriam por falta de imunizante.

O então presidente cobrou, em troca, cumplicidade para dobrar a democracia à sua imagem e semelhança. A quebra do sigilo do celular do tenente-coronel Mauro Cid, ex-faz-tudo de Bolsonaro, mostrou mensagens de oficiais sugerindo formas de executar o golpe de Estado e minutas golpistas dando poderes ditatoriais às Forças Armadas. Sem contar a vergonha de militares transformando-se em camelôs de joias surrupiadas da União para benefício pessoal do então presidente.

Bolsonaro atacou as urnas eletrônicas com a ajuda dos militares ao longo de anos. E, em, novembro do ano passado, os comandantes das três forças soltaram uma nota com uma falácia absurda, apontando que o fato de não terem encontrado problemas nas urnas não significava que eles não existiam.

Após o segundo turno, os comandantes das Forças Armadas deram uma passada de pano monumental nos movimentos golpistas que acampavam em torno de quartéis e trancavam rodovias. Defenderam, em nota pública, que os atos eram legítimos, ignorando que eles não estavam pedindo mais arroz e feijão, educação ou saúde, mas um golpe de Estado com participação e prisão do presidente eleito. Esses “atos legítimos” desaguaram na tentativa de golpe.

Dezenas de acampamentos montados à frente de instalações militares em cidades de todo o Brasil após as urnas darem a vitória a Lula serviram para abastecer a mobilização golpista de 8 de janeiro.

E o acampamento golpista em frente ao QG do Exército também serviu de cabeça-de-ponte para o ataque à sede da Polícia Federal e a queima de carros e ônibus no dia 12 de dezembro e o planejamento da bomba colocada em um caminhão de combustível a fim de explodir o aeroporto de Brasília na véspera de Natal, além do próprio 8 de janeiro.

Para além da tramoia que levou ao 8 de janeiro, fardados continuaram agindo mesmo após a intentona. O Exército impediu a entrada da Polícia Militar no acampamento golpista em frente ao seu quartel-general, em Brasília, naquela noite. Imagens de dois blindados deslocados para mostrar que o comando falava sério chocaram muita gente que apostava que a ditadura militar havia terminado em 1985. Com isso, muitos bolsonaristas tiveram tempo de fugir.

Como explicar que a nossa força terrestre foi guarda-costas de golpistas? A quem a sua “mão amiga” e o seu “braço forte” estavam protegendo?

Como já disse aqui, nunca curamos as feridas deixadas por 21 anos de ditadura. Tapamos com um curativo mal feito, ao qual chamamos de transição lenta, gradual e segura.

Mas essas feridas continuam fedendo, apesar dos esforços estéticos. Não apenas pelo apoio e a anuência de membros das Forças Armadas à tentativa de golpe de 8 de janeiro, mas toda vez que o Estado mata – não como um infeliz efeito colateral da proteção da população ou de si mesmo, mas como execução de uma política de limpeza e contenção social.

Este seria o momento de promover mudanças legislativas para garantir que militares fardados fiquem na caserna, deixando a política para civis, como tramita no Congresso Nacional. Mas não só: o ideal seria revisar a legislação para impedir a distorção da Constituição por extremistas que acreditam no tal poder moderador.

Se militares não foram presos pelo golpismo de 1964, que o sejam pelo de 2023.

General alvo de operação da PF tentou dominar forças de elite do Exército

Alvo de busca e apreensão na operação feita hoje pela Polícia Federal, Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, general de quatro estrelas, tentou dar uma espécie de golpe na própria no Exército para colocar sob seu comando as organizações militares de elite da força. Ele era comandante de Operações Terrestres do Exército (Coter).

Teophilo teria sugerido a criação de um comando multidomínio para ter as forças de elite do Exército sob a alçada de apenas um general: ele próprio. Com isso ficariam sob o guarda-chuva do Coter integrantes dos comandos de operações especiais, artilharia, defesa cibernética, comunicação e guerra eletrônica, entre outras tropas especializadas.

A ideia teria sido bem recebida pelo atual comandante do Exército, general Tomás Ribeiro Paiva, mas gerou clima de desconfiança no Alto Comando, já que concentraria poder excessivo nas mãos de uma única pessoa.

Estevam Theophilo chegou a ser cogitado para assumir o Comando do Exército em novembro de 2022, quando os militares avaliavam quem assumiria o posto no governo Lula — o escolhido foi o general Júlio Cesar de Arruda, que caiu após os atos golpistas no dia 8 de janeiro. Dos quatro indicados, no entanto, Theophilo era o último a ganhar as quatro estrelas, entregues a ele quando assumiu o Coter.

Assim como Bolsonaro, Estevam Theophilo foi aluno da Academia Militar das Agulhas Negras, a Aman.

Martins defendeu alinhamento com Trump e foi apelidado de ‘SorocaBannon’

Filipe Martins, preso hoje na operação que investiga uma tentativa de golpe de Estado, foi um dos responsáveis por construir a política externa de Jair Bolsonaro, considerada por observadores nacionais e estrangeiros como um dos feitos mais devastadores para a imagem do Brasil no exterior em décadas.

