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Mundo
Proposta de controle internacional liderada pelos EUA reacende debate sobre soberania palestina
Publicado em 06/11/2025 1:02 - Semana On
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À sombra de uma trégua frágil, Gaza agoniza. Com uma população privada de alimentos básicos, hospitais à beira do colapso e túneis se tornando tumbas para combatentes encurralados, a Faixa de Gaza vive uma das piores crises humanitárias deste século. Em paralelo, o Vaticano, os Estados Unidos e líderes do mundo árabe movimentam peças no tabuleiro geopolítico que decide, mais uma vez, o destino do povo palestino — sem necessariamente ouvi-lo.
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De acordo com o Gabinete de Mídia do Governo de Gaza, apenas 171 caminhões de ajuda humanitária estão entrando diariamente no enclave, número muito inferior aos 600 estipulados no acordo de cessar-fogo. O bloqueio israelense vai além da limitação logística: mais de 350 itens alimentares básicos estão proibidos, incluindo ovos, carne, leite e vegetais. Em contrapartida, produtos como refrigerantes, chocolate e batatas fritas são permitidos. A denúncia foi feita pela Al Jazeera, que cita o gabinete de imprensa do próprio governo de Gaza.
O que se vê é um quadro de colapso humanitário deliberado, em que o cerco alimenta a guerra por outros meios. “A fome é usada como arma de guerra, o que é proibido pelo direito internacional humanitário”, afirma Michael Fakhri, relator especial da ONU para o direito à alimentação. A escalada de violência e a manutenção do bloqueio reforçam a constatação de que, para além dos confrontos militares, o que está em curso é um processo sistemático de desumanização da população palestina.
O peso dos túneis, o peso da diplomacia
A trégua estabelecida entre Israel e o Hamas é minada diariamente. Reportagem do The Wall Street Journal revela que centenas de combatentes do Hamas permanecem encurralados em túneis sob Gaza, já sem suprimentos. Israel exige sua rendição ou eliminação. O Hamas, por sua vez, afirma que esses combatentes “preferem morrer lutando a se render”.
Enquanto isso, a crise se internacionaliza. O novo papa, Leão 14, recebeu pela primeira vez o presidente palestino Mahmud Abbas. A visita ao Vaticano, um mês após o início da trégua, ocorre num momento em que a Santa Sé tenta manter seu papel como voz moral da comunidade internacional. Leão 14 expressou solidariedade à “terra martirizada” de Gaza e criticou os deslocamentos forçados, embora tenha evitado, por ora, falar em genocídio — uma cautela que contrasta com a retórica mais contundente do falecido papa Francisco.
A visita também ressalta uma clivagem pouco explorada: Abbas é líder da Autoridade Palestina, que exerce controle sobre partes da Cisjordânia e é rival histórico do Hamas. O vácuo político entre esses dois polos da liderança palestina é explorado por potências externas que agora propõem um novo projeto de intervenção: uma espécie de protetorado internacional em Gaza, sob o pretexto de reconstrução e paz.
Protetorado ou ocupação sob nova roupagem?
A proposta do governo Donald Trump, apresentada em rascunho ao Conselho de Segurança da ONU, prevê a criação de uma Força Internacional de Paz com poderes de governança e segurança plena sobre Gaza, incluindo o direito ao uso da força e à desmilitarização do Hamas. A iniciativa teria duração inicial de dois anos, com possibilidade de prorrogação.
A proposta prevê ainda a criação de um “Conselho de Paz de Gaza”, responsável por treinar forças policiais, gerir a reconstrução e supervisionar fronteiras. Tudo isso sob o comando de uma coalizão internacional, em que a participação palestina seria, na prática, marginal.
O projeto gerou fortes reações. Jordânia e Egito manifestaram-se contrários à imposição de forças com mandato ofensivo. Organizações de direitos humanos alertam para os riscos de um novo colonialismo travestido de tutela humanitária. A proposta exige ainda que líderes árabes abandonem as denúncias contra Netanyahu por crimes de guerra, uma condição que escancara o caráter político e seletivo da iniciativa.
“Não se constrói paz sem justiça, e não se pode impor soberania de fora para dentro”, já alertava Edward Said, intelectual palestino, cuja obra permanece atual frente a propostas que negam aos palestinos o direito à autodeterminação.
A face sombria do Estado: o caso Sdé Teiman
Se a ocupação gera violência, o controle extraterritorial revela sua faceta mais brutal nos centros de detenção como o de Sdé Teiman, na fronteira com Gaza. Lá, um vídeo vazado por Yifat Tomer-Yeroushalmi, ex-procuradora-geral do exército israelense, mostrou a tortura de um prisioneiro palestino — incluindo fraturas, perfurações e lacerações internas.
A divulgação das imagens custou a liberdade da própria procuradora, presa sob acusações de obstrução de justiça, abuso de função e vazamento de informação. A imprensa israelense especula que ela poderia ter tentado apagar provas comprometedoras. Em sua carta de demissão, Tomer-Yeroushalmi afirmou que a divulgação era necessária diante da omissão institucional.
O caso gerou indignação internacional e levou o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, a declarar que “muitos detidos palestinos foram mantidos em condições equivalentes à tortura”. O episódio lança luz sobre a persistente violação dos direitos humanos por parte de uma potência ocupante, cujos excessos são raramente responsabilizados em instâncias internacionais.
Uma encruzilhada histórica
Gaza hoje é símbolo não apenas de uma tragédia humanitária, mas de um impasse político e moral global. A proposta de protetorado esvazia a soberania palestina, enquanto as potências regionais e globais operam de forma a perpetuar sua influência no território. A inação da ONU, as divisões internas palestinas e a impunidade israelense agravam um quadro já insustentável.
Como apontou Noam Chomsky, “enquanto os Estados Unidos continuarem a apoiar incondicionalmente Israel, não haverá justiça para os palestinos”. A crise atual exige não apenas a reconstrução física de Gaza, mas também um projeto político que respeite os direitos e a autodeterminação do povo palestino — algo que, até agora, está longe de ser garantido.
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