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Mundo
O xadrez global que os EUA usam para tentar conter o poder da China.
Publicado em 14/05/2026 1:40 - DW e BBC News Brasil
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O presidente da China, Xi Jinping, elogiou nesta quinta-feira (14) um “novo posicionamento” alcançado nas relações com os Estados Unidos após sua reunião com seu homólogo americano, Donald Trump, em Pequim, descrita pelo republicano como “a maior cúpula de todas”.
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Os dois líderes concordaram que as relações entre os países devem permanecer “construtivas, estratégicas e estáveis”, em uma lógica de cooperação aliada a uma competição moderada. Xi, porém, advertiu que divergências sobre Taiwan podem levar a relação por um caminho perigoso e até resultar em conflito.
Trump está na China em sua primeira visita ao país desde sua própria passagem por Pequim, em 2017. As duas maiores economias do mundo enfrentam fricções que envolvem competição tecnológica e tarifária, a guerra no Irã e a delicada questão de Taiwan, cujo principal aliado é Washington.
“Ambos acreditamos que a relação entre a China e os Estados Unidos é a relação bilateral mais importante do mundo. Temos de fazer com que ela funcione e nunca prejudicá-la”, afirmou Xi posteriormente em um banquete de Estado com Trump. “Tanto a China quanto os Estados Unidos têm a ganhar com a cooperação e a perder com o confronto. Nossos dois países devem ser parceiros, e não rivais.”
Já Trump convidou Xi para uma visita a Washington, em setembro. Também descreveu a relação entre os EUA e a China como uma das “mais importantes da história mundial”. Os dois líderes evitaram temas controversos em seus discursos públicos.
Em comunicado, a Casa Branca classificou a reunião como “boa” e que “os dois lados discutiram formas de ampliar a cooperação econômica”.
Divergências sobre Taiwan pode levar a “conflito”
Durante reunião a portas fechadas, Xi disse a Trump que, se a questão de Taiwan for bem administrada, as relações bilaterais terão “estabilidade geral”. Caso contrário, os dois países correm o risco de entrar em conflito, segundo resumo divulgado por agências estatais chinesas.
“Se a situação for mal conduzida, os dois países podem entrar em confronto ou até mesmo em conflito, levando toda a relação entre a China e os EUA a uma situação extremamente perigosa”, disse Xi, segundo a emissora CCTV.
Questionado se havia tratado do tema, Trump não respondeu enquanto posava para fotos com Xi após a cúpula. Taiwan também não foi mencionada no resumo divulgado pela Casa Branca. Mais tarde, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que a política dos EUA em relação a Taiwan “permanece inalterada”.
Rubio alertou que seria um “erro terrível” se a China tomasse Taiwan à força. “Da nossa perspectiva, qualquer mudança forçada no status quo e na situação que existe agora seria ruim para os dois países”, afirmou o secretário, que integrou a delegação americana em Pequim.
Uma ação militar chinesa teria repercussões globais, segundo Rubio. “Haveria repercussões globais, não apenas dos Estados Unidos”, declarou.
A ilha, governada democraticamente, é reivindicada por Pequim e vem sendo cada vez mais armada pelos Estados Unidos. Na quarta-feira, a China reiterou sua forte oposição às vendas americanas de armamentos a Taiwan, enquanto Washington avalia liberar um novo pacote de 14 bilhões de dólares (R$ 70 bilhões). Pela legislação americana, os EUA são obrigados a fornecer meios de autodefesa à ilha, apesar da ausência de relações diplomáticas formais.
Joe Mazur, analista de geopolítica da consultoria Trivium China, afirmou que, embora Pequim já tenha usado advertências duras no passado, as declarações de Xi foram notáveis. “Ele está alertando o lado americano, sem rodeios, para não fazer besteira”, disse.
Em nota, o governo taiwanês afirmou manter contato direto com a diplomacia americana e agradeceu o apoio de Washington. “Os EUA também reiteraram repetidamente sua posição firme e clara de apoio a Taiwan”, disse Michelle Lee, porta-voz do gabinete do premiê.
Encontro marcado por nova dinâmica de poder
As advertências de Xi sobre Taiwan funcionaram como contraponto a um encontro marcado por pompa. Com os índices de aprovação abalados pela guerra com o Irã, a primeira visita de um presidente dos EUA ao principal rival estratégico e econômico do país em quase uma década ganhou peso adicional.
Após uma cerimônia com guarda de honra e crianças acenando flores e bandeiras no Grande Salão do Povo, Trump elogiou Xi ao iniciar conversas que duraram mais de duas horas.
