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Repressão anti-imigração muda rotina de brasileiros na América
Publicado em 24/07/2025 11:24 - Congresso em Foco, DW, Semana On
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A embaixada dos Estados Unidos no Brasil publicou ontem (23), em sua conta no X, uma mensagem em tom de ironia direcionada a brasileiros em situação irregular no território norte-americano. “Se você está nos EUA ilegalmente, faça como o E.T.: é hora de ligar para casa”, afirma a publicação.
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A mensagem orienta os brasileiros a utilizarem o aplicativo CBP Home para deixar o país. “Você receberá assistência para a viagem e uma ajuda de custo para retornar ao seu país de origem”, diz o texto. A imagem que acompanha a postagem mostra a cena final do filme E.T. the Extra-Terrestrial, com os dizeres: “Até o E.T. sabia a hora de voltar para casa”.
A publicação ocorre em meio à crise diplomática entre os dois países, após o presidente Donald Trump impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. A medida foi adotada como resposta ao andamento da ação penal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal.
Desde o início da crise diplomática, o perfil da embaixada reiteradamente publica mensagens agressivas voltadas ao retorno de imigrantes irregulares. As publicações circulam em meio a traduções das decisões tomadas pelo governo Trump que dizem respeito a instituições brasileiras.
Veja a íntegra da publicação:
Se você está nos EUA ilegalmente, faça como o E.T.: é hora de ligar para casa. Use o aplicativo CBP Home e vá embora agora, com apoio e dignidade. Você receberá assistência para a viagem e uma ajuda de custo para retornar ao seu país de origem. pic.twitter.com/gJ46agWXet
— Embaixada EUA Brasil (@EmbaixadaEUA) July 23, 2025
Repressão anti-imigração muda rotina de brasileiros nos EUA
O retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos reacendeu o temor entre imigrantes brasileiros em situação irregular. Em meio a operações do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE), comércios estão esvaziados, houve uma queda no consumo e o aumento da escassez de mão de obra em setores essenciais, como limpeza, construção civil e de entregas.
Desde o início de seu segundo mandato, Trump implementou uma série de mudanças rigorosas na política migratória, com foco na deportação de imigrantes indocumentados. De acordo com o Departamento de Segurança Interna dos EUA, até novembro de 2024, ao menos 38.677 brasileiros aguardavam deportação – cerca de 2,7% dos 1,45 milhão de estrangeiros com ordens finais de saída do país.
A comunidade brasileira nos Estados Unidos é uma das maiores da América Latina fora do país de origem. Estima-se que vivam mais de 1,8 milhão de brasileiros em território americano, concentrados especialmente em estados como Flórida, Massachusetts, Nova Jersey e Califórnia. Muitos são trabalhadores de baixa renda, inseridos nos setores de limpeza, construção civil, cuidados domiciliares e alimentação.
Com o avanço das medidas migratórias, organizações de apoio relataram um aumento na demanda por orientações legais, abrigos temporários e auxílio psicológico. Segundo a ONG Mantena, em Newark (NJ), cresceu também o número de pessoas buscando renovar documentos brasileiros e preparando filhos para um possível retorno.
“Tem dias em que a gente também não sabe o que fazer”, afirma Rodrigo Godoi, diretor da Mantena, contando que o clima de incerteza afeta até a equipe da organização. “Tentamos manter a calma e transmitir segurança para os outros, mas também ficamos sem saber para onde ir.”
Godoi também destaca o impacto nos casos de violência doméstica. “As vítimas têm medo de denunciar. Passamos anos tentando romper o tabu para que as mulheres pudessem falar sobre isso. Agora, se denunciam e são deportadas logo em seguida, o ciclo de silêncio volta.”
Momento tenso
A advogada Flávia Santos Lloyd, com mais de duas décadas de atuação na área migratória, afirma que o atual momento é o mais tenso de sua carreira. “Tenho clientes com cidadania americana com medo de viajar. Pessoas com direito à naturalização que estão desistindo. Nunca vi nada assim.”
