24/04/2024 - Edição 540

Poder

Bolsonaro tenta última cartada em manifestação, mas pode sair de lá menor

Ex-presidente e Malafaia correm para explicar grana e evitar fuga do rebanho

Publicado em 19/02/2024 10:14 - João Filho (Intercept_Brasil), Leonardo Sakamoto (UOL), Chico Alves (ICL Notícias), Valerio Arcary (Revista Fórum), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Foto: Isac Nóbrega/PR

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“Especialistas divergem se é crime trama de Bolsonaro”. Foi com essa manchete que a capa da Folha amanheceu na segunda-feira de carnaval. Depois de uma semana em que se revelou uma pororoca de provas da tentativa de golpe escapando pelas mãos da Polícia Federal, o jornal tentou emplacar no debate público uma falsa controvérsia.

Parece inacreditável, mas a reportagem que recebeu essa manchete não mostra especialistas divergindo. Absolutamente nenhum dos consultados afirmou não haver crime na “trama de Bolsonaro” como afirmou a manchete.

O professor de direito penal Luís Greco, respeitadíssimo na área, fez uma análise em cima da reunião que Bolsonaro teve com ministros três meses antes da eleição. Diz a reportagem: “Ele entende que, a princípio, as reuniões sozinhas nunca serão tentativa destes crimes [golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito], mas que, junto com outros elementos, é possível que haja essa configuração”.

Ou seja, isso significa que a manchete inventou a existência de uma polêmica entre especialistas sobre a ilegalidade da “trama de Bolsonaro”. Ora, é evidente que essa “trama” não se restringe à reunião ministeriall.

Malandramente, a manchete utilizou um fragmento da análise de um único especialista sobre uma reunião isolada, descartou um contexto farto de provas e estampou em letras garrafais a existência de uma grande controvérsia entre especialistas sobre a tentativa de golpe de Bolsonaro. Registre-se que nem o especialista nem a jornalista que assina a reportagem são responsáveis pelo enquadramento dado pela manchete. Essa malandragem vai toda para a conta dos editores.

O fato é que não há nem sequer um especialista sério que olhe para o conjunto da obra e diga que não houve uma tentativa de golpe no Brasil no ano passado. As investigações da Polícia Federal mostram que há numerosas e incontestáveis provas materiais de que Bolsonaro e sua turma tentaram um golpe de estado nos últimos meses de mandato.

O presidente, ministros, assessores e chefes das Forças Armadas se mobilizaram para evitar a qualquer custo a eleição e depois a posse do novo governo. As denúncias presentes na delação de Mauro Cid estão sendo comprovadas pelos investigadores uma a uma. Elas estão sustentadas por áudios, vídeos de reuniões, mensagens e uma série de documentos como a minuta do golpe e um que decreta estado de sítio.

Soma-se a esse conjunto a postura golpista de Jair Bolsonaro e sua turma antes, durante e depois do seu mandato. Sua carreira como deputado ficou marcada pela defesa visceral do golpe de 1964. Meses antes do seu pai se eleger, Eduardo Bolsonaro afirmou que “bastariam um cabo e um soldado para fechar o STF”. Durante os quatro anos de mandato, Jair Bolsonaro enfiou a faca no pescoço da democracia com incontáveis ameaças golpistas e ataques infundados ao sistema eleitoral. Após a eleição de Lula, asseclas de Bolsonaro como Anderson Torres permitiram a invasão e destruição dos prédios dos Três Poderes no 8 de janeiro. 

Segundo a Constituição, um crime de golpe de estado acontece quando se tenta depor o governo constituído por meio de violência ou grave ameaça. Isso aconteceu no 8 de janeiro, quando militantes incentivados por militares e políticos bolsonaristas atuaram com violência.