“Você é um grande líder; às vezes as pessoas não gostam que eu diga isso, mas eu digo mesmo”, afirmou Trump. “Há quem diga que esta pode ser a maior cúpula de todas.”
A dinâmica de poder mudou desde a visita anterior de Trump, quando a China fez questão de comprar bilhões de dólares em produtos americanos, disse Ali Wyne, assessor sênior do International Crisis Group.
Trump chega às negociações em posição enfraquecida. Tribunais americanos limitaram sua capacidade deimpor tarifas livremente sobre exportações da China e de outros países. A guerra com o Irã elevou a inflação doméstica e aumentou o risco de o Partido Republicano perder o controle de uma ou de ambas as Casas do Congresso nas eleições de meio de mandato, em novembro. Embora a economia chinesa tenha desacelerado, Xi não enfrenta pressões comparáveis.
Para Wyne, Trump agora reconhece esse status da China, ao retomar o termo “G2” — referência a um duopólio de superpotências — em encontro com Xi na Coreia do Sul, em outubro.
China prega comércio estável
O principal objetivo das negociações era manter a trégua comercial firmada em outubro passado, na qual Trump suspendeu tarifas de três dígitos sobre produtos chineses e Xi recuou de restringir o fornecimento global de terras raras.
Washington ainda busca vender aviões da Boeing, produtos agrícolas e energia à China para reduzir um déficit comercial que há anos irrita Trump. Pequim, por sua vez, quer que os EUA aliviem restrições à exportação de equipamentos para fabricação de chips e semicondutores avançados, segundo autoridades envolvidas no planejamento.
O presidente chinês afirmou que as conversas entre as equipes econômicas dos dois países, realizadas na Coreia do Sul na quarta-feira, alcançaram “resultados equilibrados e positivos”, segundo o Ministério das Relações Exteriores chinês. Ainda não está claro se um acordo será fechado.
Segundo a agência estatal Xinhua, Xi afirmou que a nova orientação estratégica de estabilidade nas relações comerciais deve criar “limites para a competição” e garantir que “as diferenças sejam administradas”. Ele acrescentou que ambos os lados devem usar canais políticos, diplomáticos e militares para assegurar esses objetivos.
A comitiva de Trump inclui CEOs que tentam resolver pendências com a China, entre eles o bilionário Elon Musk. dono do X, o CEO da Apple, Tim Cook, e o presidente da Nvidia, Jensen Huang. Trump havia dito que seu primeiro pedido a Xi seria que a China “se abrisse” à indústria americana. Após a reunião, Musk disse a repórteres que a conversa foi “maravilhosa”.
Estreito de Ormuz deve permanecer aberto, diz Casa Branca
Os líderes ainda trocaram opiniões sobre as situações no Oriente Médio, na Ucrânia e na Península Coreana, segundo o comunicado chinês.
De acordo com nota da Casa Branca, os presidentes também concordaram que o Estreito de Ormuz deve permanecer aberto ao livre fluxo de energia. Xi também se opôs à implementação de pedágios para embarcações que cruzam o estreito, afirmou um funcionário da Casa Branca à agência AP.
O líder chinês manifestou interesse em comprar mais petróleo dos EUA para reduzir a dependência do Golfo. “Os dois países concordaram que o Irã não pode ter uma arma nuclear”, escreveu a Casa Branca.
Trump e Xi discutiram ainda medidas para interromper o envio de precursores químicos do fentanil aos EUA e o aumento das compras chinesas de produtos agrícolas americanos.
Xi tem uma visita recíproca planejada, de forma provisória, para mais tarde neste ano — sua primeira ida aos Estados Unidos desde o início do segundo mandato de Trump, em 2025.
O xadrez global que Trump usa para tentar conter o poder da China
Pressão sobre a Venezuela, bloqueio do petróleo iraniano no estreito de Ormuz , movimentações no entorno do estreito de Malaca. Nos últimos meses, os Estados Unidos intensificaram sua atuação em pontos estratégicos das rotas globais de energia e comércio, ampliando sua presença em diferentes frentes da disputa geopolítica atual.
Mas o que parecem ser, à primeira vista, crises distintas, com dinâmicas próprias, pode indicar um padrão observado em conjunto: o uso crescente do controle sobre gargalos marítimos, fornecedores de petróleo e corredores comerciais como instrumento de pressão na disputa estratégica com a China.
Após um primeiro ano de governo marcado por uma escalada da guerra comercial com Pequim, a primeira viagem de Trump à China desde seu retorno à Casa Branca funciona como um teste para a capacidade dos dois países de administrar tensões crescentes sem romper canais de diálogo.