Lloyd também relata que o medo tem afetado a adesão a eventos educativos sobre direitos básicos. “Organizei uma palestra sobre direitos dos imigrantes, mas precisei manter em local secreto, com grupo fechado no WhatsApp. Ninguém queria ser visto junto.”
O pânico atinge até os processos legais. “Há casos em que a pessoa vai à audiência de deportação ou ao check-in e é presa na saída. Isso criou um clima de terror. Mesmo quem quer fazer tudo certo, agora tem medo.”
Nos escritórios de advocacia, o impacto também é emocional. “Criamos um plantão 24 horas por WhatsApp. Se o cliente mandar ‘911’, entendemos que está com a imigração. Nunca imaginei organizar isso”, conta a advogada.
No coração do bairro brasileiro
Ironbound, em Newark (Nova Jersey), é um epicentro dessa mudança. Com forte presença de imigrantes brasileiros e latinos, o bairro vive uma retração visível no comércio, na circulação e no humor das ruas.
Há 21 anos vivendo nos Estados Unidos, o mineiro João de Souza comanda uma padaria em Ironbound. Em pouco tempo, ele viu o fluxo de clientes despencar. “O movimento caiu mais da metade. Caiu muito. Não sei se é medo, se é outra coisa”, diz, sem esconder a incerteza.
Souza havia passado cinco anos em outro endereço, mas mudou o ponto em setembro e reabriu o novo espaço em novembro do ano passado. Mesmo com a padaria ativa em aplicativos de entrega, a clientela física não voltou como esperava. “Tem gente que paga Uber só para buscar pão aqui, mesmo morando a 15, 20 minutos.”
A crise no comércio também se reflete nos espaços religiosos. “Eu vou à igreja todo domingo. Mas agora, especialmente no verão, tem menos gente indo. A frequência caiu”, relata Souza. Apesar da preocupação, ele não pensa em voltar ao Brasil por enquanto. “Meu filho já tem 18 anos e vai entrar na faculdade. Queremos esperar para ver o que Deus está preparando.”
“Era pra mudar pra melhor, mas mudou pra pior”
Morando nos Estados Unidos há 13 anos, o cabeleireiro Douglas Barbosa, também mineiro, acompanhou quatro governos enquanto mantinha seu salão em Ironbound. “Já vi de tudo: Obama, Trump, Biden, e agora Trump de novo. A gente sente no dia a dia do comércio como a política muda tudo. E não é impressão nossa – a diferença está em todas as áreas”, diz.
Barbosa decidiu ampliar o negócio no ano passado, trocando um salão pequeno por um espaço quase três vezes maior, com mais estrutura e estacionamento. Mas, ao invés de crescimento, enfrentou uma queda. “Eu tinha uma equipe de 13 pessoas, entre cabeleireiros e manicures. Agora estou com sete. Achei que ia melhorar, mas piorou.”
Segundo ele, parte da equipe deixou de trabalhar com medo da exposição. “Mesmo com boas condições, muita gente preferiu atender escondido, em casa ou em salinhas. Não é por dinheiro, é por medo. As pessoas têm receio de ficar visíveis.”
Barbosa também perdeu profissionais por causa de ações migratórias. “Uma das melhores funcionárias que eu tive, uma espanhola, foi embora pra Carolina do Norte depois de uma operação migratória aqui. Outra, brasileira, decidiu voltar para o Brasil. Ela tinha vindo com visto, pediu extensão, mas desistiu. O filho queria ficar, ela não.”
Para ele, há uma nova mentalidade entre os que chegaram recentemente. “Tem gente que já fala que é melhor voltar do que viver com medo. Quem está aqui há mais tempo já sabe o que vai enfrentar. Mas para quem chegou agora, o clima é de terror. Está todo mundo muito assustado.”
Queda nas vendas
Há 21 anos nos Estados Unidos, o fluminense Leonardo de Oliveira, de Teresópolis, comanda uma distribuidora de bebidas em Ironbound. Com experiência no comércio local, ele diz que os últimos meses foram marcados por dois fatores: queda no poder de compra e medo generalizado.
