22/04/2024 - Edição 540

Poder

Bolsonaro cala na PF mas vai abrir berreiro no ato em prol do golpismo

Militares da ativa redigiram texto para forçar Exército a aderir ao golpe

Publicado em 23/02/2024 9:05 - Leonardo Sakamoto (UOL), ICL Notícias – Edição Semana On

Divulgação G1

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Bolsonaro, conforme esperado, ficou em silêncio em seu depoimento à Polícia Federal, na quinta (22). Mas daqui a três dias, ele estará gritando a plenos pulmões para se justificar das acusações de que tentou dar um golpe de Estado, em um ato com a presença de seus seguidores radicais, na avenida Paulista, em São Paulo. Corajoso, né?

Para o fiel rebanho, que acredita em qualquer coisa que diga, Jair passará a imagem de um político transparente que não tem medo de se explicar diante de uma multidão. Para seres que não terceirizaram a capacidade de raciocínio, ele fugiu de dar respostas à autoridade policial (o que poderia piorar a sua já grave situação), preferindo o conforto de quem coloca “mito” e amém na mesma frase.

Claro que tinha o direito constitucional de ficar em silêncio – somos uma democracia, exatamente porque ele não teve sucesso em seu intento. Mas, sendo inocente como alega, poderia ter colocado tudo em pratos limpos.

Sua defesa diz que preferiu se calar porque não teve acesso aos arquivos da delação do seu ex-faz-tudo, Mauro Cid. Um de seus advogados, Paulo Cunha Bueno, chamou a investigacão de “semissecreta” e garantiu que Jair “nunca foi simpático a qualquer tipo de movimento golpista”.

A questão é que, na avaliação de Bolsonaro, nunca houve golpe militar de 1964, mas sim uma revolução patriótica. Sob o seu ponto de vista, o mesmo ocorreria com o atropelamento das instituições entre 2022 e 2023, se o golpe fosse consumado por ele. Ou alguém duvida que, se hoje estivéssemos sob o seu governo, ele trataria de calar a imprensa, exilar opositores, desaparecer com adversários e reescrever os livros de História?

Além do mais, secreta foi a conspiração que envolveu generais e almirante, forças especiais do Exército, políticos aliados, empresários amigos, comunicadores cooptados e milhares de vândalos radicais para manter Bolsonaro no poder mesmo com a sua derrota nas eleições.

O ex-presidente organizou sua micareta em defesa do seu próprio golpismo, a ser realizada neste domingo (25), em São Paulo, a fim de encarecer o custo de sua condenação em prisão. Pelo andar da carruagem, ele vai para o xilindró, mais cedo ou mais tarde.

Mas o ato também visa a manter sua tropa unida visando às eleições. Afinal, pior do que estar inelegível e ser preso é estar inelegível, preso e se tornar irrelevante politicamente. O que pode acontecer se alguém o substituir no comando da extrema direita.

A quantidade de provas e evidências sobre o plano de Jair Bolsonaro para tentar se perpetuar no poder é grande. Precisaria, para ser ignorado, de uma conspiração muito maior do que aquela que ele tentou aplicar.

Militares da ativa redigiram texto para forçar Exército a aderir ao golpe

Os nomes de dois militares foram identificados pela Polícia Federal como participantes da redação de uma carta de oficiais da ativa que tinha o objetivo de pressionar o comandante do Exército em 2022, general Marco Antônio Freire Gomes, para que ele colaborasse com os radicais que pediam golpe de Estado para a manutenção de Jair Bolsonaro no poder, mesmo depois de ele ter perdido a eleição para Lula.

A informação foi publicada pelos jornalistas Cézar Feitoza e José Marques, da Folha de São Paulo.

A PF identificou os dois militares a partir da análise de metadados do documento, recebido pelo tenente-coronel Mauro Cid na noite de 28 de novembro de 2022 —véspera da publicação do texto.

O autor foi identificado pela Polícia Federal como o coronel Giovani Pasini e Alexandre Bitencourt teria sido o último a modificar o documento. Segundo os policiais, trata-se do coronel Alexandre Castilho Bitencourt da Silva.

As informações estão no relatório da Polícia Federal que embasou os pedidos de prisão e buscas, em 8 de fevereiro, contra ex-ministros e militares suspeitos de tramarem o golpe de Estado.

Procurado pela Folha, Pasini não comentou sobre a autoria do manifesto. “Não quero falar sobre esse assunto”, disse antes de desligar o telefone.

Ele é oficial de artilharia formado na Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), em 1997. Atuou como professor de colégios militares. Em 2022, ele pediu licença do Exército para se candidatar a deputado estadual do Rio Grande do Sul pelo partido Patriota. Não foi eleito e voltou à caserna. Foi para a reserva em fevereiro de 2023, após a divulgação da carta.

O outro militar, Alexandre Bitencourt, também é oficial formado em 1997, da arma de infantaria. Em fevereiro de 2023, ele chegou a ser condecorado com a medalha militar de ouro com passador de ouro — homenagem entregue aos oficiais que completam 30 anos de bons serviços prestados.

A reportagem não conseguiu contato com Bitencourt. Em nota à Folha, o Exército disse que não poderia se manifestar sobre o assunto porque o inquérito está em “segredo de Justiça”. “Cabe ressaltar que as informações acerca do tema serão prestadas, quando solicitadas, às autoridades competentes”, completou.


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