Em 30 de abril, o chanceler chinês conversou por telefone com o secretário de Estado dos Estados Unidos sobre os preparativos da visita, além de discutir temas sensíveis como Taiwan e o Oriente Médio.
O gesto foi interpretado como uma tentativa de manter a comunicação aberta em um momento de incerteza crescente e de evitar que crises paralelas contaminem diretamente a relação bilateral.
O que conecta Venezuela, Ormuz e Malaca
Segundo analistas ouvidos pela BBC News Brasil, esse contexto ajuda a entender por que os movimentos recentes dos Estados Unidos vão além de episódios isolados e incidem diretamente sobre um dos pontos mais sensíveis da economia chinesa: o abastecimento de energia.
Antes da crise mais recente no Golfo Pérsico, cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã tinham como destino a China. Ao interferir nesse fluxo, os Estados Unidos não apenas pressionam Teerã, mas também ampliam a volatilidade em um mercado cujos efeitos são sentidos muito além da Ásia, com impacto sobre preços globais de energia, cadeias de abastecimento e inflação em diferentes regiões do mundo.
A pressão sobre a Venezuela, em uma ofensiva que culminou na captura de Nicolás Maduro, segue lógica semelhante ao atingir outro fornecedor relevante de petróleo para Pequim, enquanto as movimentações no Sudeste Asiático ampliam a atenção sobre rotas marítimas críticas para o abastecimento chinês.
A questão central é até que ponto essas ações refletem uma estratégia deliberada de pressão sobre a China ou se são, sobretudo, respostas a crises regionais que acabam produzindo efeitos colaterais globais.
Para o cientista político Mauricio Santoro, as duas interpretações não são excludentes. Segundo ele, os Estados Unidos vivem há pelo menos uma década um período marcado por instabilidade política interna, polarização e decisões frequentemente erráticas. Ainda assim, há um elemento que atravessa governos e partidos: a percepção de que a ascensão da China representa uma ameaça estratégica.
“Existe realmente um tema de política pública que une o Partido Democrata e o Partido Republicano: a preocupação com a China”, afirma.
“A ascensão chinesa é vista como uma ameaça aos interesses dos Estados Unidos, e isso tem levado a uma série de iniciativas para criar obstáculos ao desenvolvimento econômico da China.”
Nesse contexto, ações militares indiretas, sanções econômicas e pressões diplomáticas passam a ser mobilizadas de forma combinada. Ainda que não tenham a China como alvo imediato, acabam afetando diretamente seus interesses, afirma Santoro, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha.
“Eu não diria que a China é a motivação essencial dessas ações, mas ela é parte desse cálculo”, diz
Quando a disputa sai do comércio e vai para as rotas de energia
Para o analista Lucas Leite, o cenário atual não corresponde exatamente a um plano único e coordenado. O que emerge, segundo ele, é um conjunto de decisões que convergem sobre as mesmas vulnerabilidades. Professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Leite descreve esse movimento como uma forma de “pressão por fricção”.
“Essas ações, juntas, servem para pressionar a China em seu ponto de maior vulnerabilidade estrutural, que é o abastecimento de energia. Mas não está claro se isso é um plano deliberado, integrado ou é uma convergência de coisas distintas”, afirma.
Segundo ele, o ponto central não está na intenção declarada de Washington, mas no efeito acumulado dessas decisões, que, na prática, encarecem o acesso da China à energia e aumentam a incerteza sobre suas rotas de abastecimento.
Esse deslocamento da disputa — do campo das tarifas e sanções econômicas para o controle de rotas marítimas, cadeias de abastecimento e pontos estratégicos do comércio global — reflete um desequilíbrio crescente entre as duas potências.
De um lado, a China avança rapidamente em setores como comércio internacional, indústria e tecnologia de ponta. De outro, os Estados Unidos ainda mantêm uma vantagem significativa no campo militar, especialmente na capacidade de projetar poder global por meio de sua Marinha.
“É muito nítido o quanto os Estados Unidos estão perdendo terreno para a China em áreas como comércio e tecnologia”, afirma Santoro.
“Fica muito grande essa tentação de usar o poder militar, de usar essa coerção, para tentar obter resultados econômicos.”
O ‘dilema de Malaca’ e a vulnerabilidade chinesa
É nesse ponto que entram os chamados “chokepoints” — gargalos marítimos por onde passa uma parte significativa do comércio global de energia. Entre eles, os estreitos de Ormuz e Malaca ocupam posições centrais.