“As pessoas falam que não estão conseguindo trabalhar como antes. Muitos tiveram os horários reduzidos, outros pararam completamente. E o medo está por toda parte, principalmente entre o público hispano. Medo de estar na rua, de ser abordado pelo ICE, de acontecer uma blitz.”
Segundo Oliveira, o movimento de clientes até aumentou em volume, mas o que caiu foi a capacidade de consumo. “Antes, a pessoa levava duas caixas de vinho. Agora, leva quatro garrafinhas. Ninguém mais compra em quantidade. As vendas caíram cerca de 20% a 25% em relação a três meses atrás.”
Ele diz que muitas informações falsas também alimentam a insegurança. “Circulam boatos o tempo todo. Fulano diz que o ICE está prendendo gente, mas às vezes era só um mandado para uma pessoa específica. Isso vai alimentando o pânico.”
“Minha filha entrou no carro chorando com medo do ICE”
A diarista Patrícia, que pediu para não ter seu nome verdadeiro divulgado por motivos de segurança, vive nos Estados Unidos desde 2018 e está com o processo de green card em andamento. Mesmo sem ter sofrido impactos diretos na própria rotina de trabalho, ela relata os efeitos da repressão migratória no cotidiano da comunidade.
“Com meus clientes, senti até solidariedade. Mas o que vi nos salões e clínicas de estética foi muito diferente. Muita gente cancelou atendimento, ficou em casa com medo de sair.”
Segundo ela, o movimento nas ruas caiu drasticamente nos primeiros meses da nova gestão. Patrícia conta que a principal avenida do bairro, antes bem movimentada, anda vazia. “Tem loja fechando. E o número de apartamentos disponíveis para alugar aumentou muito — coisa que, até pouco tempo atrás, era inimaginável por aqui.”
A tensão aumentou com a visibilidade da presença do ICE no bairro. “Muita gente nem sabia que tem um centro de detenção aqui em Newark, e também um escritório do ICE. Uma vizinha minha viu um homem ser preso na esquina de casa, indo para o trabalho com marmita na mão.”
O medo chegou até sua filha. “Um dia, ela entrou no carro quase chorando e disse: ‘mãe, não quero que o ICE prenda a gente’. Isso veio das conversas com colegas na escola. Ela estuda aqui em Ironbound, onde há muitos filhos de brasileiros.”
O pensamento de voltar ao Brasil é recorrente. “Minha filha fala disso todo dia. Eu também penso. O Brasil tem seus problemas, mas o que pesa aqui é esse clima. A política lá assusta, mas pelo menos a gente vive sem esse medo constante.”
O medo e o voto
Apesar do cenário de medo, o apoio a Trump entre parte da comunidade permanece. Muitos culpam o governo Biden pela entrada desordenada de imigrantes e associam a crise a essa suposta abertura. Rodrigo Godoi, da Mantena, discorda. “Muita gente que apoia Trump nem é americana. São filhos e netos de imigrantes que perderam a noção da história. Ao mesmo tempo, vejo muitos americanos solidários tentando ajudar. ”
Uma empresária do setor gráfico resume o dilema: “Meu irmão votou no Trump, mas agora diz que os funcionários têm medo de sair de casa. Isso está quebrando o negócio dele. É um efeito dominó.”
Enquanto o debate político se intensifica, comunidades como a de Ironbound seguem tentando viver sob o peso da insegurança. “Esse terrorismo psicológico uma hora tem que passar”, diz Douglas Barbosa, “só não sabemos quando.”
O Exílio do Medo e o Espelho da Democracia
A crise que atravessa a comunidade brasileira nos Estados Unidos sob a nova gestão de Donald Trump transcende os limites da política migratória. Trata-se, na verdade, de um retrato sombrio das fragilidades das democracias contemporâneas diante da ascensão de projetos autoritários legitimados pelo voto — um paradoxo que inquieta filósofos, sociólogos e cientistas políticos desde os horrores do século XX.
