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Mundo

Tarifas de Trump geram pânico econômico e onda de protestos

Ações do governo americano agravam tensão geopolítica, pressionam economia global e ampliam polarização política dentro e fora dos EUA

Publicado em 07/04/2025 1:37 - Semana On

Divulgação Semana On

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A semana começou com os mercados em queda livre e a ordem econômica global sob ameaça. As tarifas unilaterais anunciadas por Donald Trump contra China, União Europeia e dezenas de outras nações reacenderam os alertas de recessão mundial, agravando a tensão geopolítica e econômica entre as potências. No centro da turbulência está uma estratégia agressiva de guerra comercial que, em nome do protecionismo, ameaça desestabilizar décadas de cooperação internacional.

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A retórica de Trump não deixa espaço para ambiguidades. “Este é um ótimo momento para ficar rico, mais rico do que nunca”, proclamou em sua rede Truth Social, ao anunciar um aumento adicional de 50% nas tarifas sobre produtos chineses, caso Pequim não recue de sua retaliação de 34% até 8 de abril. Em paralelo, o republicano rompeu negociações com o governo chinês e prometeu priorizar tratativas bilaterais com países considerados mais “colaborativos”.

Desde a Grande Depressão de 1929, economistas têm alertado para os riscos do protecionismo exacerbado. A Lei Smoot-Hawley, sancionada pelos Estados Unidos em 1930, é frequentemente citada como catalisadora da piora da crise ao gerar retaliações em cadeia, sufocando o comércio global. O economista Paul Krugman, Nobel de Economia, lembra que “em um mundo interdependente, guerras comerciais são autodestrutivas” (New York Times, 2018).

A atual escalada tarifária parece ecoar esse padrão. Os mercados asiáticos desabaram nesta segunda-feira: Hong Kong caiu 13%, a pior queda desde 1997, durante a crise financeira asiática. Tóquio registrou queda de quase 8%, e empresas como Alibaba, JD.com e SoftBank figuraram entre as maiores perdas. Na Europa, Frankfurt mergulhou 10%, enquanto Paris, Milão e Londres acompanharam a queda.

O impacto não é apenas financeiro. Commodities estratégicas como petróleo e cobre também enfrentaram forte desvalorização, ameaçando setores inteiros da indústria energética e da transição verde. A economia global, interligada por cadeias produtivas multinacionais, está diante de um risco sistêmico.

China e Europa reagem, mas com cautela

Enquanto Trump reforça sua posição de força, adotando o discurso nacionalista que marcou sua primeira presidência, China e União Europeia optam por reações calculadas. Pequim retaliou, mas ainda não fechou portas para o diálogo. Bruxelas, por sua vez, adotou uma abordagem diplomática, propondo a eliminação mútua de tarifas industriais com os EUA.

“Estamos sempre prontos para um bom acordo, mas também preparados para responder com contramedidas”, afirmou Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. A proposta de tarifa zero reflete não apenas a urgência em preservar o comércio, mas também o temor de que a Europa se torne o próximo alvo na lógica confrontacional dos EUA.

Contudo, o gesto europeu parece encontrar pouco eco em Washington. Trump voltou a atacar a UE, acusando-a de tratar injustamente os produtos americanos e anunciou tarifas de 20% sobre bens europeus, além de medidas adicionais contra países exportadores de petróleo, como Arábia Saudita e Emirados Árabes.

Brasil no radar

Entre os países que buscam abrir diálogo com os EUA está o Brasil. Segundo o UOL, um encontro técnico está em preparação. Para o governo brasileiro, a crise oferece riscos imediatos — como a redução da demanda chinesa por commodities —, mas também abre a possibilidade de conquistar espaço em negociações bilaterais. O problema, porém, é o custo de se alinhar a uma estratégia que desafia princípios básicos do multilateralismo.

Historicamente, o Brasil defendeu uma ordem comercial multilateral, com papel ativo na Organização Mundial do Comércio (OMC). A adesão irrestrita a um eixo Trumpista pode comprometer alianças estratégicas, inclusive com a União Europeia e países do Sul Global.

