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Mundo

Washington volta à mirar a América Latina

Especialistas rejeitam chamar Venezuela de narcoestado, como diz Trump

Publicado em 04/09/2025 12:54 - Semana On e Agência Brasil

Divulgação Reprodução

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Nesta semana, os Estados Unidos confirmaram a destruição de uma embarcação que, segundo o Pentágono, era operada pelo grupo criminoso venezuelano “Tren de Aragua” e transportava drogas. O ataque com drone matou 11 pessoas em águas internacionais no sul do Caribe. Para o governo venezuelano, tratou-se de uma execução extrajudicial sem qualquer base legal. “Assassinaram 11 pessoas sem nenhum julgamento. Eu pergunto se isso pode ser feito?”, questionou Diosdado Cabello, ministro do Interior e um dos homens mais poderosos do chavismo. “Nenhuma suspeita de narcotráfico autoriza execuções extrajudiciais no mar.”

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A ação representou um novo degrau na política de militarização da “guerra às drogas” adotada pelo presidente Donald Trump em seu segundo mandato. Em coletiva, o republicano celebrou o episódio sem rodeios: “Nós simplesmente… atiramos em um barco carregado de drogas. Essas vieram da Venezuela.”

Segundo reportagem do Intercept, um alto funcionário da Defesa dos EUA confirmou que o ataque foi “uma ação de precisão contra uma embarcação de drogas operada por uma organização determinada como narcoterrorista”. O termo é importante: desde fevereiro, Trump designou oficialmente o Tren de Aragua, além do MS-13 de El Salvador e seis cartéis mexicanos, como organizações terroristas estrangeiras. A designação permite, sem aval do Congresso, o uso direto das Forças Armadas em operações ofensivas.

Ecos da Doutrina Monroe e a volta da “diplomacia da canhoneira”

O movimento não é isolado. Nas últimas semanas, os EUA enviaram sete navios de guerra e um submarino nuclear para a costa da Venezuela. Além disso, milhares de soldados foram deslocados para o Comando Sul (SOUTHCOM), que supervisiona as operações militares no Caribe e América Latina. A 22ª Unidade Expedicionária da Marinha, especializada em desembarques anfíbios – tática típica de invasões costeiras – já realiza exercícios em Porto Rico.

O contexto histórico é inescapável. A doutrina intervencionista dos EUA na América Latina remonta à Doutrina Monroe (1823) e ao “Big Stick” de Theodore Roosevelt no início do século XX, quando os EUA justificaram ocupações e golpes em Cuba, Nicarágua, Haiti, República Dominicana e Honduras. Como relembra o historiador Greg Grandin em Empire’s Workshop, o modelo sempre combinou a militarização com a proteção de interesses econômicos e geopolíticos dos EUA.

Para Erik Sperling, diretor da Just Foreign Policy, organização crítica à política externa dos EUA, a atual escalada remonta a esse histórico. “Esses desdobramentos representam um retorno a uma abordagem intervencionista insensível à região”, disse ao Intercept. “Embora o governo espere reforçar o poder dos EUA no hemisfério a curto prazo, é mais provável que essa abordagem fortaleça a determinação dessa região de fazer parcerias com países como a China a médio e longo prazo.”

O uso das Forças Armadas contra cartéis e a militarização da política externa

Especialistas alertam que a equiparação de cartéis a grupos terroristas abre caminho para abusos jurídicos e escaladas militares. “Se seguirmos o caminho traiçoeiro de definir qualquer grupo ou indivíduo que cometa um crime, ou mesmo um ato de violência, como parte de uma organização terrorista, para justificar o uso de recursos de combate dos EUA, seremos um país afundando ainda mais rumo à militarização e ao autoritarismo”, disse Wes Bryant, ex-consultor de alvos do Pentágono que atuou no Afeganistão contra o Talibã e o ISIS.

Bryant questiona abertamente o uso das forças especiais nesse tipo de missão: “Legalmente e doutrinariamente inadequado”, afirmou. “Isso pode evoluir para uma guerra no México com envolvimento direto dos militares dos EUA.”

A própria estrutura legal está em xeque. Pela Resolução dos Poderes de Guerra, o presidente norte-americano só pode posicionar tropas em situações de hostilidade iminente com autorização do Congresso. “O Congresso nunca autorizou uma guerra contra a Venezuela”, destaca Sperling. “População e legisladores precisam estar atentos para se oporem a qualquer ação não autorizada ou provocações incitadas.”

