Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Mundo

Vaticano reforça apoio à Palestina em meio à escalada de violência e censura digital

Relatório denuncia mais de 2 mil ataques na Cisjordânia: YouTube apaga provas de crimes de guerra

Publicado em 07/11/2025 11:29 - Semana On

Divulgação

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A diplomacia vaticana voltou a assumir protagonismo num dos conflitos mais duradouros e dramáticos do cenário internacional contemporâneo. Na quinta-feira (6), o Papa Leão XIV recebeu, pela primeira vez desde sua eleição em maio, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas. O encontro, marcado pela simbologia política e espiritual, serviu também para reiterar o apoio do Vaticano à solução de dois Estados como única saída viável ao conflito israelo-palestino.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Mais que uma audiência, o encontro reafirma um posicionamento histórico da Santa Sé, que completou dez anos de reconhecimento formal do Estado da Palestina — um gesto raro entre atores internacionais com peso moral e diplomático. A nota oficial do Vaticano foi contundente: “reconheceu-se a necessidade urgente de prestar assistência à população civil em Gaza e de pôr fim ao conflito, buscando uma solução de dois Estados”.

A referência à “terra martirizada” de Gaza, frequentemente usada por Leão XIV e também por seu antecessor, o falecido Papa Francisco, ecoa como um apelo ético diante da brutal realidade descrita nos relatórios mais recentes da região.

A violência invisibilizada na Cisjordânia

Enquanto Abbas se encontrava com o pontífice em Roma, sua equipe publicava um relatório devastador sobre a escalada de agressões israelenses na Cisjordânia ocupada. Apenas no mês de outubro, segundo a Comissão de Colonização e Resistência ao Muro (CRRC), foram documentados 2.350 ataques realizados por forças israelenses e colonos, mesmo em meio ao cessar-fogo entre Israel e o Hamas.

Esses ataques, que incluem demolições de casas, envenenamento de plantações e violência direta contra civis, concentram-se nas províncias de Ramallah, Nablus e Hebron. Mais de 1.200 oliveiras — símbolo milenar da cultura palestina e da resistência camponesa — foram arrancadas ou destruídas, atingindo em especial os apanhadores de azeitonas. O relatório denuncia uma “estratégia organizada que visa deslocar os povos indígenas da região e impor um regime colonial totalmente racista”.

A brutalidade estatal, como descrita, não se limita à destruição da infraestrutura civil. Inclui também detenções arbitrárias, agressões físicas e até execuções de animais de criação. Em Majdal Bani Fadil, colonos incendiaram um curral de ovelhas, destruindo completamente a propriedade de um agricultor local. Em Jenin, tropas israelenses invadiram uma granja e eletrocutaram sete mil galinhas. Os atos, além de sua dimensão desumanizadora, têm impacto direto na soberania alimentar da população palestina.

Como escreveu o sociólogo Zygmunt Bauman, “a modernidade produziu não apenas o progresso, mas também os campos de concentração”. A ocupação da Cisjordânia parece cada vez mais caminhar para uma forma institucionalizada de apartheid e extermínio simbólico, quando não literal.

A censura como ferramenta de dominação

Enquanto a violência se multiplica em solo, o espaço digital se torna mais um campo de batalha — agora, no plano da informação. No início de novembro, o YouTube, plataforma de vídeos pertencente ao Google, removeu os canais oficiais de três importantes organizações palestinas de direitos humanos: Al-Haq, Al Mezan Center for Human Rights e o Palestinian Center for Human Rights (PCHR).

Segundo o The Intercept (04/11), a justificativa da empresa foi o cumprimento de sanções impostas pelos Estados Unidos contra grupos que cooperaram com o Tribunal Penal Internacional (TPI) na investigação de crimes de guerra cometidos por Israel, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant.

Com a medida, mais de 700 vídeos documentais foram deletados, incluindo investigações sobre destruição de casas, assassinatos de civis e o emblemático caso da jornalista Shireen Abu Akleh, morta por forças israelenses. O porta-voz da Al-Haq afirmou que a remoção “representa uma grave falha de princípio e um revés alarmante para os direitos humanos e a liberdade de expressão”.

Essa censura, como apontado pelo PCHR, não é neutra. Ao silenciar registros factuais de violações graves, a plataforma atua — ainda que por vias legais — como um agente de impunidade. É o que o filósofo camaronês Achille Mbembe denominou “necropolítica”: o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer, inclusive simbolicamente, por meio da invisibilização de suas narrativas.

O silêncio das potências e a voz dos que resistem

O paradoxo da situação é evidente. Enquanto o Vaticano, com sua diplomacia simbólica, busca alternativas pacíficas e viáveis, as potências ocidentais que poderiam agir concretamente para interromper o ciclo de violência se omitem. O governo dos Estados Unidos, por exemplo, se declara contrário à anexação da Cisjordânia, mas nada faz para conter a violência de seus aliados ou garantir a proteção de civis.

O historiador israelense Ilan Pappé, autor de “A limpeza étnica da Palestina”, já alertava: “a narrativa dominante desumaniza os palestinos e justifica o inaceitável sob o manto da segurança”. Essa manipulação da narrativa se intensifica com a censura de canais de informação que poderiam contrabalançar a hegemonia discursiva.

Entre a oliveira e a cruz

A oliveira plantada por Abbas, Shimon Peres e o Papa Francisco, nos jardins do Vaticano em 2014, permanece como um símbolo frágil mas potente. Diante da crescente militarização do território palestino, da repressão digital e do abandono das instituições internacionais, a paz parece cada vez mais uma promessa distante, alimentada apenas por gestos simbólicos como o do Papa Leão XIV.

Mas é também nesse espaço simbólico que resistem as possibilidades de mudança. A reunião com Abbas e as palavras do pontífice, por mais que desprovidas de força executiva, representam um gesto de coragem moral num mundo cada vez mais indiferente ao sofrimento dos povos ocupados.

Como lembrou Edward Said, intelectual palestino e crítico feroz da política ocidental no Oriente Médio: “A questão palestina é, em última instância, uma luta pela memória, pela dignidade e pelo direito de existir como um povo inteiro”. E cada árvore arrancada, cada vídeo apagado, cada voz silenciada é uma tentativa de negar essa existência.

Gaza sitiada: entre a fome, a diplomacia e a militarização forçada


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *