25/04/2024 - Edição 540

Poder

‘Caso Hungria’ é ponta de iceberg de cooperação global da extrema direita

Prisão seria um presente para Bolsonaro, uma humilhante tornozeleira bastaria neste momento

Publicado em 26/03/2024 9:52 - Leonardo Sakamoto, Josias de Souza e Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On

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O general Braga Netto chamou de “cagão” o então comandante do Exército, general Freire Gomes, por ele não ter mergulhado de cabeça no golpe de Estado. Ironicamente, reportagem do jornal The New York Times não mostra Freire Gomes, mas Jair Bolsonaro se refugiando por dois dias na Embaixada da Hungria, em Brasília, após entregar o passaporte na operação que investiga os ataques de seu governo à democracia.

Ele chegou ao local no dia 12 de fevereiro. Imagens de câmeras de segurança mostram o ex-presidente se encontrando com o embaixador Miklos Halmai. Havia o plano de dar asilo a Bolsonaro, uma vez que terreno de embaixada conta, por convenções internacionais, com imunidade. Neste caso, o território só pode ser adentrado pela polícia local com a autorização do governo estrangeiro.

Considerando que ele não estava atrás de um bom prato de goulash húngaro, o “mito” se muquiou com medo de ir para o xilindró.

O mais bizarro é que, no mesmo 12 de fevereiro, Jair postou um vídeo convocando seus apoiadores a passarem pano para seu golpismo na avenida Paulista, em 25 de fevereiro. Sim, chamou os seus seguidores para a linha de frente, enquanto ele se escondia.

Verás que um filho teu não foge à luta, diz o hino. Bolsonaro, ao que tudo indica, não é filho. Por que não é a primeira vez que busca fugir para não ser vinculado ao golpe tramado em seu benefício, deixando outras pessoas irem para a Papuda no seu lugar. Há, portanto, um padrão.

Vale lembrar que ele largou a Presidência da República dois dias antes do final do prazo e fugiu para os arredores da Disney em 30 de dezembro de 2022. Com isso, deixou seus apoiadores fazerem o trabalho sujo em seu nome em 8 de janeiro de 2023 enquanto estava são e salvo na Flórida, desfrutando de um cartão de vacinação falso e de joias surrupiadas do patrimônio nacional.

A Igor Gadelha, do portal Metrópoles, Bolsonaro confirmou que esteve na embaixada. “Não vou negar que estive na embaixada sim. Não vou falar onde mais estive. Mantenho um círculo de amizade com alguns chefes de Estado pelo mundo. Estão preocupados”, afirmou. A Túlio Amâncio, da Band, disse ter o “direito de ir e vir”. Considerando as medidas que obrigam que ele esteja à disposição da polícia e da Justiça, seria o “direito de ir e fugir”? Seus advogados dizem que ele estava fazendo contatos. Ahã, Claudia, senta lá.

Dessa forma, Jair parece querer abrir para si a porta da cadeia. Apesar de o Supremo Tribunal Federal não ver clima para sua prisão antes de uma condenação transitada em julgado, a operação na representação diplomática do governo de Viktor Orbán mostra que não adianta simplesmente confiscar o passaporte. Ele tem contatos e recursos para ficar longe do efeito das decisões da Justiça brasileira.

O mais irônico é que Lula teve convite de uma série de nações estrangeiras quando estava para ser preso por conta da condenação da Lava Jato em 2018. Não aceitou. Disse que enfrentaria a cana e defenderia a sua inocência. Permaneceu preso por 580 dias, depois teve sua condenação extinta pela promiscuidade do então juiz Sérgio Moro com a força-tarefa de procuradores da República.

Bolsonaro nem foi condenado ainda, mas já faz de embaixadas de países com governos de extrema direita o seu Airbnb.

Prisão seria um presente para Bolsonaro, tornozeleira basta

Rui Barbosa ensinou que a força do direito deve superar o direito da força. As duas noites que Bolsonaro passou na embaixada da Hungria em fevereiro, após ter o passaporte apreendido, seriam um bom pretexto para uma exibição de força de Alexandre de Moraes. Mas o ministro fortalecerá os inquéritos que conduz se evitar presentear Bolsonaro com um mandado de prisão preventiva.

Bolsonaro não é um investigado convencional. Ele denuncia o cinismo dos advogados consigo mesmo. Deixando-se flagrar pelas câmeras de segurança, exibe o que a defesa gostaria de ocultar. Dentro da embaixada, estaria legalmente fora do alcance dos rapazes da Polícia Federal. É como se soprasse uma língua de sogra na cara do Xandão.

