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Palavra do Editor

A turba, mais uma vez

Publicado em 29/07/2016 12:00 -

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A atriz e cantora Letícia Sabatella foi agredida na tarde de domingo (31) durante a manifestação pró-impeachment em Curitiba (PR). Os detalhes do episódio inundaram as redes sociais. Sabatella foi chamada de “puta”, “sem vergonha”, e outras indelicadezas, além de ter sido coagida a “sair da rua”. Os agressores, muitos vestidos com camisetas do Brasil e com a mensagem “república de Curitiba”, gritavam em coro: “Vai embora daqui”. Um senhor chegou a empurrar o celular com o qual a atriz grava a cena.

Desde o início do processo de impeachment, Sabatella vem se posicionando em defesa da democracia, pedindo a imparcialidade da Justiça e avanços no combate à corrupção. Junto a outros artistas, ela lançou a campanha “Canta a Democracia”. “Não fui provocar ninguém, passava pela praça antes de começar a manifestação e parei pra conversar com uma senhora. Meu erro. Preocupa esta falta de democracia no nosso Brasil. Eles não sabem o que fazem”, escreveu Sabatella em um post no Facebook.

O caso é mais uma amostra de como a polarização do debate político está deixando transparecer no tecido social uma fissura de onde emerge, novamente, os traços do fascismo. Sob o argumento – válido, é claro – de combater a corrupção, importantes fatias da sociedade têm adotado o discurso da desumanização, da estratificação do humano como argumento de luta no campo do debate político.

Lá no século XVII Francis Bacon apontava a dificuldade em dialogar com o outro ao afirmar que quase todas as pessoas não ouvem argumentos distintos ou não elaboram ideias fora dos seus limites, mas aceitam ou rejeitam a partir de premissas anteriores. Não é isso que está ocorrendo neste instante no Brasil? Ideias preconcebidas, reprodução de informações em a devida análise crítica, ouvidos lacrados ao contraponto.

É direito de qualquer cidadão manifestar o seu descontentamento diante da política, protestar, expor seu ponto de vista. Mas há um tipo de manifestação que extrapola estes direitos básicos da cidadania: trata-se daquela manifestação que impede a livre expressão, que coage o outro.

A violência pode ser o resultado direto desta polarização entre atores que não se ouvem. Hoje, na política brasileira, o clima de hostilização é tão forte que qualquer militante e político de esquerda está passível de sofrer violência física ou moral. Até onde essa polarização pode chegar? Tenho todo o direito de vestir uma camisa vermelha e ir as ruas expressar minha convicção, quanto você tem de vestir verde amarelo e fazer o mesmo sem temer ser agredido por uma turba de fanáticos.

Enfrentamento entre manifestantes, insultos racistas, generalizações burras. De um lado as cores nacionais apropriadas como símbolo de uma direita retrógrada, de outro, camisetas e bandeiras vermelhas são imediatamente ligadas ao PT e a corrupção (como se a corrupção fosse exclusividade de um partido ou político). Defende cotas para negros? Comunista! Apoia a meritocracia? Coxinha! Quer uma reforma agrária? Vermelho!  Critica o governo Dilma? Fascista! E por aí vai.

Não se trata de discordâncias políticas, o que é saudável em qualquer democracia. No Brasil, hoje, defende-se opiniões com a lógica da torcida organizada, da paixão isenta de razão. Aí, o nível desce tremendamente. Pessoas bradam com ódio, frases vazias de qualquer sentido.

Quanto mais democrático um país, mais participativo, e mais liberdade para expressar opiniões, maior a tendência de diminuir a corrupção. No entanto, este debate precisa ser feito dentro da civilidade. Quando os fins justificam os meios, quando passamos a tolerar a quebra dos paradigmas democráticos, o que sobra é o totalitarismo: a polarização política no Brasil ameaça o equilíbrio da democracia e desnivela o bom senso das pessoas.

É direito de qualquer cidadão manifestar o seu descontentamento diante da política, protestar, expor seu ponto de vista. Mas há um tipo de manifestação que extrapola estes direitos básicos da cidadania: trata-se daquela manifestação que impede a livre expressão, que coage o outro.

Todo o radicalismo é essencialmente anti-democrático. Quando não permitimos que o outro pense diferente de nós, quando não admitimos a manifestação de seus pontos de vista, abrimos espaço para o totalitarismo.


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