A ameaça à democracia e à cooperação internacional

Não se trata apenas de economia. A atual política de tarifas reflete uma visão de mundo marcada pelo unilateralismo e pela erosão das instituições internacionais. “A ordem liberal internacional está sob ataque”, alerta o cientista político John Ikenberry, da Universidade de Princeton, ao analisar o avanço do nacionalismo econômico e a fragilização de normas construídas após a Segunda Guerra Mundial.

Além do risco de recessão, o planeta encara um momento de redefinição. A disputa entre modelos de governança — democrático, multilateral e baseado em regras, versus autoritário, unilateral e baseado na força — está em pleno curso. A economia é apenas o campo de batalha mais visível.

O alerta final vem do próprio mercado americano. Segundo o Deutsche Bank, o índice S&P 500 caiu 10,53% em dois dias — uma queda comparável apenas à da crise de 2008, à pandemia de 2020 e à “segunda-feira negra” de 1987. O Federal Reserve já prevê aumento da inflação, elevação do desemprego e desaceleração do crescimento.

Um mundo mais instável — por escolha política

O colapso atual não é fruto de uma crise sanitária ou de um desastre natural, mas de uma decisão deliberada de política econômica. Ao transformar tarifas em armas, os EUA alteram o jogo. Não se trata mais de proteger empregos ou corrigir desequilíbrios, mas de impor poder. A diplomacia cede lugar à coerção.

A história já testemunhou esse caminho. E o desfecho, quando potências escolhem a confrontação sobre a cooperação, raramente é benigno.

“Tirem as mãos!” – A insurgência civil

Dezenas de milhares de vozes ecoaram no sábado (05/04), unidas sob um mesmo grito: “Hands Off!” — “Tirem as mãos!”. Em mais de 1.200 cidades dos Estados Unidos e capitais da Europa, manifestantes denunciaram o que chamam de desmonte sistemático do Estado de bem-estar, a escalada autoritária da presidência de Donald Trump e a influência desmedida de Elon Musk na administração pública. A mobilização representa o maior levante cívico desde o retorno do republicano à Casa Branca, em janeiro de 2025.

Os atos, convocados por mais de 150 grupos — entre sindicatos, movimentos LGBTQ+, organizações de direitos civis e ativistas independentes —, apontam para uma crescente inquietação popular frente a políticas que ameaçam pilares democráticos, direitos fundamentais e a estabilidade econômica.

Com faixas que diziam “O fascismo chegou”, “Tirem as mãos da nossa Previdência Social” e bandeiras americanas erguidas de cabeça para baixo — símbolo de socorro e protesto — os manifestantes expressaram repúdio aos cortes de pessoal em agências federais, à eliminação de programas sociais e à retórica bélica contra imigrantes e minorias.

O epicentro dos protestos foi o National Mall, em Washington, onde milhares se reuniram entre o Capitólio e o Monumento de Washington. Paul Osadebe, advogado do Departamento de Habitação e representante sindical, denunciou o desprezo da administração Trump pelo funcionalismo público: “Os bilionários e os oligarcas não valorizam nada além do lucro e do poder, e com certeza não vos valorizam, a vossa vida ou vossa comunidade” — disse, em declaração à Associated Press.

A presença de Musk na estrutura de governo, agora como chefe do recém-criado Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), tem sido um dos principais focos de tensão. Conhecido por sua gestão corporativa agressiva e por desregulamentar os próprios setores nos quais atua (como mídia e transporte), o bilionário é acusado de implementar uma agenda ultraliberal de desmonte do Estado, com demissões em massa e fechamento de agências inteiras — como a USAID, órgão vital de cooperação internacional.

