13/04/2024 - Edição 540

Palavra do Editor

Pra frente Brasil, salve a seleção!

Publicado em 31/01/2014 12:00 -

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O ex-jogador de futebol e empresário Pelé está muito preocupado que a onda de protestos que ocorre no Brasil desde o ano passado atrapalhe a Copa do Mundo que se aproxima. Na última sexta-feira (31), mais uma vez, ele tocou no assunto. Desastradamente. A lógica não é seu forte. Ou melhor, é. Trata-se de uma lógica baseada em um “corporativismo” burro. Para Pelé, o brasileiro deve deixar de lado suas frustrações, baixar a bola e curtir a seleção brasileira, bandeirinha na mão. A insatisfação a gente deixa de lado, afogada em uma latinha de cerveja, emboçada diante da pelota a rolar pelos tapetes esverdeados Brasil afora…

"Espero que a gente tenha essa consciência: deixar passar a Copa do Mundo. Aí vamos reivindicar o que os políticos estão roubando ou desviando. Isso é outra coisa. O futebol só traz divisas e só traz benefício para o Brasil", disse, em entrevista à ESPN Brasil.

Nomeado pela presidente Dilma Rousseff como embaixador honorário da Copa em 2011, o ex-jogador pediu uma espécie de trégua aos manifestantes para que o país receba os turistas e aproveite a oportunidade de realizar uma competição sem problemas.

Para Pelé, o brasileiro deve deixar de lado suas frustrações, baixar a bola e curtir a seleção brasileira, bandeirinha na mão.

"Vamos deixar passar essas festas e vamos exigir. Futebol não tem nada com isso. Acho que o futebol não tem nada a ver com a corrupção dos políticos. O futebol sempre enalteceu o Brasil. Os jogadores sempre trouxeram promoção muito grande para o Brasil", arriscou.

Seria risível, mas é apenas triste.

É mais ou menos como ocorreu na década de 70, quando em plena ditadura militar a ordem era vestir-se de seleção canarinho e deixa para depois qualquer insatisfação com o regime.

Comparação equivocada? Não, não é. Não vivemos mais em um estado de exceção, no entanto estamos imersos em uma sociedade conduzida pela corrupção, pela falência da política partidária, pelo desmoronamento dos equipamentos públicos na saúde, na educação, no transporte. Há motivo de sobra parta ir as ruas e quebrar meia dúzia de janelas, com Copa ou sem Copa.

Pelé, como cidadão, tem o direito de ter a opinião que mais lhe agrade ou convença. Eu também, assim como você, caro leitor. No entanto, em um país onde a miséria é ainda flagrada nos grandes centros e nos rincões, onde a população míngua nos postos de saúde, onde construtoras dão "migué" e abandonam projetos de imóveis já comprados por centenas de pobres coitados, onde a política vive calcada na corrupção, na caixinha dois e coisa que o valha, gastar milhões em uma Copa do Mundo é, sim, algo digno de ser analisado com parcimônia e, se preciso criticado.

Esta história de ‘protestar depois’ é, no mínimo, mal caratismo de quem está na folha de pagamento da Fifa ou daqueles que não conseguem enxergar além da política partidária.

Esta história de "protestar depois" é, no mínimo, mal caratismo de quem está na folha de pagamento da Fifa ou daqueles que não conseguem enxergar além da política partidária. “A Copa ocorre sob meu governo? Vale tudo”. “Ela ocorre sob o governo adversário? Pau neles…”.

Não existe tempo certo para protesto. Esta é a questão. O mundo está caminhando para uma lenta descentralização dos movimentos sociais desde a primavera árabe. Para onde a coisa vai? Não se sabe. Protestos não são mais conduzidos por partidos ou sindicatos. A população está exausta e age sob a pressão deste cansaço. Qualquer insinuação de que a insatisfação popular é dirigida por este ou aquele partido é inócua.

A culpa não é do PT, do PMDB, do PSDB ou das demais dezenas de partidos que poluem o cenário político brasileiro. A questão é que o sistema que costumávamos usar para compreender a política está desmoronando. E quer saber? Isso é ótimo.

A seguir, dois momentos nada legais dos garotos propaganda da Fifa.


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