Diplomatas relatam que ele fez parte de uma espécie de triunvirato ao lado de Eduardo Bolsonaro e Ernesto Araújo (ex-chefe do Itamaraty) que redefiniu as bases da diplomacia do país.

Seu foco foi sempre a aliança com o governo americano de Donald Trump, que chegou a recebê-lo no Salão Oval.

Ele é ainda creditado por ter sido um dos principais inspiradores do discurso de Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU, em 2019. A fala deixou parceiros tradicionais do Brasil revoltados e em choque com a violência apresentada. A agressividade adotada em relação aos governos de Cuba e Venezuela também teria nascido de suas propostas.

Discípulo de Olavo de Carvalho, Martins se aproximou da família Bolsonaro antes das eleições de 2018 com um discurso ideológico e inflexível. Com pouco mais de 30 anos e sem qualquer experiência em órgãos oficiais, ele foi alçado a assessor especial do Planalto para Assuntos Internacionais. O gesto deixou dezenas de experientes diplomatas preocupados.

Dois anos depois, em meio a uma crise entre os senadores e o então chanceler Ernesto Araújo, o Ministério Público Federal acusou Martins de ter feito um gesto que poderia ser interpretado como uma alusão a movimentos supremacistas dos EUA. Ele sempre negou.

Já fora do governo, Martins concedeu uma entrevista para o apresentador americano Tucker Carlson afirmando que “Joe Biden entendeu que é melhor que Bolsonaro continue no poder” no Brasil. Na mesma conversa, ele afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoiava “terroristas e o crime organizado”.

Em 2021, ele se envolveu em outra polêmica. De acordo com um informe da Polícia Federal de 7 de setembro daquele ano, Martins acompanhou Jason Miller, CEO da rede social Gettr e ex-assessor de Trump, e o empresário Gerald Brant, quando ambos foram levados pela PF para depor.

“Cumpre informar que durante o procedimento, entrou na sala um Senhor que se identificou como Filipe Martins. Ao ser questionado pela autoridade policial se este era advogado de Jason ou Gerald, Milena informou que se tratava de seu amigo e que ele estava no local apenas para resolver questões dos honorários”, escreveu o informe da PF.

“Foi solicitada a identificação de Filipe para que fosse registrada sua presença. Filipe Garcia Martins Pereira apresentou sua identificação. Após alguns instantes, compareceu ao local Adam Vogelzang (secretário da Embaixada dos EUA no Brasil). Próximo do término das diligências, a advogada Milena solicitou que não fosse certificada a presença de FILIPE MARTINS tendo em vista que este era apenas seu namorado e que estava ali no local apenas esperando para que almoçassem juntos”, afirmou.

Nos corredores do Itamaraty, o assessor ganhou diversos apelidos. Um dos mais citados era “SorocaBannon”, em referência a suas ligações com Steve Bannon e ao fato de ser originário da região de Sorocaba (SP).

Bannon foi um dos mentores de comunicação de Trump e, após o 8 de Janeiro de 2023 no Brasil, comemorou a iniciativa dos apoiadores de Bolsonaro.

Outro nome usado para designar Martins dentro do Itamaraty era Robespirralho, numa alusão a um dos líderes da Revolução Francesa, Robespierre. Ele acabaria guilhotinado.

Lula fala sobre operação da PF e deseja que Bolsonaro tenha ‘presunção de inocência’

Após operação da PF, o presidente Lula (PT), em entrevista à Rádio Itatiaia transmitida em suas redes sociais, disse esperar que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tenha a presunção de inocência que ele não teve.

“Eu quero que o ‘seu’ Bolsonaro tenha a presunção de inocência que eu não tive. Quero que seja investigado e seja apurado e quem tiver responsabilidade, que pague pelos seus erros”, comentou Lula.

Na declaração, Lula ressaltou, ainda, que por se tratar de uma investigação sigilosa da Polícia Federal, não cabe ao presidente da República “dar palpite” sobre a operação. O presidente afirmou que os financiadores dos acampamentos precisam ser investigados.

“Obviamente que tem muita gente envolvida, eu acho que tem muita gente que vai ser investigada porque o dado concreto é que houve uma tentativa de golpe, houve uma política de desrespeito à democracia, de destruir uma coisa que nós construímos há tantos anos, que é o processo democrático. Essa gente tem que ser investigada, nós queremos saber quem pagou e financiou aqueles acampamentos para que a gente nunca mais permita que aconteça o fato que aconteceu no dia 8 de janeiro”, disse Lula.

Lula afirmou que deseja que as investigações e ações da PF sobre os atos golpistas de 8 de janeiros sejam realizadas do jeito “mais democrático possível”.

“Eu espero que a Polícia Federal faça a coisa do jeito mais democrático possível, que não haja nenhum abuso, que faça aquilo que a Justiça determinou que faça e depois, apresente para a sociedade o resultado daquilo que eles encontraram”, afirmou.

A declaração do presidente também foi publicada em seu perfil na plataforma “X”, antigo Twitter.


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