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Mundo

Mais de 100 ONGs denunciam “fome generalizada” em Gaza

Uso da fome como arma fortalece o genocídio palestino: até quando?

Publicado em 23/07/2025 2:56 - DW, ICL

Divulgação Reprodução

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Mais de 100 organizações de ajuda humanitária e grupos de direitos humanos alertaram nesta quarta-feira (23) que a situação de “fome generalizada” se espalha cada vez mais na Faixa de Gaza e atinge também seus funcionários.

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No comunicado, 111 entidades pedem por um cessar-fogo imediato, a abertura de todas as passagens terrestres e o livre fluxo de ajuda por meio dos mecanismos coordenados pela ONU.

“À medida que o cerco do governo israelense mata de fome a população de Gaza, os trabalhadores humanitários agora se juntam às mesmas filas para receber alimentos, arriscando-se a ser baleados apenas para alimentar suas famílias”, diz o texto.

“Com os suprimentos agora totalmente esgotados, as organizações humanitárias estão vendo seus próprios colegas e parceiros definharem diante de seus olhos.”

O texto assinado por organizações como Médicos Sem Fronteiras (MSF), Save the Children, Oxfam, Cáritas e Anistia Internacional ainda pressiona outros governos a “pararem de esperar permissão para agir”.

“Acordos fragmentados e gestos simbólicos […] servem como uma cortina de fumaça para a inércia. Eles não podem substituir as obrigações legais e morais dos Estados de proteger os civis palestinos. Os Estados podem e devem salvar vidas antes que não haja mais ninguém para salvar”, diz a carta.

Desnutrição em ritmo elevado

Nos últimos 4 dias, quase 30 pessoas morreram de fome em Gaza. Entre as vítimas estão um bebê de seis semanas e três crianças, segundo as entidades.

Com isso, a desnutrição passou a matar palestinos com mais rapidez do que em qualquer outro momento desde o início do conflito, de acpodo com autoridades de saúde palestinas. Pelo menos 101 pessoas morreram por este motivo nos últimos 21 meses. Deste total, 80 eram crianças, e 21 delas morreram por este motivo apenas nos últimos três dias.

“Não é apenas sofrimento físico, mas também psicológico. A sobrevivência é mostrada como uma miragem”, disseram as organizações. O chefe da agência da ONU para refugiados palestinos disse na terça-feira que seus funcionários, bem como médicos e trabalhadores humanitários, estavam desmaiando durante o trabalho em Gaza devido à fome e à exaustão.

ONU: ‘Estágio mais horrível da campanha de fome de Israel’

Michael Fakhri, relator especial da ONU sobre o direito à alimentação, disse que a fome em Gaza é uma fome “causada pelo homem”. “O que estamos vendo agora em Gaza é o estágio mais horrível da campanha de fome de Israel”, disse Fakhri à Al Jazeera.

Em março, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, impôs um bloqueio total à entrada de alimentos e ajuda humanitária na Faixa de Gaza, que durou até meados de maio. Desde então, o exército israelense permitiu apenas uma pequena quantidade de ajuda humanitária na Faixa, enquanto matava civis que tentavam obter alimentos, disse Fakhri.

“Este é o pior cenário possível: as pessoas tendo negado o que precisam para sobreviver: não é apenas negação de comida, mas de água e assistência médica… De uma perspectiva legal, o que sabemos, sem dúvida, é que este é um caso de fome, o que é um crime de guerra”, acrescentou.

O relator da ONU sublinhou que o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão para Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant em novembro por “crimes contra a humanidade e crimes de guerra cometidos de pelo menos 8 de outubro até pelo menos 20 de maio de 2024”, alegações que estão parcialmente relacionadas ao uso da fome.

Ele disse que os mandados de prisão “criam uma obrigação legal: os países devem agir para acabar com a fome”.

Mais de um milhão de crianças estão passando fome em Gaza

A agência da ONU para refugiados palestinos, UNRWA, diz que mais de um milhão de crianças em Gaza estão passando fome, já que Israel só permitiu a entrada de poucos alimentos e ajuda humanitária na Faixa desde março.