Já o crime de abolição do estado democrático de direito acontece quando se atua com violência ou grave ameaça para impedir ou restringir o exercício dos Poderes. Isso também aconteceu ao se planejar a prisão de ministros do STF e do presidente do Senado que, aliás, vinham sendo monitorados ilegalmente pelos golpistas. Não há para onde correr. Está mais do que evidente que houve um planejamento e tentativa de golpe por meio de grave ameaça.

Diante do escancaramento de provas dos crimes contra a democracia, essas tentativas de descredibilizar as últimas ações dos órgãos de investigação e do judiciário beiram o ridículo.

Por incrível que pareça, há mais gente disposta a colocar senões no trabalho da PF e do STF. O guru de Ciro Gomes, o filósofo Mangabeira Unger, tem se movimentado no subterrâneo para tentar livrar a cara do ex-presidente golpista. Ele tem conversado com Bolsonaro e seus aliados mais próximos para traçar uma estratégia para evitar a sua prisão. O guru se mostrou disposto a entrar com um habeas corpus preventivo no STF para garantir que o golpista não seja preso. Mangabeira negou, mas a informação foi confirmada por outros jornalistas que conversaram com aliados de Bolsonaro e do filósofo. É estarrecedor saber que existe entre as fileiras progressistas gente se mobilizando para anistiar o “projetinho de Hitler tropical” que quis suprimir a democracia.

A última cartada do bolsonarismo é a convocação de uma manifestação para o próximo dia 25. A intenção é clara: incitar seus apoiadores contra o STF e, quem sabe, deflagrar uma convulsão social. É um ato de desespero que não resultará em nada. Pelo contrário, a manifestação pode antecipar a prisão de Bolsonaro. Caso sejam feitas ameaças ao STF — o que é uma praxe das manifestações bolsonaristas — o ex-presidente golpista pode ser preso em flagrante. Resta saber quais aliados morrerão abraçados com ele nessa manifestação.

Nenhum desses esforços evitará o inevitável. A prisão de Bolsonaro é líquida e certa. Ele e seus advogados já sabem disso. Se for condenado por todos os crimes dos quais está sendo acusado, o ex-presidente golpista pode amargar até 23 anos de cadeia e ficar inelegível por mais de 30.

Não existe controvérsia alguma. Não há capa de jornalão ou guru fajuto que seja capaz de criá-la. A prisão do golpista Jair Bolsonaro ocorrerá “dentro das 4 linhas”. Que assim seja.

Bolsonaro na corda bamba e diante do seu maior desafio

No passado, dizia-se que o papel aceitava tudo. Dado que seu uso para disseminar informações era de vidro e se quebrou, são as redes sociais que hoje aceitam tudo, e sem limite. O papel enruga e amarelece com o passar do tempo. O brilho das nuvens é eterno como os diamantes.

Quem já se definiu como “um fodido, deputado do baixo clero, escrotizado dentro da Câmara, sacaneado, gozado, uma porra de um deputado”, pretende agora apresenta-se como um líder de oposição perseguido pela mais alta Corte de Justiça do seu país e carente de defesa, o pobrezinho.

Reivindica, como se o tivesse perdido, o direito a defender-se, e irá fazê-lo em praça pública na companhia de aliados que ainda acreditam na sua inocência, dos que almejam obter seu apoio, e dos devotos radicais, porém sinceros, que o elegeram presidente, mas que não bastaram para o reeleger.

É o que Bolsonaro fará na acolhedora Avenida Paulista de célebres multidões acostumadas a ouvi-lo e depois gritar: “Autorizo”. A ideia do ato lhe foi soprada por um grupo de amigos e aceita de imediato. As despesas serão pagas pelo pastor Silas Malafaia, feliz proprietário de uma igreja.

Não com o dízimo dos fiéis, segundo jura Malafaia, mas com dinheiro do seu bolso. Salve Deus, portanto, pela existência de pessoas generosas e desinteressadas como são esses pastores evangélicos capazes de assegurar um lugar no céu aos que começarem a pagar desde já a reserva.

