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Mundo

Violência de colonos israelenses contra palestinos se intensifica na Cisjordânia

Brasil e cerca de 20 países denunciam planos de 'anexação de fato'

Publicado em 13/03/2026 1:03 - Semana On

Divulgação Imagem: Jaafar Ashtiyeh/AFP

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Organizações de direitos humanos e observadores internacionais alertam para uma escalada recente da violência praticada por colonos israelenses contra palestinos na Cisjordânia ocupada. O aumento dos ataques ocorre enquanto parte da atenção diplomática e da cobertura da mídia internacional se desloca para a ofensiva conduzida por Israel e Estados Unidos contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro.

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Desde o início da operação militar contra o regime iraniano, ao menos cinco palestinos foram mortos na Cisjordânia, segundo relatos compilados por entidades de monitoramento. Para o grupo israelense de direitos humanos B’Tselem, a intensificação dos ataques está relacionada também a novas restrições impostas aos palestinos.

“Sob o pretexto da guerra, a cooperação entre os militares e as milícias de colonos israelenses está aprofundando a limpeza étnica da Cisjordânia”, afirmou a organização em 6 de março, nas redes sociais, ao anunciar um relatório detalhando episódios recentes de violência. A entidade também denunciou a adoção de amplas restrições de movimento contra palestinos logo após o início da ofensiva militar.

Segundo a B’Tselem, colonos têm utilizado rebanhos para invadir deliberadamente áreas agrícolas palestinas, destruindo plantações e alimentos armazenados, além de roubar animais e vandalizar infraestrutura essencial, como painéis solares e reservatórios de água.

Após um dos episódios mais recentes de violência, ocorrido no domingo, o Serviço Europeu para a Ação Externa (Seae) declarou que o nível de violência registrado na Cisjordânia é “inaceitável”. Em comunicado, o braço diplomático da União Europeia pediu que Israel adote “medidas imediatas e eficazes” para impedir novos ataques e garantir a responsabilização dos envolvidos.

Ataques documentados em dezenas de comunidades

Nos primeiros dez dias da guerra contra o Irã, a organização israelense Yesh Din registrou 109 incidentes distintos de violência de colonos contra palestinos em 62 comunidades da Cisjordânia. Os episódios incluem disparos de arma de fogo, agressões físicas, ameaças e danos a propriedades.

Em 2 de março, dois irmãos palestinos foram mortos ao tentar impedir que colonos danificassem um olival na aldeia de Qaryut, no norte da Cisjordânia. Mohammed Taha Muammar e Fahim Taha Muammar morreram após serem atingidos por tiros.

O jornal The Times of Israel informou que o suspeito do ataque seria integrante das chamadas forças de defesa de área das Forças de Defesa de Israel (FDI), conhecidas pela sigla hebraica Hagmar. Essas unidades são frequentemente compostas por colonos que atuam como reservistas.

Outro episódio ocorreu em 7 de março, quando um colono atirou e matou Amir Muhammad Shanaran, de 28 anos, nas colinas ao sul de Hebron, na região de Wadi A-Rakhim. Seu irmão, Khaled Shanaran, ficou gravemente ferido. Um vídeo divulgado pela B’Tselem mostra um homem armado, aparentemente vestido com uniforme militar, no local do ataque.

Grupos palestinos e israelenses de direitos humanos relatam uma crescente cooperação entre colonos e forças militares israelenses, com soldados deixando de aplicar medidas destinadas a proteger civis palestinos da violência. Parte dos ataques, segundo essas organizações, envolve reservistas oriundos de assentamentos e unidades de segurança privatizadas que têm atuado na região.

Mortes e confrontos em vilarejo próximo a Ramallah

O terceiro episódio mortal ocorreu na madrugada de domingo, na aldeia de Abu Falah, próxima a Ramallah. Moradores afirmam que tentaram impedir a ação de um grupo de israelenses mascarados que vandalizava oliveiras em campos ao redor da localidade.

De acordo com relatos de residentes, dezenas de colonos armados invadiram a aldeia e mataram Thaer Faruq Hamayel e Fara Jawdat Hamayel, ambos baleados na cabeça, segundo equipes de resgate palestinas.

Testemunhas disseram que forças israelenses chegaram posteriormente ao local e lançaram gás lacrimogêneo na vila. Um terceiro morador morreu após sofrer uma parada cardíaca, possivelmente relacionada à inalação do gás, informou o Ministério da Saúde palestino em Ramallah.

O chefe do comando central das Forças de Defesa de Israel, responsável pela Cisjordânia, general Avi Bluth, classificou o episódio como “inaceitável”. Em comunicado, afirmou que “haverá tolerância zero para civis que fizerem justiça com as próprias mãos” e que tais ações “não representam o povo judeu nem o Estado de Israel”, além de comprometerem a segurança e a estabilidade na região.

Até o momento, não há informações públicas sobre eventuais detenções relacionadas aos ataques.

Expulsões e deslocamentos aumentam

A escalada da violência na Cisjordânia tem sido documentada desde os ataques perpetrados pelo Hamas em Israel em 7 de outubro de 2023 e a subsequente guerra na Faixa de Gaza. Desde então, a ONU e organizações de direitos humanos relatam um aumento expressivo de ataques de colonos e deslocamentos forçados de palestinos.

