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Mundo
Abandono dos direitos humanos e retórica extremista da administração Trump alimentam uma diáspora silenciosa
Publicado em 10/11/2025 1:58 -
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O segundo mandato de Donald Trump, iniciado com promessas de “salvar” a América de seus próprios fantasmas, vem consolidando um cenário de tensão e ruptura que ultrapassa as fronteiras do discurso político. A retórica belicosa do presidente, os ataques sistemáticos aos direitos humanos e a repressão violenta à imigração desencadearam um fenômeno inédito: milhares de americanos — de artistas a acadêmicos, de profissionais liberais a professores de creche — estão pedindo cidadania estrangeira e deixando o país que, historicamente, foi visto como o símbolo da liberdade.
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O país do qual se foge
Historicamente, os Estados Unidos se projetaram como um refúgio para os perseguidos e um destino para os que buscavam uma vida melhor. Mas essa narrativa, construída ao longo de séculos de imigração e proclamada em versos eternizados na Estátua da Liberdade, hoje parece ser recitada ao avesso. Desde a reeleição de Donald Trump em novembro de 2024, o que se vê é uma escalada no número de americanos solicitando cidadania estrangeira e se mudando para países como Irlanda, Reino Unido e Canadá — uma inversão simbólica e histórica de papéis.
No Reino Unido, os pedidos de cidadania de cidadãos dos EUA cresceram 12% no primeiro trimestre de 2025, atingindo 2.194 solicitações — o maior número em mais de duas décadas, segundo o Ministério do Interior britânico. Na Irlanda, o fenômeno é ainda mais expressivo: 9.600 americanos se mudaram para o país entre abril de 2024 e abril de 2025, e os pedidos de passaporte irlandês dispararam para 31.825 em 2024, com um pico de 4.327 apenas em fevereiro de 2025, o maior número mensal em dez anos.
Segundo o advogado canadense Ryan Rosenberg, que criou o site Trumpugees.ca, a explosão de buscas por migração para o Canadá após a eleição de Trump ultrapassou 5.000% em menos de 24 horas. “É irônico pensar que americanos estão se vendo como refugiados dentro do seu próprio país”, afirmou Rosenberg ao Globe and Mail.
A ironia não escapa ao prefeito de Londres, Sadiq Khan, crítico contumaz de Trump, que associou o aumento das migrações à defesa dos “valores liberais” da capital britânica.
A pátria que repele os seus
Mas o que leva cidadãos, antes protegidos por um dos passaportes mais poderosos do mundo, a pedirem asilo político? Em 2025, 75 americanos solicitaram proteção internacional à Irlanda — número modesto, mas altamente simbólico. Entre eles, casos como o da atriz Rosie O’Donnell, que se mudou para Dublin em protesto aberto contra Trump. O número triplicou em relação a 2024, e embora a maioria dos pedidos tenha sido rejeitada, as autoridades locais reconhecem que o aumento reflete um “medo real sobre o que pode acontecer nos EUA”.
Esse medo tem raízes em ações concretas. Uma delas, capturada em imagens estarrecedoras, foi a invasão de uma creche em Chicago por agentes de imigração, onde uma professora colombiana foi arrastada na frente de crianças pequenas. “As crianças estavam chorando, os pais estavam chorando”, relatou a advogada Tara Goodarzi à Reuters. Diana Santillana, a professora detida, gritava em espanhol: “Eu tenho documentos!”. A cena remete a práticas que ecoam mais regimes autoritários do que democracias consolidadas.
Outras operações ocorreram em Evanston, Illinois, e em estacionamentos de supermercados em Los Angeles, onde agentes mascarados e fortemente armados detiveram imigrantes — e até cidadãos americanos — sob justificativas frequentemente não verificadas. “Isso me trouxe de volta à repressão de 1968”, disse Don Rogan, 89 anos, lembrando-se da Convenção Nacional Democrata, reprimida à força em Chicago. “Não é assim que deve ser.”
A exceção à regra
A recusa dos Estados Unidos em se submeter ao Exame Periódico Universal da ONU, mecanismo pelo qual todos os 193 países-membros são avaliados quanto à situação de direitos humanos, marca uma ruptura sem precedentes. Desde sua criação, em 2006, nem regimes autoritários como o da Coreia do Norte ou da Arábia Saudita se recusaram a participar. Trump, no entanto, alegou que o sistema é “tendencioso” e que o Conselho falha em “condenar os verdadeiros violadores”.
A Human Rights Watch considerou a decisão “alarmante” e destacou que “o governo dos EUA parece acreditar que é uma exceção e que o processo de revisão não deveria se aplicar a ele”. A entidade alerta que evitar o escrutínio internacional apenas corroerá ainda mais a legitimidade americana no cenário global.
O boicote ocorreu mesmo com mais de 150 organizações apresentando denúncias de abusos em solo americano — de detenções ilegais a uso excessivo de força e perseguições a ativistas. A recusa em prestar contas aos pares da comunidade internacional simboliza a erosão de uma ordem construída com esforço desde o pós-guerra, baseada em acordos multilaterais, cooperação diplomática e respeito aos direitos universais.
Uma distopia em construção
Em meio a esse cenário de retração democrática, ascensão do autoritarismo e colapso de políticas públicas de proteção social, os Estados Unidos testemunham um fenômeno raro na história das democracias liberais: o deslocamento voluntário de seus próprios cidadãos por medo do Estado. A imagem mítica do “sonho americano” vai sendo substituída por uma realidade onde o Estado, antes garantidor de direitos, passa a ser visto como ameaça.
Como observa o filósofo político Sheldon Wolin, em sua obra Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism, o totalitarismo moderno não precisa de campos de concentração ou censura formal para se consolidar. Ele opera por meio da desmobilização da cidadania, da concentração de poder e da erosão gradual das instituições democráticas. “A democracia administrada”, diz Wolin, “é aquela que simula a participação, mas mantém o poder real nas mãos de poucos.”
Neste novo cenário, até o presidente da Argentina, Javier Milei — ele próprio símbolo da nova direita global —, trouxe um toque de graça e surrealismo a situação ao oferecer refúgio aos nova-iorquinos “que fugirem do comunismo” após a eleição do prefeito socialista Zohran Mamdani. Ao som de “Y.M.C.A.”, música símbolo das campanhas trumpistas, Milei dançou e agradeceu a Trump por um auxílio bilionário, ao estilo performático da política-espetáculo. Uma cena que pareceria surreal há poucos anos.
O futuro em disputa
O que se vê, portanto, não é apenas um fenômeno migratório, mas um deslocamento de paradigmas. Cidadãos fugindo da democracia mais poderosa do mundo. Um governo que renega direitos básicos. Instituições internacionais sendo ignoradas. E uma elite política que transforma medo em método.
Em meio a essa distopia em marcha, restam perguntas incômodas: quantos mais precisarão fugir para que se reconheça a urgência da ameaça? Até onde vai o silêncio das instituições internacionais? E qual será o futuro da democracia quando ela já não for capaz de proteger seus próprios cidadãos?
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