Malafaia promete não repetir nada que lembre o que ele disse em 28 de novembro de 2022, quando a trama do golpe parecia avançar a galope: “Senhor presidente Jair Messias Bolsonaro: o senhor tem poder de convocar as Forças Armadas pra botar ordem na bagunça que esse ditador [Alexandre de Moraes] fez. Se os militares não quiserem te obedecer, é Código Penal Militar, artigo 5º e o 319, são presos!”.

De sua parte, Bolsonaro promete não incorporar o espírito que na mesma Avenida Paulista, no 7 de setembro de 2021, o orientou a dizer fingindo espumar de ódio: “Qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, este presidente não mais cumprirá. A paciência do nosso povo já se esgotou. Ele tem tempo ainda de pedir o boné e ir cuidar da sua vida. Ele, para nós, não existe mais! Liberdade para os presos políticos! Fim da censura! Fim da perseguição àqueles conservadores, que pensam no Brasil”.

E disse mais: “Ou esse ministro se enquadra, ou ele pede para sair. Sai, Alexandre de Moraes! Deixa de ser canalha!”

Àquela altura, Lula estava solto, mas Bolsonaro não o considerava imbatível, e caso se tornasse, o golpe seria a chave para roubar-lhe a vitória. O ex-presidente Michel Temer socorreu Bolsonaro e o convenceu a pedir desculpas a Moraes. Nascia, assim, o Jairzinho Paz e Amor, de vida breve.

Bolsonaro correrá um duplo risco no ato que convocou só para obter uma foto que possa mostrar ao mundo como prova de que segue popular, e por isso não deve ser tratado como “um fodido, deputado do baixo clero, escrotizado dentro da Câmara, sacaneado, gozado, uma porra de um deputado”

Se ressuscitar a versão dele próprio inspirada por Temer, frustrará seus seguidores que lhe darão as costas. Se corresponder aos anseios deles, Moraes baterá palmas e poderá decretar sua prisão preventiva. Se por acaso Bolsonaro pensa que , uma vez preso, acabará virando um mártir…

Por que não experimenta?

Sem Anistia: porque a esquerda deve ir às ruas

1 – As necessidades de nossas vidas pessoais nos levam a considerar, todos os dias, em algum momento, que horas são. As necessidades impostas pelas lutas sociais, em outro grau de abstração, exigem, também, que nos perguntemos em que situação política estamos. “Que horas são” na luta de classes? Há um novo momento na conjuntura, embora ainda no contexto de uma situação nacional desfavorável, em que a relação social de forças pemanece defensiva. Mas mudou, favoravelmente, a relação política de forças em função da ofensiva da investigação da Polícia Federal, autorizada por Alexandre de Moraes, sobre a cúpula da extrema-direita golpista, cercando o próprio clã da família Bolsonaro. A operação “Tempus Veritatis”, ao atingir a alta cúpula das Forças Armadas, abre a possibilidade de criminalização e prisão de Bolsonaro. Seria uma derrota imensa, terrível e, talvez, irreversível para a corrente neofascista. Exige a coragem política de tomar a inciativa de mobilização popular pelo Sem Anistia, pela condenação dos generais golpistas e prisão para Bolsonaro.

2 – As provas já divulgadas a partir da delação de Mauro Cid fundamentaram de forma irrefutável que existiu uma conspiração golpista articulada dentro do Palácio do Planalto. Já está demonstrado que Bolsonaro estava engajado num conluio e complô de preparação de uma quartelada. O golpe de Estado estava em marcha. Na verdade, não foi uma operação conduzida em estrito sigilo. Não era um segredo porque a agitação política da campanha de reeleição bolsonarista permitia concluir que o perigo de sublevação militar, apoiado na mobilização de sua base social, era real e imediato. A novidade é que a divulgação do vídeo da reunião ministerial e mensagens por Alexandre de Moraes confirma de forma desconcertante a desfaçatez criminosa. A conjuntura mudou porque está colocada na ordem do dia a liquidação política da liderança do neofascismo brasileiro. O que é inusitado em nossa história é o desafio de levar, também, a alta oficialidade militar a julgamento. Seria enorme, monumental, histórico.

