25/05/2024 - Edição 540

Poder

Ana Amélia simboliza esforço de Alckmin para tomar eleitor de Bolsonaro

Publicado em 03/08/2018 12:00 -

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Geraldo Alckmin deu um passo largo à direita ao escolher Ana Amélia (PP) como vice em sua chapa presidencial. A senadora gaúcha se incorpora ao esforço dos tucanos para retomar um eleitorado conservador que votava no PSDB, mas migrou para Jair Bolsonaro (PSL).

Ana Amélia tentará devolver fôlego a Alckmin em cinco nichos: 1) no antipetismo; 2) no setor rural; 3) nos movimentos conservadores; 4) no debate anticorrupção; 5) no Sul.

A nova vice tende a acentuar as notas de polarização com o PT na campanha de Alckmin. Ana Amélia se notabilizou por um discurso agressivo contra Lula nos últimos meses.

Quando a caravana do ex-presidente foi recebida com ovos e chicotes em municípios do Rio Grande do Sul, em março, ela parabenizou quem “botou a correr aquele povo que foi lá levando um condenado”.

Bolsonaro ameaça dominar o ambiente antipetista. Alckmin desvia de confrontos violentos com o PT, mas pode escalar a vice como porta-voz para evitar que o rival reine sozinho.

Ana Amélia representa ainda uma tentativa de reconectar Alckmin ao campo. Integrante da bancada ruralista, ela defende o agronegócio e indicou ser favorável à posse de armas por produtores. A parlamentar também é um xodó do MBL (Movimento Brasil Livre). O grupo, que liderou protestos contra Dilma Rousseff, afastou-se do PSDB e corteja políticos considerados mais conservadores.

Os tucanos esperam aplicar Ana Amélia como vacina contra a corrupção que corroeu a imagem do PSDB. Defensora ferrenha da Lava Jato, a senadora seria apresentada como um selo de garantia para Alckmin.

A gaúcha é ainda uma aposta dos tucanos para ganhar terreno no Sul. Em 2014, Aécio Neves (PSDB) teve 50% dos votos na região. Alckmin aparece com 5% ali, atrás de Bolsonaro (22%) e Álvaro Dias (14%).

Alckmin cita Ana Amélia como potencial vice desde 2017. A ideia era descartada, pois seu perfil era tido como similar ao do tucano. A concorrência na direita, porém, obriga o candidato a arrumar a própria casa.

Toma lá, dá cá

Cortejados por alguns dos principais candidatos à Presidência, o conjunto de partidos que anunciaram adesão à candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) na semana passada tem histórico de quase quatro décadas de “toma lá, dá cá”, mostra o analista político Antonio Augusto de Queiroz, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Em artigo, Antonio Augusto fala sobre o passado, o presente e o futuro do chamado Centrão.

Nascido na Constituinte por motivações ideológicas, em contraposição ao MDB e outros partidos que postulavam a inclusão de direitos sociais na Constituição, virou bloco de sustentação de todos os governos desde a redemocratização. Teve menos poder nos governos Fernando Collor e Itamar Franco. E vive seu apogeu no governo Michel Temer. Notabilizou-se pela exigência de cargos e recursos em troca de votos para o governo no Congresso.

“Mesmo num ambiente de crise fiscal aguda, a colheita do Centrão foi generosa, especialmente sob a forma de perdão de dívidas, de renúncias e anistias fiscais. A bancada ruralista, poucas vezes, teve tantos benefícios quanto no atual governo”, avalia Antonio Augusto.

Para o diretor do Diap, Temer tem dívida de gratidão com o Centrão. “Em primeiro lugar, em agradecimento aos votos pelo impeachment da ex-presidente Dilma. Em segundo, pela rejeição de duas denúncias contra o presidente. E terceiro, pelo voto em favor de reformas impopulares, como o congelamento do gasto público, a reforma trabalhista e a privatização de estatais, inclusive a abertura do pré-sal ao capital estrangeiro”, explica o analista.

O grupo, liderado por partidos como o PP, o DEM, o PTB e o PR, avalizou a chegada e a manutenção de Eduardo Cunha na presidência da Câmara. O Centrão, segundo Antonio Augusto, continuará governista, seja Alckmin, seja outro o próximo presidente.

Mas o bloco deve ter mais dificuldade para obter os benefícios que barganha em troca de apoio no Congresso, prevê o analista. “Mudanças de paradigma de natureza econômico-fiscal, de um lado, e, de natureza ético-moral, de outro, não deixarão muita margem para concessões generosas ao Centrão na próxima gestão presidencial.”

Antes de fechar com Alckmin, o bloco suprapartidário flertou com Ciro Gomes (PDT) e até Jair Bolsonaro (PSL).


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