Democracia sob cerco: autoritarismo e resistência global

A retomada do poder por Trump não se deu sem resistência internacional. Manifestações ocorreram também em Paris, Berlim, Roma, Londres e até mesmo em Lisboa, onde 700 manifestantes americanos e portugueses levaram cravos vermelhos à Praça do Comércio, em referência à Revolução dos Cravos, que em 1974 pôs fim à ditadura em Portugal.

Os protestos, contudo, não são apenas contra medidas administrativas. São uma resposta ao que muitos consideram uma erosão deliberada das liberdades civis e da democracia representativa. Graylan Hagler, ativista veterano de 71 anos, sintetizou esse espírito em um discurso vibrante: “Vocês despertaram um gigante adormecido. Não vamos nos sentar, não vamos nos calar e não vamos embora.”

Essa insurgência cidadã se soma a um movimento histórico mais amplo de defesa da democracia em contextos de retrocesso institucional. Como lembra a filósofa Judith Butler, “a democracia não é um dado, é uma prática constante de resistência”.

O tarifaço e o pânico do consumo: entre o medo e a esperança

Em paralelo às manifestações, outro fenômeno tomou conta dos Estados Unidos: o pânico nas compras. O anúncio de Trump de tarifas de 10% sobre quase todos os bens importados provocou corrida às lojas de eletrodomésticos, supermercados e concessionárias. Para muitos, a medida é vista como uma bomba-relógio econômica.

Em Illinois, o casal Charlene e Phil Willingham antecipou uma compra que levariam meses para fazer. “Quero comprá-los antes que os preços subam”, disse Charlene, 64. Em Los Angeles, Shali Santos, de 28 anos, estocava enxaguante bucal. “O pânico é o suficiente para me fazer querer comprar”, afirmou ao The New York Times.

Ao mesmo tempo, os mercados globais reagiram negativamente. Bolsas despencaram, contas de aposentadoria sofreram perdas e a ansiedade econômica se alastrou. Juanita Norris, de Milwaukee, lamentou ter perdido 8 mil dólares em sua conta de aposentadoria em apenas dois dias: “São US$ 8.000 que poderiam ter ido para um carro para meus filhos”.

A estratégia de Trump, segundo a Casa Branca, é “tornar a América economicamente soberana novamente”, mas analistas econômicos apontam que as tarifas devem ser repassadas ao consumidor. A historiadora Naomi Oreskes, ao refletir sobre políticas econômicas unilaterais, afirma que “o isolacionismo econômico tende a ferir primeiro e mais profundamente os trabalhadores que se propõe proteger”.

Um país dividido entre a obediência e a dissidência

O apoio a Trump permanece forte entre parte da população. Dixon Witherspoon, executivo aposentado do Tennessee, expressou sua confiança: “As tarifas vão ser dolorosas a curto prazo, mas, a longo prazo, serão maravilhosas”. Para outros, porém, a experiência vivida é diferente: desemprego, insegurança alimentar e medo do futuro.

Essas divisões são um reflexo da polarização política que tomou conta dos EUA — e, em menor grau, de democracias pelo mundo. A socióloga Arlie Hochschild, em sua obra Strangers in Their Own Land (2016), observa que “há um abismo emocional entre as percepções de justiça social, pertencimento e mérito” entre eleitores conservadores e progressistas — um abismo que Trump e Musk parecem explorar com precisão cirúrgica.

Uma batalha pela alma da democracia

Os protestos do movimento Hands Off! revelam um país em conflito, não apenas político, mas moral. Em jogo não está apenas a Previdência Social ou o preço do fogão. Está a própria noção de cidadania, solidariedade e justiça.

Como afirmou recentemente o historiador Timothy Snyder, autor de Sobre a Tirania (2017): “Apostar na apatia é o que sustenta os regimes autoritários. Toda pequena ação de resistência conta.”

A multidão que ocupou as ruas dos EUA e do mundo neste sábado parece ter compreendido esse chamado. Resta saber se será ouvida por quem tem o poder — ou se, como em tantas encruzilhadas da história, será preciso que a democracia grite ainda mais alto para sobreviver.

INFÂNCIA ALVEJADA


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