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Mundo
Lula critica retórica belicista e estratégias de dominação no continente
Publicado em 11/11/2025 10:25 - Semana On
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O espectro da intervenção estrangeira voltou a rondar a América Latina. Como um eco deformado das sombras da Guerra Fria, a Venezuela de Nicolás Maduro articula estratégias de resistência diante da ameaça de ações militares por parte dos Estados Unidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em solo colombiano, denuncia a ressurreição de velhas retóricas imperiais que buscam legitimar o uso da força contra países soberanos. A convergência desses episódios recentes revela mais do que uma disputa regional: ela escancara a persistência de lógicas coloniais, oscilando entre a defesa da autodeterminação dos povos e o uso da força como expediente geopolítico.
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De acordo com documentos obtidos pela Reuters e entrevistas com fontes internas ao governo venezuelano, Maduro prepara uma resposta militar em duas frentes: uma resistência de estilo guerrilheiro e uma tática de “anarquização” interna, em caso de incursão armada dos EUA. Essa mobilização, que inclui armamento obsoleto de origem russa e unidades dispersas em mais de 280 pontos do território, é antes de tudo um reconhecimento das fragilidades estruturais das Forças Armadas venezuelanas, esvaziadas por anos de crise econômica, baixos salários e colapso logístico. “Não duraríamos nem duas horas em uma guerra convencional”, admitiu uma fonte próxima ao alto escalão do governo.
Paralelamente, os serviços de inteligência do país bolivarianista estariam prontos para promover o caos nas ruas da capital, Caracas, tornando-a “ingovernável” para qualquer potência ocupante. A estratégia — oficialmente chamada de “resistência prolongada” — lembra os manuais revolucionários das décadas de 1960 e 1970, quando grupos armados latino-americanos se organizavam contra ditaduras apoiadas por Washington. É uma postura defensiva que reflete não só fraqueza militar, mas a tentativa desesperada de manter a soberania frente à maior potência bélica do planeta.
A resposta retórica dos Estados Unidos tem sido igualmente agressiva. Sob o comando de Donald Trump, desde setembro uma série de operações navais no Caribe e no Pacífico têm mirado embarcações supostamente ligadas ao narcotráfico — uma alegação que, segundo Maduro, não passa de pretexto para justificar uma futura invasão. As operações já deixaram ao menos 70 mortos, segundo números confirmados após pronunciamento do então secretário de Defesa americano, Pete Hegseth. A escalada de tensão é parte de uma política de segurança hemisférica que ecoa a Doutrina Monroe, atualizada sob o manto do combate ao narcotráfico e à “ameaça socialista”.
Foi nesse cenário que o presidente Lula, durante a 4ª Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) com a União Europeia, fez um alerta incisivo. “Ameaça de uso da força militar voltou a fazer parte do cotidiano da América Latina e do Caribe. Velhas manobras retóricas são recicladas para justificar intervenções ilegais”, declarou o líder brasileiro, reforçando a necessidade de um novo pacto multilateral baseado na paz, no respeito à soberania e na multipolaridade. “Democracias não combatem o crime violando o direito internacional”, acrescentou.
A fala de Lula, embora não mencionasse diretamente Venezuela ou Estados Unidos, reverbera uma crítica antiga à política externa intervencionista norte-americana e à paralisia das instituições multilaterais em conter sua ação. A ambiguidade de sua fala é estratégica: ao não se alinhar diretamente a Maduro — cujos métodos e estrutura de governo são amplamente questionados internacionalmente —, o presidente brasileiro assume a defesa do princípio da autodeterminação dos povos sem endossar regimes autoritários.
A tensão na Venezuela é também um sintoma do declínio da ordem liberal internacional, cujos pilares — multilateralismo, legalidade e direitos humanos — vêm sendo sistematicamente corroídos por políticas de força. O teórico francês Pierre Rosanvallon, ao discutir os limites da democracia contemporânea, alerta para a tendência de “invisibilização da soberania dos fracos”, quando o poder global é exercido por Estados que se colocam acima do sistema legal que deveriam respeitar (La Contre-Démocratie, 2006).
Nesse jogo assimétrico, os países latino-americanos oscilam entre dois polos: de um lado, a fragilidade institucional e econômica que os torna alvos fáceis para narrativas de “falência estatal”; de outro, a resistência simbólica e, às vezes, armada, à dominação estrangeira. A tentativa de Maduro de montar uma resistência guerrilheira, ainda que improvável no sucesso militar, tem alto valor político: ele transforma a ameaça externa em coesão interna — ou ao menos tenta.
Ao mesmo tempo, a crítica de Lula aponta para uma América Latina fragmentada, mais voltada para fora do que para si mesma, como ele mesmo afirmou na cúpula: “Vivemos de reunião e reunião repletas de ideias e iniciativas que, muitas vezes, não saem do papel”. A ausência de uma política regional coesa, capaz de se opor de forma coordenada ao uso da força por potências extrarregionais, perpetua um ciclo de dependência e vulnerabilidade.
Do ponto de vista histórico, o quadro atual remonta às décadas em que o continente foi campo de batalhas ideológicas e militares entre as grandes potências. A Operação Condor, os golpes apoiados pela CIA, a invasão da República Dominicana em 1965 e o bloqueio a Cuba são capítulos ainda vivos na memória coletiva da região. Como observou o historiador Greg Grandin, em seu estudo sobre o Império americano na América Latina (Empire’s Workshop, 2006), “a América Latina foi o laboratório da política externa dos EUA: onde se experimentaram as técnicas de dominação que depois seriam exportadas para o restante do mundo”.
O dilema, portanto, não é apenas geopolítico: é moral e jurídico. Intervenções unilaterais violam a Carta da ONU, ignoram os mecanismos de resolução de conflitos e perpetuam a lógica do “direito do mais forte”. A alternativa — defendida por vozes como Lula — exige uma reinvenção do multilateralismo, mais comprometido com o Sul Global e menos subordinado aos interesses estratégicos do Norte.
Em última instância, o que está em jogo na atual tensão entre EUA e Venezuela não é apenas o controle sobre recursos ou a contenção de regimes ideologicamente adversos, mas a própria legitimidade da ordem internacional. Resistir à intervenção externa, neste caso, é também defender o princípio de que nenhum povo deve ser submetido à força sob pretextos retóricos — mesmo que o regime a ser defendido esteja longe de ser exemplar.
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