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Mundo
Adolescente brasileiro-palestino morreu de fome sob custódia israelense
Publicado em 07/04/2025 2:32 - Semana On
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No sul da Faixa de Gaza, em meio a ruínas fumegantes e um deserto de assistência humanitária, corpos de 15 paramédicos foram exumados de uma cova rasa, baleados enquanto tentavam socorrer vítimas de bombardeios. Uma semana antes, a versão oficial de Israel afirmava que se tratavam de combatentes armados. O vídeo encontrado no celular de uma das vítimas e divulgado pelo Crescente Vermelho Palestino desmontou a narrativa: os mortos eram trabalhadores da saúde, em ambulâncias com luzes acesas e marcações visíveis. A tragédia não é um ponto fora da curva, mas um retrato ampliado da política de cerco e punição coletiva conduzida por Israel em Gaza — uma política que, segundo observadores internacionais, pode configurar crimes de guerra.
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No mesmo período, em uma prisão israelense, um adolescente brasileiro-palestino, Walid Khaled Abdallah, 17 anos, morreu após desmaiar de fome, cair e bater a cabeça. A versão oficial é que foi um “acidente”. No entanto, o laudo da autópsia divulgado pela ONG Defesa das Crianças Palestinas (DCIP) e confirmado pela Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) revelou um corpo consumido pela fome, desidratado, com sarna e sinais de trauma abdominal. Colegas de cela relataram que pedidos de socorro foram ignorados pelos guardas. Walid sofreu por meses, reclamando da fome e de dores — até morrer. “O silêncio internacional diante de tamanha brutalidade é uma forma de cumplicidade”, declarou o diretor da DCIP, Khaled Quzmar, à imprensa internacional.
Esses episódios não ocorrem em um vácuo. São peças de um padrão mais amplo: a intensificação de uma ofensiva militar que, desde o colapso do último cessar-fogo em março, transformou a Faixa de Gaza — território com 2,3 milhões de habitantes — em um campo de extermínio a céu aberto. Em apenas uma semana, 1.042 palestinos foram mortos, conforme dados do Ministério da Saúde de Gaza, e 142 mil pessoas foram forçadas a deixar suas casas. A ONU estima que mais de 60% do território já é considerado “zona proibida” para civis.
Segundo a porta-voz do Escritório da ONU para Assuntos Humanitários (OCHA), Olga Cherevko, o deslocamento contínuo, somado à escassez de alimentos e à destruição sistemática de hospitais e escolas, transformou a vida em Gaza em uma sucessão de sobrevivências improváveis. “Não há mais sabor na vida”, disse o ex-professor universitário Ihab Suliman à Associated Press, depois de fugir pela oitava vez com sua família.
A crise alimentar é um dos eixos mais cruéis do atual cenário. Com o bloqueio israelense à entrada de ajuda humanitária, a ONU foi forçada a fechar todas as suas padarias. Mulheres, segundo a ONU Mulheres, são as mais atingidas: mais de 557 mil estão em situação de insegurança alimentar extrema, muitas deixando de comer para priorizar os filhos. Para o pai de 12 filhos, Mohammed al-Kurd, a única alternativa tem sido a mentira: “Dizemos a eles para terem paciência e que traremos farinha pela manhã.”
A violência não poupa sequer os escombros. Munições não detonadas seguem matando cerca de duas pessoas por dia, principalmente crianças. Ahmed Azzam, de 15 anos, perdeu uma perna após um explosivo remanescente detonar enquanto vasculhava os destroços de sua casa. A falta de próteses devido ao bloqueio agrava sua condição.
A política de cerco total levanta uma suspeita perturbadora: a de que Israel estaria executando um plano deliberado de despovoamento de Gaza. Em declaração publicada na rede social X no fim de março, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que permitirá a realização do “plano Trump para migração voluntária”, referindo-se à proposta — amplamente condenada — de expulsar palestinos e transformar Gaza em uma “Riviera do Oriente Médio”. O professor Nathan Brown, da Universidade George Washington, foi categórico em entrevista à DW: “Se você bombardeia, força deslocamentos e corta ajuda humanitária, o que Israel chama de ‘migração voluntária’ parece tudo, menos voluntária.”
Essa lógica de punição coletiva é condenada pelas Convenções de Genebra, que proíbem ataques contra civis, pessoal médico e infraestrutura essencial. No entanto, como aponta Amjad Iraqi, pesquisador do International Crisis Group, “o que vemos hoje é a transformação de Gaza em um laboratório de estratégias militares cujo alvo é a população civil”. Para ele, a meta de curto prazo é enfraquecer o Hamas; a de longo prazo, remodelar demograficamente o território.
A justificativa oficial de Israel é o combate ao grupo terrorista Hamas, responsável pelos ataques de 7 de outubro de 2023, que deixaram 1.150 mortos e 251 reféns. No entanto, como alertou o Comitê Internacional da Cruz Vermelha em nota recente, a retomada das hostilidades “está causando perda de esperança de todos os lados” e “reduzindo o espaço da vida a uma zona de morte indistinta”.
A pressão internacional cresce por investigações independentes, especialmente após os assassinatos dos paramédicos. A ONU e a Cruz Vermelha exigiram apuração transparente e responsabilização. Mas, até agora, o silêncio das grandes potências tem sido ensurdecedor.
A história cobrará caro por essa omissão.