Ormuz conecta os produtores de petróleo do Golfo aos mercados globais e responde por cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo transportado por via marítima. Já Malaca, localizado entre Malásia, Indonésia e Singapura, liga o Oceano Índico ao Mar do Sul da China e funciona como uma artéria vital para a economia chinesa: mais de 80% das importações de petróleo do país passam por esse corredor marítimo.
Essa dependência ficou conhecida como o “Dilema de Malaca”, expressão popularizada em 2003 pelo então presidente chinês, Hu Jintao, para descrever o temor de Pequim de que uma potência rival possa interromper o fluxo de energia nessa rota crítica.
“A China sabe que há uma vulnerabilidade histórica no seu acesso ao mar”, explica Santoro.
“Embora tenha um litoral muito extenso, esse acesso depende de pontos de estrangulamento que podem ser explorados em um cenário de conflito.”
Esse temor voltou ao centro do debate estratégico nos últimos meses. Em abril, os Estados Unidos firmaram com a Indonésia uma parceria de cooperação de defesa e passaram a negociar maior acesso ao espaço aéreo do país, ampliando sua capacidade de vigilância sobre o estreito.
Para analistas, o movimento não implica controle direto da rota, mas reforça a capacidade americana de monitorar e, em um cenário extremo, influenciar o fluxo marítimo.
A aproximação entre Washington e Jacarta, porém, também expôs resistências internas na Indonésia, que historicamente adota uma política externa de neutralidade e evita se alinhar de forma explícita às disputas entre grandes potências.
“O ponto não é fechar o estreito, mas mostrar que ele pode ser pressionado. Isso já é suficiente para gerar custo e incerteza”, diz Leite.
Pressão por fricção, não por estrangulamento
A geografia reforça essa lógica. Em seu trecho mais estreito, o estreito de Malaca tem pouco mais de 2 km de largura, o que o torna particularmente sensível a interrupções. No entanto, essa vulnerabilidade não significa que a China esteja à beira de um colapso em caso de crise. Segundo Leite, a China desenvolveu mecanismos de resiliência que reduzem o impacto de crises externas.
“A China tem reservas estratégicas muito grandes, uma frota de petroleiros paralela e vem acelerando a transição energética”, afirma.
Hoje, veículos elétricos e híbridos já representam mais da metade das vendas no país, reduzindo gradualmente a dependência de combustíveis fósseis. Na prática, isso significa que a pressão americana tende a gerar impacto, mas não necessariamente um colapso.
“O que acontece é uma fricção. O petróleo fica mais caro, a logística mais complicada, mas não há um estrangulamento sistêmico.”
Os efeitos já são visíveis: aumento de preços, ajustes nas cadeias de importação e pressão sobre refinarias independentes, especialmente aquelas que dependem de petróleo sancionado. Mas, até agora, esses efeitos têm sido administrados.
O contra-ataque chinês dos minerais críticos
Ao mesmo tempo, a China dispõe de instrumentos próprios de pressão. Pequim domina cerca de 70% da extração e 90% do processamento global de minerais críticos, insumos essenciais para setores como tecnologia, defesa e energia limpa. Essa posição dominante oferece uma poderosa alavanca de negociação.
“Essa dependência dos Estados Unidos em relação aos minerais chineses é, no curto prazo, mais difícil de contornar do que a dependência da China em relação ao petróleo”, avalia Leite.
Além disso, a China tem buscado reduzir sua exposição ao sistema financeiro internacional dominado pelos EUA, ampliando o uso do yuan em transações energéticas e mantendo relações comerciais com países sob sanção.
Diante disso, cresce o risco de que a estratégia americana produza efeitos adversos. Para Santoro, o uso da força militar como instrumento econômico tende a aumentar a instabilidade global, ainda que não garanta ganhos estratégicos claros.
“Será que isso vai dar resultado ou só vai criar um mundo mais instável, mais violento e mais imprevisível? Por enquanto, está criando simplesmente uma situação de caos.”
Entre pressão e negociação
De um lado, os Estados Unidos ampliam seus instrumentos de pressão. De outro, Pequim demonstra capacidade de absorver custos e se adaptar a um ambiente mais adverso.
Até que ponto essa estratégia de pressão sobre as rotas energéticas será usada como ferramenta de negociação ou se tende a se consolidar como um fator permanente de tensão?
No fim, a disputa entre Estados Unidos e China já não se limita a tarifas ou tecnologia. Ela passa também pelas rotas do petróleo, pelos gargalos marítimos e pela capacidade de transformar fluxos comerciais e energéticos em instrumentos de pressão.
Mas, como mostram os eventos recentes, pressionar nem sempre significa controlar — e o custo dessa estratégia pode acabar sendo compartilhado por todos.
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