3 – A nova conjuntura nos oferece uma brecha, um caminho, uma oportunidade extraordinária. Quem diminui o impacto sobre a situação política de uma possível criminalização da liderança do neofascismo perdeu a bússola de classe. A “Tempus Veritatis” confirma que a maioria do STF assumiu a responsabilidade de uma ofensiva judicial-policial contra a liderança máxima do neofascismo no país. Por quê? Porque Bolsonaro representa uma ameaça ao regime democrático-liberal em geral. A extrema-direita é um movimento político-social-cultural de massas muito poderoso. As pesquisas disponíveis até agora informam que mais de 40% da população desconfia, suspeita e desacredita que Bolsonaro seja culpado. Uma maioria apoia a prisão de Bolsoanro, mas a diferença não é grande. Ninguém deveria duvidar que Bolsonaro cometeu variados crimes de responsabilidade durante seus quatro anos de mandato. A blindagem do Centrão garantiu que pudesse cumprir o mandato até o fim. Quem passou os últimos anos, durante o mandato Bolsonaro, preocupado com os supostos “abusos de poder” dos Tribunais Superiores errou muito. O STF defendeu o regime democrático-liberal. As ameaça às liberdades democráticas vieram do Congresso que defendeu a “legitimidade” de Bolsonaro. A esquerda não pode titubear em apoiar e realizar uma defesa da iniciativa do STF liderada por Alexandre de Moraes.

4 – O bolsonarismo iniciou uma campanha de autodefesa com  a convocação para um Ato na Paulista dia 25 de fevereiro na Avenida Paulista. Vai tentar intimidar a investigação apoiado no engajamento de sua base social nas ruas, mas sabe que está na defensiva. Não se pode saber qual será sua capacidade de mobilização, mas não deve ser subestimado. A narrativa de que está sendo perseguido poderá alcançar alguma repercussão, por suposto, porque mantém autoridade, sobretudo, nas camadas médias mais envenenadas pelo discurso neofascista. Será maior ou menor em função da disputa política-ideológica. Mas essa disputa é inescapável. O argumento de que a prisão de Bolsonaro “fortaleceria” a extrema-direita é errado. Ninguém pode prever quando e como virá uma erosão qualitativa da influência da extrema-direita. Mas hoje ela passa pelo apoio à ofensiva do Supremo Tribunal Federal.

5 – Se a esquerda não tiver a lucidez de que deve responder nas ruas à nova situação estará tropeçando em suas próprias pernas. O monopólio das ruas não pode ficar nas mãos da extrema-direita. O “sonambulismo” nunca é uma boa tática para a esquerda. “Jogar parado” quando Bolsonaro decide “dobrar a aposta” é muito perigoso. Uma “hibernação’ deixando a responsabilidade pelo desenlace desta luta nas mãos do STF seria imperdoável. É um erro, inclusive, para aqueles hipnotizados por cálculos eleitorais. A experiência internacional, Milei na Argentina, Trump nos EUA, e perspectiva de crescimento da extrema-direita nas eleições europeias, revela que desconsiderar, diminuir, ou desprezar o impacto das ações de rua liderada por Bolsonaro é um erro grave. O que não avança, recua. A conjuntura mudou para melhor, e pode incidir sobre a própria situação, invertendo a relação social de forças. Mas a oportunidade pode, também, ser perdida.