Freud não explica. Mas Moraes deu 48 horas para os advogados de Bolsonaro tentarem explicar. Em nota, já alegaram que o capitão passou dois dias na embaixada para “manter contatos com autoridades do país amigo”. Na prática, os doutores pedem ao Brasil e ao Supremo que se façam de bobos pelo bem do seu cliente. Bolsonaro não é louco. Loucos são os outros.

A prisão seria um presente porque permitiria ao mito reforçar a pose de vítima que seus devotos compram. Convém ao Supremo converter-se momentaneamente numa espécie de centro terapêutico para tratar Bolsonaro de suas loucuras.

O arsenal de Moraes não inclui camisa de força. Mas o ministro pode impor ao investigado o uso da tornozeleira eletrônica. No limite, pode adicionar ao castigo a obrigatoriedade de se apresentar uma vez por semana à Justiça. Mais adiante, quando vier a condenação, a ordem de prisão será vista não como abuso de poder, mas como cura. Encrencados como Bolsonaro não são presos, eles têm alta.

Bolsonaro virou caricatura que foge ao controle de si mesma

Há uma originalidade cômica nos movimentos de Bolsonaro. Suas ações são autodestrutivas. Na Presidência, comportou-se como um suicida didático. Demarcou os erros com tanto cuidado que facilita o trabalho dos investigadores da Polícia Federal. Agora, assombrado pela perspectiva de uma prisão que já enxerga como incontornável, deixou-se filmar esboçando algo muito parecido com uma rota de fuga.

Constrangido pela divulgação das imagens, Bolsonaro confirmou que pernoitou duas noites na embaixada húngara. Em nota, seus advogados alegaram que a hospedagem serviu para que o capitão conversasse com autoridades da Hungria. Em pleno Carnaval, dedicaram-se a atualizar os cenários políticos de dois países amigos.

Considerando-se que um automóvel demora cerca de 20 minutos para se deslocar da casa de Bolsonaro até a embaixada, fica difícil revestir de lógica uma desculta tão esfarrapada. Não há força no universo capaz de deter a maledicência segundo a qual Bolsonaro se equipa para pedir a proteção do autocrata húngaro Viktor Orbán.

Ninguém em sã consciência deixa tantas pistas óbvias. Mas Bolsonaro, como uma caricatura que foge ao controle de si mesma, antecipa a rota de fuga: farejando a prisão, ele entra na embaixada da Hungria, se apresenta como perseguido político e pede asilo diplomático.

Para deixar o Brasil, precisaria de um salvo-conduto do governo. Negando-o, Lula estimularia os devotos do mito a erguerem suas barracas no setor de embaixadas de Brasília. Tanto didatismo submete Bolsonaro ao risco de amargar antes da hora uma prisão preventiva que o Supremo preferia evitar.

Chamado ao Itamaraty, embaixador húngaro silencia sobre abrigo a Bolsonaro

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva convocou o embaixador da Hungria em Brasília, Miklos Halmai, para se explicar.

Ele não foi recebido pelo chanceler Mauro Vieira, mas apenas pela chefe do departamento que se ocupa da Europa, Maria Luisa Escorel, com a missão de deixar claro o desagravo do Brasil em relação ao abrigo oferecido pela Hungria.

A reunião durou apenas 20 minutos. O diplomata estrangeiro se manteve em silêncio, sem prestar os esclarecimentos que eram pedidos. Ele apenas escutou a embaixadora brasileira e, durante a reunião, permaneceu em contato com seus superiores, em Budapeste.

A suspeita dentro do Itamaraty é que a diplomacia húngara tenha coordenado o silêncio e seu comportamento com a própria defesa do ex-presidente. Fontes na diplomacia húngara confirmaram ao UOL que o embaixador no Brasil é um ideólogo convicto da posição política do líder de extrema direita, Viktor Orbán.

Situação abre crise diplomática entre os dois países

Na prática das chancelarias, a convocação de um embaixador tem como objetivo pedir esclarecimentos e mandar uma mensagem de que um gesto daquele governo estrangeiro não foi bem aceito.

O governo estima que, sob investigação, Bolsonaro não era apenas um ator político realizando contatos com um governo estrangeiro. O gesto, portanto, seria uma intromissão em assuntos domésticos, algo proibido nas regras diplomáticas.

Assim que o New York Times revelou o caso, diplomatas brasileiros se reuniram para avaliar qual seria a resposta. Mas a paciência de uma ala do Itamaraty com o húngaro já começou a se esgotar.