Segundo esses levantamentos, moradores de ao menos 45 comunidades palestinas foram expulsos de suas casas na Cisjordânia ocupada desde o início do atual ciclo de violência.

Em relatório divulgado em 5 de março, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) informou que oito famílias — cerca de 45 pessoas — abandonaram sua comunidade na província de Nablus após uma série de ataques e ameaças provenientes de um posto avançado de colonos recém-estabelecido.

O órgão também relatou que, desde o início das operações militares contra o Irã, novas restrições foram impostas à circulação de palestinos, com bloqueio de postos de controle e fechamento de portões em estradas que conectam vilarejos e cidades.

Em parecer consultivo publicado em 2024, a Corte Internacional de Justiça concluiu que a ocupação prolongada de Israel e a expansão sistemática de assentamentos nos territórios palestinos violam o direito do povo palestino à autodeterminação e considerou essas práticas ilegais à luz do direito internacional.

Brasil e cerca de 20 países denunciam ‘anexação de fato’

Cerca de 20 países, incluindo Brasil, França, Espanha e vários Estados muçulmanos, condenaram com firmeza as últimas medidas tomadas por Israel para ampliar seu controle sobre a Cisjordânia e declararam que essa estratégia constitui uma tentativa de “anexação de fato”.

A decisão de Israel de alterar o registro de terras na Cisjordânia para que possam ser classificadas como “propriedade do Estado” israelense, e de aumentar os assentamentos ilegais, “faz parte de uma trajetória clara que tem como objetivo mudar a realidade no terreno e avançar rumo a uma anexação de fato inaceitável”, afirmaram os países em uma declaração conjunta.

“Essas ações constituem um ataque deliberado e direto à viabilidade de um Estado palestino e à implementação da solução de dois Estados”, acrescentaram os signatários.

Desde o início do mês, Israel anunciou vários planos para ampliar seu controle sobre a Cisjordânia, um território que ocupa desde 1967, incluindo áreas que estão sob controle da Autoridade Palestina em virtude dos Acordos de Oslo assinados por israelenses e palestinos na década de 1990 e hoje praticamente moribundos.

Sob bombas, multidões vão às ruas no Irã em apoio aos palestinos

Em meio a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, multidões foram às ruas em diversas cidades do país persa, nesta sexta-feira (13), para a chamada Marcha Internacional do Dia de Al-Quds (Jerusalém). O evento anual presta homenagem à causa palestina, ocorrendo sempre no último dia do Ramadã, que é o mês sagrado dos mulçumanos.

Durante a manifestação, fortes explosões foram relatadas na capital iraniana. A emissora Al Jazeera Arabic noticiou um ataque aéreo a poucos metros de uma concentração de manifestantes em Teerã. Israel informou que bombardeou mais de 200 alvos no oeste e centro do Irã em 24 horas.

A mídia estatal iraniana noticiou que uma pessoa morreu vítima de estilhaços de bomba em Teerã. Em um dos vídeos, é possível ver a multidão gritando “Deus é grande” com uma enorme torre de fumaça ao fundo. Manifestantes carregam bandeiras do Irã, da Palestina e imagens do novo Líder Supremo Mojtaba Khamenei.

Altas autoridades do país foram fotografadas ou filmadas caminhando em meio às pessoas, como o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, o ministro das relações exteriores, Abbas Araghchi, e o chefe do Conselho Nacional de Segurança Nacional, Ali Larijani.

“O Dia de Quds é uma manifestação de apoio à causa palestina e em defesa dos povos livres do mundo. Convido o querido povo do país a demonstrar mais entusiasmo do que nos últimos dias, participando ativamente no terreno e frustrando os inimigos do Irã”, disse o presidente Pezeshkian nas redes sociais antes dos atos.

A emissora Press TV, do Irã, mostrou vídeos de protestos onde é possível ver milhares de pessoas em cidades importantes como Teerã, Mashhad, Arak, Malayer, Isfahan, Karaj, Kerman e Ahvaz. Os veículos oficiais iranianos dizem que os atos ocorreram em centenas de cidades e vilas.

O Ministério da Saúde do Irã calcula que mais de 1,3 mil pessoas já morreram no país devido a guerra, com mais de 10 mil feridos.

Dia de Al-Quds

O Dia Internacional de Al-Quds foi instituído em 1979 pelo líder da Revolução Islâmica do Irã, Ruhollah Khomeini, poucos meses após o trinfo do movimento que derrubou o regime monárquico do xá Rexa Pahlavi, apoiada pelos EUA e Inglaterra.

O Dia de Al-Quds ocorre também em outros países, em especial, os de maioria mulçumana.

Desde a Revolução Islâmica, o Irã tem sido um dos principais apoiadores da causa palestina e crítico da política de Israel e dos EUA no Oriente Médio, fornecendo apoio a grupos armados palestinos como Hamas e Jihad Islâmica. Esse apoio é uma das justificativas para a agressão contra o país persa.

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