6 – Devemos aprender com nossa história. Em 1964 abriu-se no Brasil uma etapa contrarrevolucionária, que permaneceu até o final dos anos 70, por quinze anos. Ao longo dessa etapa, ocorreram várias mudanças de situação. Essas mudanças se traduziram em transformações no regime político: bonapartismo reacionário entre 1964 e 68, e depois bonapartismo contra-revolucionário, com elementos semi-fascistas, até 1974/76. Em 1978/79 abriu-se uma situação pré-revolucionária, paradoxalmente, no interior de uma etapa ainda reacionária. Poder-se-ia objetar que não há dialética que explique esta contradição. Mas este aparente enigma, o sentido assimétrico do signo entre etapa e situação, é o que permite explicar a mudança de etapas. Esta explicação resulta, dialeticamente, coerente, se considerarmos que situações transitórias são, por definição, muito contraditórias. E a situação aberta entre 1978/82 reúne os fatores “clássicos” de uma situação transitória. Nesse sentido, preparava as condições para uma mudança de etapa que estava por se dar, mas que poderia ter sido bloqueada, porque os processos estão sempre em aberto, e as dinâmicas podem ser interrompidas no curso das lutas.

7 – A ditadura militar, a forma do regime, entrou em lenta agonia, vindo finalmente a sucumbir, com as Diretas em 1984. Claro que a visão retrospectiva facilita a análise: se alguém escrevesse em 1981, no calor dos acontecimentos, depois da derrota duríssima da greve no ABC, quando das intervenções do Governo Figueiredo nos sindicatos de bancários e metalúrgicos, que o Brasil estava em uma situação pré-revolucionária, seria considerado um demente, e até recomendada a internação por “insanidade”. Mas essa situação pré-revolucionária não se fechou, apesar dos muitos reveses, e das distintas conjunturas que se sucederam, e isso explica que em 1984 tenha sido possível a explosão das Diretas.

8 – Em conclusão: as situações podem ser aferidas pelas mudanças nas formas do regime, embora não se esgotem nessa variável. Ela é, todavia, o elemento mais objetivo dos deslocamentos das relações de forças. Uma avaliação dos desencontros dos tempos históricos e políticos exige a compreensão destes aparentes anacronismos: só podemos explicar a irrupção de milhões para a ação política no afã de derrotar a ditadura, se considerarmos as alterações moleculares que foram se avolumando nos anos anteriores. Esse é o sentido das situações transitórias que podem ser bloqueadas, não são irreversíveis. Vale a pena acrescentar que vivemos, desde de meados 1999, outra vez, uma situação transitória, na passagem de uma situação defensiva na luta de classes para uma situação pré-revolucionária, que foi a chave para a eleição de Lula em 2002.

9 – Um dos mal entendidos mais comuns sobre os critérios de periodização é o esquematismo. O maior perigo é a simplificação exagerada, e não o contrário. Este erro consiste em resumir ou reduzir as escalas de classificação às medidas de temporalidades lineares: épocas seriam mais longas do que etapas, etapas seriam, por sua vez, mais longas do que situações e, finalmente, as conjunturas seriam as fases mais breves. Em suma, longa duração, média duração, curta duração e presente. Este tipo de esquema não é o melhor. Perde-se o critério marxista que analisa a realidade a partir da luta de classes. Sendo este o critério de avaliação das etapas da situação internacional, a avaliação deve estar orientada pela identificação das vitórias e derrotas na arena mundial entre revolução e contrarrevolução.

10 – O trabalho teórico exige a construção de um modelo, esquemas, evidentemente, mas eles devem ser elásticos, quando a questão é a periodização. As fases ou períodos histórico-políticos não têm um padrão regular. O sentido ou dinâmica contraditória de épocas, etapas e situações convivem em simultaneidade dentro de amálgamas instáveis, que são o próprio movimento de transformação. O trabalho de periodização está entre os mais difíceis, porque resume em uma síntese explicativa uma infinidade de análises, sem as quais, não teria qualquer significado. A desigualdade dos tempos que se alternam em simultaneidade é quase uma regra, e não uma excepção. O esforço de síntese, sem o qual não há como procurar explicações bem sustentadas é, portanto, complicado. Enfrentemos o problema de frente: assim como ocorre a confusão de mudança de etapa com a mudança de época, existe também o perigo de uma má interpretação das relações entre etapas e situações. As épocas históricas são definidas por critérios, essencialmente, objetivos, portanto, econômico-sociais, e são, necessariamente, períodos relativamente longos.