Poucos dias antes da ida de Bolsonaro à embaixada da Hungria, o Itamaraty já havia avisado aos representantes húngaros que não era adequado a intromissão das autoridades de Budapeste em temas de política doméstica. Naquele momento, sem anunciar publicamente, o Itamaraty convocou para consultas o mesmo embaixador húngaro em Brasília, Miklos Halmai, antes da passagem de Jair Bolsonaro pela embaixada.

O motivo, em fevereiro, havia sido uma postagem nas redes sociais por parte do primeiro-ministro e líder da extrema-direita, Viktor Orbán. Nas redes, o húngaro colocou uma foto sua ao lado de Bolsonaro e escreveu: “Um patriota honesto. Continue lutando, senhor presidente”.

A data era 8 de fevereiro, horas depois de iniciada uma operação da PF por conta das investigações sobre a suspeita da participação de bolsonaristas e militares numa tentativa de golpe de Estado.

Quem recebeu Halmai na sede do Itamaraty foi a mesma embaixadora Maria Luisa Escorel, responsável pelo departamento no Itamaraty que se ocupa da Europa.

Hungria: pária no cenário internacional, central para o bolsonarismo

A relação entre Bolsonaro e Orbán foi construída ao longo dos quatro anos em que o brasileiro esteve no poder. Foi em seu governo que, pela primeira vez, houve uma visita de um chanceler do país para a Hungria. Foram estabelecidas posições comuns sobre temas como imigração, aborto, religião e votos na ONU. O governo de extrema-direita da Hungria de Viktor Orbán pediu ainda uma parceria com Jair Bolsonaro para financiar a ajuda comunidades de cristãos no Oriente Médio e, no momento da reeleição, ofereceu ajuda ao ex-presidente.

O então chanceler Ernesto Araújo não foi o único a fazer suas peregrinações para Budapeste. No total, nos primeiros doze meses de governo, foram seis visitas de alto escalão entre os dois países, inclusive de Eduardo Bolsonaro e Damares Alves.

Outra personagem central na relação era Angela Gandra, secretária de Família no Ministério de Direitos Humanos.

Durante seu mandato, Bolsonaro visitou o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. A viagem foi usada como uma espécie de reconhecimento internacional ao projeto mais avançado da extrema-direita para impor seu modelo.

Insignificante para o comércio brasileiro, marginal no debate geopolítico, pária dentro da Europa e com um peso irrisório no palco internacional, a Hungria foi uma parada na turnê europeia de Bolsonaro que apenas atendeu aos interesses do movimento de extrema-direita.

A tríade entre Donald Trump, Jair Bolsonaro e Viktor Orbán também era evidente na diplomacia. Quando o americano foi derrotado nas urnas, ele passou para o Brasil a liderança de uma aliança ultraconservadora e que tinha como objetivo redefinir a agenda internacional na questão de direitos humanos.

Quando Bolsonaro foi derrotado nas urnas, essa liderança foi repassada do Brasil para a Hungria.

‘Caso Hungria’ é ponta de iceberg de cooperação global da extrema direita

A presença de Jair Bolsonaro numa embaixada de um país liderado por Viktor Orbán é apenas a ponta do iceberg de uma coordenação global do movimento de extrema direita no mundo.

Com reuniões secretas, encontros virtuais e uma cooperação real, grupos extremistas no Brasil, Europa e EUA adotam posições similares em debates internacionais, copiam slogans, métodos de atuação e apoios recíprocos.

No caso húngaro, a relação entre Bolsonaro e Orbán foi construída ao longo dos quatro anos em que o brasileiro esteve no poder. Foi em seu governo que, pela primeira vez, houve uma visita de um chanceler do país para a Hungria. Foram estabelecidas posições comuns sobre temas como imigração, aborto, religião e votos na ONU. O governo de extrema-direita da Hungria de Viktor Orbán pediu ainda uma parceria com Jair Bolsonaro para financiar a ajuda comunidades de cristãos no Oriente Médio.

Mas o então chanceler Ernesto Araújo não foi o único a fazer suas peregrinações para Budapeste. No total, foram seis visitas de alto escalão entre os dois países, inclusive de Eduardo Bolsonaro e Damares Alves, em menos de doze meses.

Outro personagem central na relação era Angela Gandra, secretária de Família no Ministério de Direitos Humanos.

Durante seu mandato, Bolsonaro visitou o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. A viagem foi usada como uma espécie de reconhecimento internacional ao projeto mais avançado da extrema-direita para impor seu modelo.

Insignificante para o comércio brasileiro, marginal no debate geopolítico, pária dentro da Europa e com um peso irrisório no palco internacional, a Hungria foi uma parada na turnê europeia de Bolsonaro que apenas atendeu aos interesses do movimento de extrema-direita.

