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Kats endurece política migratória e manda construir muro na fronteira com a Bolívia
Publicado em 12/03/2026 1:46 - Semana On
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A posse de José Antonio Kast como presidente do Chile, nesta quarta-feira (11), marca uma inflexão profunda na trajetória política do país que, desde a redemocratização em 1990, vinha sendo considerado um dos sistemas institucionais mais estáveis da América Latina.
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Líder do Partido Republicano e representante da ultradireita chilena, Kast chega ao poder prometendo deportar cerca de 340 mil migrantes em situação irregular, reforçar a presença militar nas fronteiras e construir barreiras físicas na divisa com a Bolívia. A agenda inaugura uma fase de endurecimento estatal centrada em segurança pública, controle migratório e soberania territorial.
Eleito no segundo turno de dezembro de 2025 com cerca de 58% dos votos, derrotando a candidata de esquerda Jeannette Jara, Kast construiu sua vitória explorando um ambiente social marcado pela percepção crescente de insegurança e pelo debate intenso sobre imigração irregular. Embora o Chile ainda registre taxas de homicídio inferiores às de grande parte da América Latina, a ampliação de crimes violentos em determinadas áreas urbanas e a sensação de deterioração da ordem pública tornaram-se fatores centrais na disputa eleitoral.
A presença do senador brasileiro Flávio Bolsonaro entre os convidados da cerimônia de posse simboliza a afinidade ideológica entre Kast e lideranças conservadoras do continente, em um momento em que movimentos de direita radical ampliam influência em diversas democracias.
Um país que muda de direção
A chegada de Kast ao poder representa a maior mudança política à direita no Chile desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990. Durante mais de três décadas, o país alternou governos de centro-esquerda e centro-direita moderada, mantendo uma linha política relativamente consensual em temas institucionais e econômicos.
Agora, a agenda presidencial se apresenta como um “governo de emergência”, segundo aliados do novo presidente, focado em restaurar a ordem interna. Entre as prioridades anunciadas estão:
– reforço policial em áreas consideradas de alto risco;
– criminalização da entrada irregular no país;
– aumento das deportações de estrangeiros sem documentação;
– punições para quem oferecer emprego, moradia ou transporte a migrantes irregulares.
A medida mais controversa é a promessa de expulsar centenas de milhares de estrangeiros, principalmente venezuelanos que chegaram ao Chile durante a última década em decorrência da crise política e econômica em seu país.
Segundo dados oficiais citados pelo novo governo, cerca de 337 mil estrangeiros vivem atualmente no Chile sem documentação regular. Em um país de aproximadamente 20 milhões de habitantes, a questão migratória tornou-se tema central da política nacional.
A fronteira como símbolo político
Entre os primeiros decretos assinados por Kast está o chamado Plano Escudo de Fronteira, que determina a construção de barreiras físicas na divisa com a Bolívia, aumento do contingente militar na região e ampliação da vigilância com drones, sensores e sistemas de comunicação reforçados.
Durante a cerimônia de assinatura dos decretos, Kast pediu ao chefe do Exército chileno, Pedro Varela, apoio direto das forças armadas para a execução das medidas.
“Solicito a colaboração ativa no aumento do número de funcionários e também peço a colaboração de vocês na construção de barreiras físicas para deter a entrada da imigração ilegal”, declarou o presidente.
O plano também prevê mudanças legislativas para ampliar os instrumentos de repressão à imigração irregular e flexibilizar normas sobre uso da força na fronteira norte.
A estratégia ecoa políticas adotadas por líderes de direita radical em outras partes do mundo, sobretudo nos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump, cuja proposta de construção de um muro na fronteira com o México tornou-se um dos símbolos políticos da nova direita global.
A imigração no centro da política chilena
Nos últimos anos, o Chile se transformou em um dos principais destinos de migrantes na América do Sul. O crescimento da população estrangeira foi impulsionado principalmente pelo êxodo venezuelano, considerado o maior deslocamento populacional recente da região.
De acordo com dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM) e da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), mais de 7 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2015, espalhando-se por diferentes nações do continente.
No Chile, esse fluxo migratório alterou rapidamente a composição social de cidades e regiões. Parte da opinião pública passou a associar o aumento da imigração a problemas de segurança e pressão sobre serviços públicos — uma narrativa explorada intensamente durante a campanha presidencial.
Entretanto, diversos estudos indicam que a relação entre imigração e criminalidade é frequentemente mais perceptiva do que factual.
O sociólogo e cientista político Eduardo Thayer, especialista em migração da Universidade de Tarapacá, afirma que o debate público chileno passou por uma forte politização do tema. “A imigração passou a ser tratada como problema de segurança nacional, quando na realidade se trata de um fenômeno social complexo, ligado a crises regionais e à dinâmica econômica do próprio Chile.”
Pesquisas de opinião recentes indicam que segurança pública se tornou a principal preocupação do eleitorado chileno, superando temas tradicionais como saúde, emprego e inflação.
O contexto latino-americano
A ascensão de Kast ocorre em meio a uma disputa ideológica crescente na América Latina, marcada por alternância entre governos progressistas e conservadores e por debates intensos sobre imigração, segurança e modelos econômicos.
Analistas apontam que o discurso do novo presidente chileno incorpora elementos centrais da retórica da direita radical contemporânea: defesa da soberania nacional, endurecimento penal, controle migratório rígido e reformas econômicas orientadas ao mercado.
Para o cientista político Steven Levitsky, professor da Universidade Harvard e coautor de Como as Democracias Morrem, movimentos desse tipo frequentemente emergem em contextos de frustração social e descrédito institucional. “As democracias podem morrer não apenas por golpes militares, mas pela erosão gradual de normas e instituições por líderes eleitos.”
Embora o Chile possua instituições sólidas e um sistema político relativamente estável, a eleição de Kast sinaliza uma mudança significativa no equilíbrio ideológico do país.
Desafios institucionais
Apesar da vitória eleitoral expressiva, o novo presidente enfrentará limitações importantes no Congresso chileno, que permanece fragmentado entre diferentes forças políticas.
Esse cenário pode obrigar o governo a negociar parte de suas propostas mais duras, sobretudo as relacionadas à legislação migratória e ao uso ampliado das forças de segurança.
A história política recente do Chile demonstra que o sistema institucional costuma impor freios a mudanças abruptas. Após o fim da ditadura militar de Pinochet, a democracia chilena foi estruturada justamente para evitar concentrações excessivas de poder.
Ainda assim, a nova agenda de segurança e controle migratório abre um debate profundo sobre os rumos da democracia chilena e sobre o lugar do país em um continente marcado por intensas transformações políticas.
Entre medo social e disputas democráticas
A ascensão de Kast reflete um fenômeno observado em diversas democracias contemporâneas: a combinação entre ansiedade social, polarização política e discursos de ordem.
O historiador britânico Tony Judt, em sua análise sobre crises democráticas modernas, advertia que momentos de insegurança tendem a fortalecer lideranças que prometem respostas rápidas e soluções simples para problemas complexos. “O medo é um poderoso motor político, e em tempos de incerteza os eleitores podem ser atraídos por líderes que oferecem segurança em troca de liberdade.”
No Chile, país que construiu sua redemocratização após um dos regimes autoritários mais longos da América do Sul, a nova presidência abre um capítulo de tensão entre demandas por ordem e os princípios que moldaram sua transição democrática.
O resultado dessa equação — entre segurança, imigração e preservação institucional — deverá definir não apenas o futuro político chileno, mas também o papel do país no cenário latino-americano nas próximas décadas.
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