Uma época pode ter medidas seculares. As etapas são fases essencialmente político-sociais, e não têm uma duração “padrão” que possa ser previamente estipulada, porque correspondem a um período em que a relação de forças entre revolução e contrarrevolução se manteve estável, portanto, a refração deste processo central se expressou, também, na relação entre Estados no sistema internacional. O desafio da nova conjuntura é aproveitar a oportunidade para abrir uma situação política melhor. Não há muito mistério, nem mágica. O “abracadabra” que a vida está nos oferecendo é Sem anistia, Prisão para Bolsonaro.

Bolsonaro e Malafaia correm para explicar grana e evitar fuga do rebanho

O que um líder de massas mais teme? Não é a prisão, mas o abandono por parte de seus seguidores, o que representaria sua morte em vida. Determinados assuntos têm mais potencial para afastar rebanhos dos seus pastores e, com isso, provocar reações imediatas para estancar o estouro da boiada – o uso do dinheiro é um deles, como vimos em dois exemplos recentes com Jair Bolsonaro e Silas Malafaia.

Investigado por enviar R$ 800 mil aos Estados Unidos para manter seu autoexílio por lá enquanto seu golpe de Estado se desenrolava por cá, o ex-presidente teve que vir a público, através de um vídeo, distribuído em suas redes sociais, para explicar aos seus seguidores que aquilo não era crime.

E após informar que os custos do ato pró-Bolsonaro, que será realizado em São Paulo, no dia 25 de fevereiro, seriam bancados por sua igreja, Malafaia voltou atrás e declarou que pagaria do seu próprio bolso o trio elétrico e demais gastos. Pegou mal nas redes sociais a possibilidade do dízimo dos fiéis ser usada diretamente para um evento político.

Bolsonaro e Malafaia são acusados diariamente de muita coisa, mas não vêm a público responder tudo. Com a ajuda de assessores e pessoas de confiança, analisam o que vale a pena ignorar, o que pode ser deixado para aliados e fãs reagirem e o que eles precisam pessoalmente responder.

Ser chamado de golpista não tira de Bolsonaro um mísero seguidor radical, o que é diferente de fugir do país, como fez em 30 de dezembro de 2022, e levar um dinheirão para o exterior. Coisa de gente rica, retratada como vilão em novela, bem diferente da imagem do homem simples, comedor de pão com leite condensado, que ele se esmerou em vender.

Claro que era uma construção, uma vez que ele, um político profissional, especializou-se em ficar rico dando à luz funcionários fantasmas nos gabinetes da família e ficando com parte de seu salário.

Tampouco chamar Malafaia de agressivo ou picareta reduz o número de seus seguidores, pelo contrário, arrisco dizer que isso até aumenta. Contudo, cristãos sabem, desde o Evangelho de Mateus, capítulo 22, versículo 21, que não pega muito bem desviar para César o que foi dado a Deus.

Não é à toa que, junto ao seu público religioso, o escândalo de desvio e venda de joias dadas por governo árabes ao Brasil, preocupou Bolsonaro e aliados. Não significa que esse grupo abandonou Jair por conta disso, até porque, para eles, não há uma outra opção política no horizonte. Contudo, pesquisas mostraram que eles se abstiveram de fazer uma defesa pública do “mito”.

A questão não é que esses líderes seriam abandonados por conta dessas ações, mas não contariam com a defesa incondicional de seus seguidores – que sentiram cheiro de queimado. Em uma realidade em que a disputa do sentido simbólico se dá através das redes sociais e aplicativos de mensagem, e para isso o engajamento da massa é fundamental, o silêncio é uma sentença.

