25/02/2024 - Edição 525

Palavra do Editor

Quem coloca comida na minha mesa sou eu

Publicado em 17/03/2017 12:00 -

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A Operação Carne Fraca pegou de surpresa um setor da economia brasileira que tem por hábito enaltecer os próprios méritos e maquiar os muitos defeitos. Sim, o agronegócio brasileiro é muito importante para o país sob o ponto de vista econômico. Não, isso não coloca seus integrantes acima do bem e do mal.

A reação do setor à ação da Polícia Fderal está contando com o apoio do Governo Michel Temer e dos governos estaduais que dependem da soja e do boi para manterem-se vivos. Horas após a divulgação do esquema de fraudes e venda de carnes adulteradas – de tamanho ainda não detalhado – envolvendo as principais marcas do país, o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki, minimizou os riscos e afirmou que “a população brasileira pode estar absolutamente tranquila” em consumir carne.

Ontem, o presidente Michel Temer, em ação espalhafatosa (a la Doria), tentou tranquilizar países importadores da carne brasileira em reunião com embaixadores e representantes da indústria da carne. O presidente disse que os desvios no sistema de vigilância sanitária são “pontuais” e convidou os representantes diplomáticos para uma churrascaria em Brasília. Mastigando um pedaço de picanha, sorriu para as câmeras…

Quem coloca comida na mesa do brasileiro não é o agronegócio, mas ó próprio brasileiro, com o suor do seu trabalho. Se o agronegócio e os agronegociantes querem respeito, que comecem respeitando o consumidor e a inteligência alheia.

Brasil afora, representantes do agronegócio também têm tentado desqualificar a ação da Polícia Federal, classificando-a como exagerada, espalhafatosa, irresponsável. Pode até ser que tenha havido certo exagero na divulgação, mas, diante da bandalheira em que estamos submersos, qualquer fumaça é sinal de incêndio.

Esta pressão pode surtir efeito sobre setores da sociedade brasileira – como a própria imprensa, que de um dia para o outro passou a tratar o tema com o benefício da dúvida: irregularidades passaram a ser supostas irregularidades – mas não será tão eficaz diante do mundo. A União Europeia demonstrou preocupação e cobrou explicações do Governo Temer. O embaixador da UE no país, João Cravinho, disse que uma carta foi enviada de Bruxelas a Brasília com dois questionamentos centrais: a extensão do problema, se pontual ou com capacidade para ameaçar o sistema de controle brasileiro, e a existência ou não de carregamentos destinados a Europa que podem estar sob suspeita.

Ao invés de pirotecnias e poses para fotos, o Governo Federal deveria estar se debruçando com todas as forças sobre a questão, para punir os desvios de conduta e garantir a lisura da cadeia produtiva.

O setor, por sua vez, precisa parar de se colocar como vítima sempre que é questionado. A demagogia tem sido a regra na estratégia do agronegócio diante de suas mazelas. Tem sido assim nos conflitos pela posse de terra, nas denúncias de irregularidades no uso de agrotóxicos e, agora, na crise da carne. Argumentos como a importância do setor na produção de alimentos não podem sobrepujar a lisura de seus representantes.

Quem coloca comida na mesa do brasileiro não é o agronegócio, mas ó próprio brasileiro, com o suor do seu trabalho. Se o agronegócio e os agronegociantes querem respeito, que comecem respeitando o consumidor e a inteligência alheia.


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