A tríade entre Donald Trump, Jair Bolsonaro e Viktor Orbán também era evidente na diplomacia. Quando o americano foi derrotado nas urnas, ele passou para o Brasil a liderança de uma aliança ultraconservadora e que tinha como objetivo redefinir a agenda internacional na questão de direitos humanos.

Quando Bolsonaro foi derrotado nas urnas, essa liderança foi repassada do Brasil para a Hungria.

Aliado da Hungria em temas como a defesa de um modelo único de família, usando o cristianismo como instrumento de exclusão e resistente a qualquer direito ao movimento LGBT, o grupo mais radical do bolsonarismo jamais deixou de elogiar o que acadêmicos chamam de o “autocrata mais sofisticado do Ocidente”. Em doze anos, o governo abandonou alguns dos princípios básicos do estado de direito e criou uma nova realidade política.

Hub e campo de testes

Com espaço e apoio estatal, o movimento de extrema-direita mundial passou a ter em Orbán uma espécie de hub e campo de testes para políticas ultraconservadoras.

Orbán assumiu o poder em 2010, depois de um governo corrupto de esquerda e que admitiu que enganou a população ao adotar medidas de austeridade para lidar com a crise de 2008. Ganhou o voto de jovens, da elite urbana, da classe média e até de parte dos intelectuais. Sua guinada autoritária, porém, afastou muitos desses grupos da base de Orbán. Nos últimos anos, o húngaro conseguiu controlar a Corte Constitucional, o Ministério Público e dois terços do Parlamento. Dias depois de perder as eleições municipais em Budapeste, ele aprovou uma nova lei reduzindo as competências das prefeituras.

Uma das estratégias da extrema-direita húngara foi a de controlar rádios, televisões e jornais. Em 2018, donos de 400 meios de comunicação na Hungria decidiram doar seus impérios para uma obscura fundação. Uma semana depois, Orbán assinou um decreto isentando essa fusão de qualquer controle externo.

A coordenação entre jornais regionais, revistas, rádios e TVs passou a ser completo e, para sustentar a máquina de imprensa, o orçamento vem do estado, por meio de publicidade e compra de espaço nesses jornais para campanhas de conscientização. Já as empresas que fazem publicidade nos poucos jornais contrários ao governo temem perder contratos públicos, enquanto regiões inteiras do país passaram a depender apenas de noticias oficiais.

O governo húngaro ainda se lançou numa operação para excluir a sociedade civil de consultas ou formação de políticas públicas.

Movimento global da extrema-direita

A relação com a Hungria é apenas parte de uma teia maior e sólida. Na Espanha, o partido ultranacionalistas e herdeiro do franquismo, o Vox, mantém uma estreita relação com os filhos do ex-presidente. Em Portugal, o Chega tem parte de seu trabalho inspirado na extrema-direita brasileira.

Com os EUA, a aproximação envolveu até mesmo o uso das mesmas palavras e termos nos discursos feitos por Bolsonaro e por Trump, em 2019, na abertura da Assembleia Geral da ONU.

Quando o capitólio foi invadido, em 6 de janeiro de 2021, bolsonaristas minimizaram os ataques, causando a indignação de políticos americanos.

A derrota do americano contra Biden ainda foi seguida por declarações por parte de Bolsonaro que confirmavam a narrativa do movimento de apoio a Trump de que a eleição havia sido fraudada.

Cooperação na desinformação

A cooperação também envolve a preparação de eleições e campanhas de desinformação. Fernando Cerimedo, que trabalhou na campanha eleitoral de Javier Milei na Argentina, foi apontado nos documentos da Política Federal como parte da operação que supostamente teria orquestrado uma proliferação de desinformação para abrir caminho a um golpe de Estado no Brasil.

As informações estavam na decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), que autorizou prisões e buscas contra ex-ministros e integrantes do núcleo duro do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Ao longo da campanha do vencedor da eleição na Argentina, Cerimedo atraiu a atenção da imprensa argentina, justamente por conta de suas polêmicas no Brasil.

Agora, a PF apontou que ele fazia parte do que foi chamado de “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral” durante as investigações. O grupo composto ainda por nomes como Mauro Cid e Anderson Torres tinha como função a “produção, divulgação e amplificação de notícias falsas quanto a lisura das eleições presidenciais de 2022 com a finalidade de estimular seguidores a permanecerem na frente de quartéis e instalações, das Forças Armadas, no intuito de criar o ambiente propício para o golpe de Estado, conforme exposto no tópico ‘Das Medidas para Desacreditar o Processo Eleitoral’ constante na presente representação”.


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