Malafaia, o queridinho da imprensa

Houve um tempo em que o genial Caetano Veloso era procurado com tanta frequência para dar entrevistas que ele próprio resolveu dar uma pausa. Cansado de opinar sobre os mais variados assuntos da vida nacional, o artista ficou um período sem falar com jornalistas. Volta e meia esse fenômeno se repete, a mídia fica obcecada por algum personagem, que é entrevistado à exaustão.

Pelo que se vê no noticiário, o atual “Caetano Veloso” da imprensa brasileira é o pastor evangélico Silas Malafaia.

Não é de hoje que Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, é figurinha fácil nos jornais e sites. Mas especialmente a partir da chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, ele passou a aparecer em manchetes como uma espécie de conselheiro do presidente da República, figura poderosa a quem jornalistas recorrem para saber a opinião política. Nos últimos dias, o pastor tem frequentado a mídia ainda mais intensamente por ser o idealizador da manifestação do dia 25, para a qual Bolsonaro convocou seus apoiadores a pretexto de se defender das acusações de golpe de Estado.

Tanto na época da gestão de Bolsonaro como agora, a imprensa brasileira se exime da obrigação básica que é lembrar ao leitor quem é Silas Malafaia.

Notório disseminador de fake news; golpista que tentou incitar as Forças Armadas a uma ruptura institucional; ativista contrário a medidas de prevenção da Covid, como o isolamento social; autor de injúrias contra jornalistas e influenciadores que o criticam; defensor das teses mais reacionárias da extrema-direita. Esse é Malafaia.

No campo religioso, é um sujeito que há décadas explora financeiramente a fé alheia, induzindo os fiéis a gastarem seu pouco dinheiro com doações altíssimas, que, segundo ele, vão garantir a graça divina.

O pastor também é especialista em usar a religião para angariar votos em favor dos políticos que apoia e atacar os adversários, misturando louvor com discursos partidários.

Para muitos jornalistas, o fato de estar à frente de uma ramificação religiosa e ter muitos seguidores (tanto no mundo real quanto no virtual) é o bastante para justificar seus frequentes pitacos políticos. É preciso corrigir: a autoridade de um entrevistado sobre assuntos importantes, como é a política, não deveria advir do tamanho de seu rebanho, mas principalmente de sua idoneidade.

Malafaia é uma figura que tem credibilidade?

Essa pergunta pode ser facilmente respondida pela maioria dos brasileiros, mas aparentemente não por alguns jornalistas, que tratam o pastor como uma espécie de oráculo, sem um pingo de visão crítica. Muitas vezes servem mais como assessores de imprensa que repórteres, abrem microfones e páginas de sites para que ele ataque adversários políticos, enalteça aliados e defenda as teses mais esdrúxulas.

Não há dúvida: de Caetano Veloso a Silas Malafaia, a escolha do opinador-geral da República piorou muito.

Poucos fatos podem atestar mais claramente como a imprensa ajuda de forma decisiva a escalada da extrema-direita no Brasil.

Bolsonaro passou recibo em vídeo sobre os R$ 800 mil que mandou aos EUA

Sentiu. Ao responder à investigação da Polícia Federal, que avalia que ele mandou R$ 800 mil para os Estados Unidos, em 27 dezembro de 2022, para se manter por lá enquanto uma tentativa de golpe de Estado se desdobrava por aqui, Jair Bolsonaro demonstra que a história tem potencial de pegar mal junto aos seus seguidores.

O ex-presidente é acusado diariamente de muita coisa, algumas bobagens, mas também uma montanha de graves evidências, que são divulgadas por autoridades e veiculadas pelas imprensa. Com a ajuda dos seus assessores, ele analisa o que vale a pena ignorar, o que pode ser deixado para aliados e fãs reagirem e o que ele precisa vir a público para responder.

Para se dignar a gravar um vídeo, como fez na noite do último dia 15, a fim de se justificar sobre o assunto, é porque foi alertado para o cheiro de queimado.