Maduro em alerta, México pressionado

O governo venezuelano, que já vê em Trump um inimigo declarado desde seu primeiro mandato, declarou estado de alerta máximo. Para Nicolás Maduro, a ofensiva militar dos EUA é parte de um plano de “mudança de regime”. Em 2020, o Departamento de Justiça dos EUA o acusou de narcoterrorismo, e no mês passado, a recompensa por sua captura foi dobrada para 50 milhões de dólares.

A retórica do governo dos EUA se endurece. Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca, declarou: “Não existem neste planeta organizações mais responsáveis pela morte de americanos do que os cartéis do Hemisfério Ocidental. Combatê-los é uma obrigação”.

O México também está na mira. Apesar da declaração enfática da presidente Claudia Sheinbaum — “não haverá uma invasão” —, seu governo entregou recentemente 26 suspeitos ligados ao narcotráfico aos EUA, fora dos trâmites normais de extradição. Questionado se enviaria forças especiais para “derrubar” cartéis no México, Trump respondeu: “Pode acontecer… coisas mais estranhas já aconteceram”.

O risco de um Vietnã latino-americano

As ações militares no Caribe e a retórica do governo Trump reacendem temores sobre uma nova fase intervencionista dos EUA, sob o pretexto da luta contra as drogas. A “guerra aos cartéis” já é descrita por especialistas como um risco concreto de engajamento em conflitos prolongados e de difícil resolução. “É exatamente o tipo de atividade que poderia levar o México a um grande conflito de contra-insurgência com envolvimento direto das forças dos EUA”, alerta Bryant.

A política externa de Washington, com seu viés beligerante e unilateral, pode se voltar contra os próprios interesses dos EUA. “Ninguém na região realmente acredita que a solução para a demanda dos EUA e da Europa por drogas seja realizar campanhas militares em toda a América Latina”, conclui Sperling. “Caso os EUA avancem em sua escalada, os principais efeitos serão o aumento da migração em massa e o fracasso das promessas de campanha do próprio Trump.”

Especialistas rejeitam chamar Venezuela de narcoestado

Em meio a acusações dos Estados Unidos de que o governo venezuelano lidera um cartel de drogas para justificar as ameaças militares contra o país sul-americano, especialistas contestam classificar a Venezuela como um narcoestado.

Para a consultora sênior da União Europeia para Políticas sobre Drogas na América Latina e Caribe, a advogada Gabriela de Luca, o uso do termo é exagerado e impreciso.

“O que se sabe, com base em investigações sérias, é que existem sim militares e autoridades envolvidos em esquemas de tráfico, principalmente em áreas de fronteira. Mas não há provas de que exista uma estrutura centralizada, comandada pelo governo, que coloque o Estado a serviço do narcotráfico”, disse.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que o governo da Venezuela “é um grupo que está operando em águas internacionais simplesmente exportando para os EUA veneno, que está matando e destruindo a comunidade”. “O Cartel de los Soles é uma das organizações mais amplas que existem no continente. O regime de Maduro não é um governo, é uma organização criminosa”, acrescentou.

Segundo Gabriela de Luca, é enganoso classificar o grupo Cartel de los Soles, que o governo Donald Trump diz ser chefiado pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, como um cartel de drogas típico, a exemplo dos mexicanos, como o Sinaloa.

“O que há são redes difusas, envolvendo militares e ex-militares, e alguns políticos, que facilitam o tráfico em determinadas regiões. Há provas de conluio entre oficiais venezuelanos e traficantes, como laboratórios interceptados, mas nada que configure necessariamente uma organização única, ou que seja dirigida por Maduro, e sim um sistema de facilitação que varia conforme interesses regionais”, acrescentou Gabriela.

O ex-oficial nacional de Inteligência dos EUA para América Latina, o professor Fulton Armstrong, levantou dúvidas quanto às primeiras denúncias de que Maduro teria relação com o narcotráfico, feitas ainda em 2020.