“Esperamos que fórmulas e fraldas para crianças sejam permitidas e que as passagens sejam abertas para que a comida possa entrar”, disse a mãe de um bebê desnutrido à Al Jazeera. “Como mães, vemos nossos filhos sofrerem, e isso nos machuca.”

Cozinhas beneficentes que eram uma tábua de salvação para centenas de milhares de palestinos deslocados fecharam, deixando as pessoas com a responsabilidade de coletar restos de leguminosas.

“Isso é comestível?! É comestível?!”, disse uma mulher palestina, segurando um saco contendo algumas leguminosas. “Preciso alimentar meus filhos! Isso é comestível?! Gente, tenha misericórdia de nós! Tenha misericórdia de nossas crianças!”

Ahmed Abed, um homem deslocado, disse à Al Jazeera que está desesperado sem saber o que dizer aos seus filhos famintos. “Não há nada, nem comida, nem água. Não sabemos como lidar com as crianças. O que dizemos a elas quando pedem comida?”

Crise de desnutrição nos hospitais

O bloqueio de Gaza por Israel mergulhou a Faixa de Gaza em uma grave crise de desnutrição, com crianças particularmente vulneráveis à fome.

Umm Musab al Dibs não consegue conter a emoção ao sentar-se ao lado do filho de 14 anos, gravemente desnutrido, no Hospital Al-Shifa, na Cidade de Gaza. Ele agora pesa menos de 10 kg. “Ele pesava 40 kg e era o pilar de força da nossa família, apoiando a mim e às suas irmãs”, disse ela à Al Jazeera.

O Al-Shifa, o maior hospital da Faixa de Gaza, tem registrado um aumento acentuado nos casos de desnutrição ultimamente, mas está tendo dificuldades para tratar pacientes devido à grave escassez de suprimentos médicos.

“A maioria dos pacientes internados no hospital recentemente não sofre de ferimentos de guerra, mas de desnutrição grave”, disse Moataz Harar, chefe do departamento de emergência do hospital, à Al Jazeera. “Até alguns dos nossos profissionais de saúde desmaiaram por falta de comida. A situação é grave, mas não é nova. Só que o número está aumentando rapidamente.”

Hussam, um bebê gravemente desnutrido, foi levado a al-Shifa por sua mãe, que estava desesperada por ajuda. Os médicos descreveram seu estado como grave.

“Por causa da situação atual, não há fórmula, nem comida, nem nada para beber. É fome. Não consigo atender às necessidades do meu filho”, disse ela. “Fomos internados na sexta-feira e, desde então, meu filho sobrevive com soro intravenoso. Ele não consegue andar.”

Israel nega que exista fome em Gaza

Israel enfrenta pressão internacional crescente devido à situação humanitária catastrófica no território palestino, onde mais de dois milhões de pessoas enfrentam grave escassez de alimentos e outros itens essenciais após 21 meses de conflito.

O país controla todos os suprimentos de ajuda humanitária que chegam ao enclave devastado pela guerra, onde a maioria da população foi deslocada várias vezes e enfrenta uma grave escassez de produtos de primeira necessidade.

Até o momento, países como Reino Unido, Canadá e França já consideraram sancionar Israel pelos ataques em Gaza. A Alemanha e representantes da União Europeia também fizeram duras críticas à operação militar, mas não chegaram a ameaçar impor medidas.

O governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nega estar bloqueando a entrada de suprimentos e afirma que há ajuda humanitária equivalente a 950 caminhões em Gaza aguardando que agências internacionais a recolha e distribua.

“Não identificamos fome neste momento, mas entendemos que são necessárias ações para estabilizar a situação humanitária”, disse um alto funcionário da segurança israelense citado pelo jornal Times of Israel.

Segundo a ONU, forças israelenses mataram mais de mil palestinos que tentavam obter comida desde que a Gaza Humanitarian Foundation (GHF), apoiada por EUA e Israel, iniciou suas operações no final de maio – na prática, substituindo o sistema tradicional liderado pela ONU.

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