02/03/2024 - Edição 525

Palavra do Editor

A lógica do bando

Publicado em 06/12/2016 12:00 -

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Corporativismo: defesa exclusiva dos próprios interesses por parte de alguma categoria profissional. Resumindo: a resistência ferrenha de pessoas reunidas contra mudanças que ameacem suas rotinas e interesses – independentemente destas rotinas e interesses serem prejudiciais ao interesse geral da sociedade.

“Tem que ser corporativista mesmo”, ouvi certa vez de um colega jornalista ao comentar a exigência do diploma específico na área para o exercício da profissão. O debate ali não era se o diploma seria ou não a única forma de mensurar se alguém tem ou não condições de exercer a profissão, mas defender o corporativismo e a reserva de mercado a todo custo A sociedade que se danasse.

Ontem fiz um comentário no Facebook a respeito do Judiciário brasileiro. Disse que 90% de seus integrantes recebe acima do teto constitucional e que boa parte deles se locupleta de “ajudinhas de custo” imorais. Para minha surpresa, um “ex-amigo” (considero-o um amigo ainda, embora ele tenha me excluído da rede social devido o meu comentário), juiz, sempre muito ferrenho na defesa dos direitos humanos, dos excessos do poder político-econômico, das bandalheiras generalizadas, respondeu ao meu comentário atacando o Jornalismo brasileiro. Ao invés de reconhecer (ou não) os fatos que expus e iniciar um debate, preferiu atacar minha profissão.

O corporativismo impede o senso de comunidade por ter todas as suas bases no raciocínio do bando e não da sociedade. É um câncer difícil de ser extirpado.

Meu “ex-amigo” juiz cometeu uma falácia argumentativa. No caso, a denominada “Tu quoque”, onde o autor da falácia evita ter que se engajar em críticas virando as próprias críticas contra o acusador (responde críticas com críticas). Esta falácia, cuja tradução do latim é literalmente “você também”, é geralmente empregada como um mecanismo de defesa. O alvo muda o foco da crise para o acusador. A implicação é que, se o oponente de alguém também faz aquilo de que acusa o outro, ele é um hipócrita. Independente da veracidade da contra-acusação, o fato é que esta é efetivamente uma tática para evitar ter que reconhecer e responder a uma acusação contida em um argumento.

Este comportamento, é, a meu ver, o que há de pior no corporativismo: a incapacidade de observar os próprios excessos.

O tiro, obviamente, saiu pela culatra. Não sou corporativista. Pelo contrário. Sempre fui um profundo crítico dos deslizes éticos e morais do Jornalismo. E, mais importante, me incluo nestes deslizes, não estou isento deles. No entanto, longe de justificá-los sob a carapuça da corporação, dos interesses particulares, sempre optei por apontá-los, meter o dedo na ferida.

O corporativismo – que teve seu ápice no fascismo italiano – sempre esteve presente na construção da sociedade brasileira. No Brasil, se desenvolveu com o Getulismo e hoje está entranhado – à esquerda e à direita – no nosso tecido social.

O comportamento corporativista se desnuda de cidadania. Adota a visão torta segundo a qual o mais importante é o “melhor para si”, e não o que é bom “para todos”. O corporativismo impede o senso de comunidade por ter todas as suas bases no raciocínio do bando e não da sociedade. É um câncer difícil de ser extirpado.


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