“A maioria das drogas nunca passou pela Venezuela. O chamado Cartel de los Soles está sendo alardeado nos documentos de indiciamentos [contra o governo Maduro]. Nenhum analista sério que eu conheça fora do governo, eu não sei o que eles estão dizendo dentro do governo agora, mas nenhum observador sério hoje diria que existe tal cartel”, explicou o professor em entrevista à organização Codepink.

O especialista chefiou o gabinete do Centro de Crimes e Narcóticos do governo estadunidense, além de ter participado da Comunidade de Inteligência dos EUA. Atualmente, é professor de estudos latino-americanos na American University, em Washington D.C.

Dona das maiores reservas de petróleo do planeta, a Venezuela mantém com os EUA uma relação de atrito desde a chegada dos chavistas ao poder, há 25 anos.

As novas ameaças do governo Trump trouxeram tensões para a América Latina devido ao risco de uma intervenção direta de Washington no continente latino-americano, o que não ocorre desde a invasão do Panamá, em 1989.

Na época, os Estados Unidos invadiram o pequeno país centro-americano sob a justificativa de que o presidente-general Manuel Noriega, ex-aliado de Washington, tinha relações com o narcotráfico. A invasão custou a vida de milhares de panamenhos.

Narcoestado

O coronel da reserva da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMRJ) Robson Rodrigues, doutor em ciências sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), concorda que o grupo de Los Soles não tem grande protagonismo, ao contrário do que afirmam os EUA.

“As atividades criminosas dessas facções estão superestimadas. Não tenho convicção de sustentar essa hipótese de narcoestado, e que o Maduro facilita facções criminosas. Eu acho que não é por aí”, comentou.

Para o especialista em segurança pública, enviar navios de guerra e cerca de 4,5 mil militares à costa venezuelana não é uma medida eficiente para combater o narcotráfico.

O coronel Rodrigues diz que, para combater o narcotráfico, teria que ser feito um trabalho de inteligência e de diagnóstico preciso em parceria com os Estados da região, o que não ocorre.

“Eu não vejo, como especialista de segurança pública, uma preocupação dos EUA em realmente resolver esse problema. Se quisesse resolver, a primeira coisa que teria que fazer é deixar de abastecer essas organizações com armas, como faz, direta ou indiretamente. Essas armas que chegam lá, em grande parte, vêm pelas fronteiras dos próprios EUA”, afirmou.

Rodrigues ponderou ainda que o envolvimento de autoridades estatais com o narcotráfico é registrado em diversos países, incluindo os EUA.

“O Departamento de Estado [dos EUA] teve envolvimentos [com o tráfico]. A gente sabe qual é a história da cocaína. A CIA [Agência de Inteligência dos EUA] esteve envolvida inclusive com produção de cocaína”, lembrou.

A relação de forças militares dos EUA com o narcotráfico foi revelada em um novo livro lançado neste mês pelo repórter investigativo e editor da revista Rolling Stone, Seth Harp.

“Harp conta uma história contundente de narcotráfico nas Forças Especiais, conspirações envolvendo drogas apoiadas por policiais corruptos, acobertamentos militares flagrantes, cumplicidade americana no tráfico de heroína no Afeganistão e as consequências perniciosas da guerra contínua”, informa o resumo da obra.

Denúncia dos EUA

A acusação de que a cúpula do poder na Venezuela estaria envolvida com o narcotráfico na América Latina foi feita, pela primeira vez, no primeiro mandato do presidente Donald Trump, ainda em 2020, no contexto da política de “máxima pressão” para derrubar o governo Maduro.

No ano anterior, em 2019, o então deputado Juan Guaidó se autoproclamou presidente da Venezuela e buscava provocar um racha nas Forças Armadas Bolivarianas para pôr fim ao período chavista que, desde 1999, contraria as políticas da Casa Branca na região.

O então procurador-geral dos EUA William P. Barr disse que “há mais de 20 anos” Maduro e seus assessores “supostamente” conspiraram com as guerrilhas colombianas para comercializar toneladas de cocaína para os EUA, colocando o presidente venezuelano e diversas autoridades do país como lideranças do chamado Cartel de los Soles.

No início deste mês, a atual fiscal geral dos EUA, Pamela Bondi, anunciou o aumento de US$ 25 milhões para US$ 50 milhões da recompensa por informações que levem à prisão de Maduro. Ela acusa o presidente venezuelano de integrar, inclusive, outras organizações criminosas, como o Tren de Aragua, da Venezuela, e o Cartel de Sinaloa, do México.