Afinal, uma coisa é ser acusado de golpista – algo abstrato para muita gente. Outra é de fugir do país, como fez em 30 de dezembro de 2022, e levar um dinheirão consigo. Soa meio Marco Aurélio, o vilão da novela Vale Tudo.

No vídeo, primeiro, ele confirma o que fez. Até porque não poderia ser diferente, pois a quebra de sigilo mostrando a operação de câmbio não era novidade. “Enviei, sim. Da minha poupança do Banco do Brasil para o BB América. Ou seja, o dinheiro continuou num banco brasileiro”, disse.

Depois, argumentou que mandar dinheiro para os EUA provaria que ele estava limpo: “Dizia a nossa querida Polícia Federal que o último país do mundo onde um golpista, ditador enviaria dinheiro seria os Estados Unidos, porque é um país democrata, que respeita tratados. E esses recursos seriam i-me-dia-ta-men-te bloqueados”.

Disse ainda que outros brasileiros enviaram dinheiro para fora porque “tínhamos dúvidas sobre a política e a economia do atual mandatário de esquerda”. Ou seja, eu fiz, mas os outros também, tentando vender que seu motivo não era golpista.

E para que nenhum seguidor ficasse em dúvida, concluiu: “isso não é crime”.

Uma linha de investigação da PF não concorda muito com isso e diz que ele, ao final do mandato, transferiu seus “recursos financeiros, ilícitos e lícitos, com a finalidade de assegurar sua permanência do exterior, possivelmente, aguardando o desfecho da tentativa de golpe de Estado que estava em andamento”.

O ilícito é porque parte dos recursos podem ter sido provenientes da venda de joias dadas por governos árabes ao Brasil, surrupiadas por Jair e vendidas aqui e nos EUA.

Bolsonaro tinha medo de ser preso se ficasse no país pelo conjunto pelo golpismo, mas também precisava de um álibi para o 8 de janeiro de 2023, que já sabia que ocorreria. Tanto que repetiu, diversas vezes, que não tinha envolvimento com a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes porque estava fora do país – uma justificativa que ofende a inteligência.

A maior parte do bolsonarismo-raiz vai concordar com todas as justificativas que ele der, mesmo que esteja torturando filhotes de gato ou defendendo em público que a saudosa vovó Palmirinha cozinhava mal.

Mas esse tipo de caso também influencia o eleitor pendular, aquele disputado a tapa na eleição passada, que poderia tanto votar em Lula (pela perspectiva de melhoria no bem-estar material) quanto em Jair (pelo discurso moral). Com isso, esse grupo pode caminhar mais facilmente para o colo do petista em 2024 e 2026. Ainda mais se a renda e o emprego continuarem crescendo.

O envio de grana alta para o exterior, tal como o esquema para desviar e vender joias, tem mais potencial de ferir a imagem de Bolsonaro junto a esse pessoal do que o seu negacionismo na pandemia ou seu golpismo eleitoral. Por isso, a necessidade de reforçar o discurso.

Bolsonaro sempre se vendeu como um “homem comum” que representaria os interesses do povo mais do que os políticos profissionais. Claro que era uma construção, uma vez que ele, um político profissional, especializou-se em ficar rico dando à luz funcionários fantasmas nos gabinetes da família e ficando com parte de seu salário.

Mas esse personagem convenceu muita gente. Afinal, ele aparecia em vídeos oferecendo pão com leite condensado ao representante do governo dos Estados Unidos, deixando cair a farofa do frango sobre sua roupa, fazendo lives improvisadas com bandeiras coladas à parede com fita crepe, cometendo erros de português frequentes entre o povão para gerar empatia ao ser ridicularizado pela elite intelectual – que sempre cai em suas armadilhas.

Como o homem feliz com um pãozinho com café e leite na padoca manda R$ 800 mil para o exterior para gastos pessoais em meio a um golpe de Estado? Praticando ilusionismo.


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