Ao ironizar a dor do exílio com a imagem de um alienígena fictício — “Faça como o E.T.: é hora de ligar para casa” — a embaixada dos EUA no Brasil não apenas viola o princípio diplomático da dignidade humana, como revela o desprezo crescente pelo ethos humanista que sustenta as sociedades democráticas. Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, alertava que “o refugiado que não é cidadão de nenhum país não apenas perde seus direitos, mas sua própria existência política”. A alusão grotesca ao E.T. escancara esse esvaziamento de humanidade.
A retórica xenofóbica, intensificada por políticas de deportação e intimidação, reflete um movimento global de fechamento identitário, no qual o imigrante torna-se bode expiatório de crises econômicas e sociais. Tal lógica — nacionalista, excludente, muitas vezes racializada — tem ecos perigosos na história: foi ela que alimentou o fascismo na Europa, o macartismo nos EUA e, mais recentemente, os retrocessos democráticos em países como Hungria, Turquia e Brasil.
A relação entre política migratória e autoritarismo é bem documentada. O sociólogo Loïc Wacquant, em sua obra Punir os Pobres (Boitempo, 2007), demonstra como a criminalização da pobreza e da migração opera como mecanismo de controle social nas democracias neoliberais, legitimando o Estado penal em detrimento do Estado social. A atual repressão migratória nos EUA ilustra isso com perfeição: ao transformar trabalhadores invisíveis em ameaças públicas, cria-se um clima de terror que fragmenta comunidades, paralisa o comércio e agrava o sofrimento psicológico — como mostram os relatos de Newark.
Mas há ainda outro componente, mais sutil, que exige atenção: o apoio ambíguo de parte dos próprios imigrantes às políticas que os oprimem. Esse fenômeno não é novo, mas se tornou mais visível na era da desinformação digital e das identidades políticas fluidas. A socióloga Arlie Hochschild, no livro Strangers in Their Own Land (The New Press, 2016), mostra como muitos cidadãos americanos apoiam agendas que prejudicam seus próprios interesses por estarem imersos em narrativas emocionais de pertencimento e ressentimento. No caso dos brasileiros nos EUA, a nostalgia por uma autoridade “forte”, combinada à desilusão com os rumos políticos do Brasil, pode explicar parte dessa contradição.
O drama vivido pelos brasileiros em Ironbound, Flórida ou Massachusetts, portanto, não é apenas o da incerteza legal ou do medo da prisão. É o de viver entre dois mundos onde a democracia se vê acuada, ora por governos populistas e excludentes, ora pela indiferença de sistemas que já não garantem a proteção dos mais vulneráveis. O “sonho americano” dos anos 1980, que encantava gerações com a promessa de mobilidade social, tornou-se, para muitos, um pesadelo vigiado por drones e patrulhas do ICE.
Não se trata de defender fronteiras abertas ou negligenciar os desafios da imigração irregular, mas de exigir que mesmo os impérios respeitem os princípios civilizatórios. Como advertia Norberto Bobbio em O Futuro da Democracia (Paz e Terra, 1986): “A democracia não se mede apenas pelo voto, mas pelo modo como trata seus dissidentes, suas minorias e seus excluídos”.
Num mundo cada vez mais interdependente, a forma como tratamos os migrantes é, em última instância, um espelho da nossa própria civilização. E, como ensinou o filósofo Emmanuel Lévinas, a verdadeira ética começa no rosto do outro — mesmo quando esse rosto fala com sotaque estrangeiro, segura uma marmita ou tem medo de ir à escola.
Enquanto governos flertam com o cinismo, cabe à sociedade civil, à imprensa e às instituições democráticas resgatar a dignidade perdida. Que se ouça, entre a brutalidade das políticas, o sussurro da razão: ninguém foge da sua terra por conforto — mas por necessidade. E toda política que ignora essa verdade está fadada a repetir os erros mais vergonhosos da história.
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