Segundo a funcionária do governo Trump, Maduro é um dos maiores narcotraficantes do mundo e uma ameaça à segurança dos EUA.

“Até o momento, o DEA [Departamento de Combate aos Narcóticos dos EUA] apreendeu 30 toneladas de cocaína ligadas a Maduro e seus associados, com quase 7 toneladas ligadas ao próprio Maduro, o que representa uma fonte primária de renda para os cartéis mortais baseados na Venezuela e no México”, disse Pamela Bondi em comunicado.

Porém, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, informou que as autoridades do país não têm evidências que liguem Maduro ao Cartel de Sinaloa.

“Da parte do México, não há nenhuma investigação relacionada a isso. Como sempre dizemos, se eles têm alguma evidência, mostre-a. Nós não temos nenhuma prova”, disse Sheinbaum, segundo noticiou a Reuters.

Mercado de drogas

O centro de pesquisa dos Estados Unidos Washinton Office on Latin America (WOLA), que reúne especialistas no continente latino-americano e é crítico do governo Maduro, avaliou, com base em dados do tráfico de drogas de autoridades estadunidenses, que o papel da Venezuela no comércio mundial de drogas é exagerado.

“Não há dúvida de que o crime organizado e a corrupção floresceram em meio à crise da Venezuela. No entanto, a escala do tráfico transnacional de drogas pela Venezuela é frequentemente exagerada, alimentando uma cobertura sensacionalista e imprecisa da mídia”, informou a organização.

Para a WOLA, o exagero do papel da Venezuela no tráfico internacional de drogas é usado por alguns políticos para argumentar contra a possibilidade de uma solução negociada para o conflito venezuelano.

“Os dados do CCDB [Banco de Dados Consolidado Antidrogas Interagências dos EUA] não justificam muitas das alegações feitas por aqueles que defendem a narrativa do ‘narcoestado’ para descrever o crime organizado na Venezuela”, informou em 2020.

A consultora sênior da União Europeia para Políticas sobre Drogas na América Latina e Caribe, Gabriela de Luca, informou à Agência Brasil que a Venezuela não é uma produtora relevante, mas sim uma rota de passagem da droga para os EUA.

“O grosso da cocaína sai da Colômbia. Estimativas sérias falam em algo entre 7% e 13% da cocaína mundial passando por território ou águas venezuelanas. Ou seja: não é irrelevante, mas também não é o grande centro do mercado global”, avalia.

O documento mais recente da Agência das Nações Unidas para Drogas e Crime (UNODC), o Relatório de Mundial sobre Drogas de 2025, afirmou que os principais fluxos de tráfico de cocaína continuam sendo dos países andinos, citando diretamente Colômbia, Bolívia e Peru como grandes produtores, sem referências diretas à Venezuela.

O mais recente relatório da União Europeia, de 2025, também não menciona a Venezuela como ator no mercado global, citando, por outro lado, o Equador, Brasil e Colômbia.

“O tráfico de drogas ilícitas é altamente dinâmico e se adapta rapidamente a desenvolvimentos geopolíticos, conflitos regionais e mudanças nas rotas comerciais. Nesse contexto, mudanças na Colômbia, Brasil e Equador contribuíram para o aumento observado no tráfico de cocaína para a União Europeia por grupos do crime organizado”, diz o relatório.

Cooperação e intervenção

Autoridades de países latino-americanos têm criticado as declarações e medidas do governo Donald Trump que indicam possível interferência direta nos territórios da América Latina sob o argumento da “guerra às drogas”.

A presidenta do México, Claudia Sheinbaum, informou que é possível colaborar, mas sem interferência externa. Posição semelhante à da Colômbia e do Brasil.

Em reunião com o presidente do Equador, Daniel Noboa, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que o combate às drogas não deve justificar intervenção externa.

“Não é preciso classificar organizações criminosas como terroristas nem violar a soberania alheia para combater o crime organizado. Só conseguiremos deter as redes criminosas que se espalharam pela América do Sul agindo juntos”, disse Lula.

No início do ano, Trump classificou diversas organizações do narcotráfico como terroristas e tem pressionado o Brasil a adotar a mesma postura em relação aos grupos criminosos locais.

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