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Mundo
Conflito entre presidente e bilionário expõe o colapso moral, político e institucional dos EUA
Publicado em 06/06/2025 10:07 - Semana On
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O que começou como uma rixa pública entre Donald Trump e Elon Musk — dois dos personagens mais poderosos e controversos do século XXI — rapidamente se transformou num espelho cruel das contradições da democracia norte-americana. O ex-presidente e o bilionário, antes aliados na cruzada contra a regulação estatal e a favor da concentração de poder nas mãos de poucos, agora trocam acusações que escancararam corrupção institucional, conflitos de interesse, chantagens, ameaças e o uso privado da máquina pública. A briga, porém, é muito mais do que pessoal: é estrutural. É a agonia de um modelo de democracia sequestrado pelo dinheiro e pelo ressentimento.
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No curto espaço de uma semana, Donald Trump e Elon Musk passaram da troca de gentilezas simbólicas — como a entrega de uma “chave de ouro” da Casa Branca — ao uso das próprias redes sociais para destilar denúncias de corrupção, desinformação, escândalos sexuais e ameaças de retaliação estatal. Musk acusou Trump de ser mencionado nos arquivos secretos do caso Epstein, o bilionário pedófilo envolvido no tráfico de menores. Trump respondeu prometendo cancelar contratos da Tesla e da SpaceX, além de revogar indicações feitas por Musk à chefia da NASA. Nos bastidores, assessores tentam estancar a sangria e costurar uma reconciliação. Mas o estrago está feito.
Para além do espetáculo vulgar, o que se revela é um panorama sombrio de como as democracias morrem — não por golpes de Estado clássicos, mas por apodrecimento interno, como alertam Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em Como as Democracias Morrem. Quando os poderes do Estado passam a servir aos caprichos de interesses privados bilionários, e quando a mentira vira moeda corrente nas relações entre governo e sociedade, a república perde seu significado.
Um sistema onde o poder é comprado
O conflito escancarou que Musk não era apenas um empresário com contratos públicos. Ele era, nas palavras dele mesmo, um pilar financeiro da vitória republicana: “Sem mim, Trump teria perdido a eleição”, afirmou, referindo-se aos mais de R$ 1,4 bilhão que despejou em campanhas. Essa frase, dita com franqueza quase infantil, expõe o que muitos já sabiam: a política nos EUA — e não apenas lá — funciona como um mercado. Quem investe, cobra retorno.
Trump, por sua vez, admitiu que Musk se opôs a seu projeto de orçamento porque ele previa o fim de subsídios para carros elétricos, o que afetaria diretamente os lucros da Tesla. Ao admitir que o empresário esperava benefícios econômicos em troca de apoio político, o ex-presidente confirma a lógica de governança como escambo — algo incompatível com os fundamentos da república.
Nos moldes teóricos de Montesquieu, um dos pilares da separação de poderes é justamente evitar a captura do Estado por interesses privados. Quando isso acontece, não há mais república. Há oligarquia.
Mentiras, ressentimento e desinformação como método
A disputa entre os dois homens também revelou o uso sistemático da mentira como arma política. Musk, para justificar sua oposição ao governo, afirmou que os EUA caminham para uma recessão por culpa da política protecionista de Trump — contrariando discursos anteriores da própria Casa Branca. Já Trump usou sua rede Truth Social para questionar o uso de cetamina por Musk, baseando-se em matéria do New York Times que revelou que o empresário faz uso contínuo do anestésico, potencialmente viciante.
Esses episódios ilustram o que o filósofo Byung-Chul Han chama de “sociedade do escândalo”: uma era em que a verdade é substituída por narrativas emocionais e em que a destruição da reputação do adversário vale mais que o debate racional. Nas palavras de Hannah Arendt, “um elemento essencial do totalitarismo é a substituição dos fatos pela ficção”.
Mas há algo ainda mais preocupante: a instrumentalização da lei como instrumento de vingança. O ex-estrategista de Trump, Steve Bannon, sugeriu que Musk tivesse seu status migratório revisto, em represália. Trata-se de uma forma moderna de “banimento civil”, onde o poder político se dá o direito de perseguir inimigos por meio do sistema legal — algo mais próximo de regimes autoritários que de uma democracia liberal.
Quando o Estado é privatizado
A briga também lança luz sobre o enfraquecimento do Estado enquanto instituição pública. Musk havia sido chamado por Trump para ajudar a “enxugar” o governo, demitindo servidores e desmantelando estruturas regulatórias. A lógica é clara: menos Estado para mais mercado. Mas, como ironizou o cientista político Corey Robin, “os bilionários não querem um governo pequeno, eles querem um governo que funcione apenas para eles”.
Ao ameaçar Musk com o fim dos contratos governamentais, Trump deixou claro que tais contratos eram um tipo de “favor”, e não fruto de licitações ou critérios técnicos. Essa é a despolitização da política, onde o interesse público é abolido e tudo se torna barganha pessoal.
E o que dizer dos demais bilionários das big techs? Segundo fontes próximas à Casa Branca, há uma campanha de pressão para que Trump se reconcilie com Musk — afinal, eles compartilham um objetivo comum: bloquear a regulação das plataformas digitais em todo o mundo. Isso mostra como os conflitos dentro da elite são meramente táticos. O projeto de poder permanece intacto.
O fim da inocência democrática
Ao fim e ao cabo, o embate entre Trump e Musk é mais do que um escândalo midiático. É um marco simbólico do esgotamento do modelo democrático liberal tal como concebido no pós-guerra. O sistema representativo está sendo corroído por dentro, não apenas por políticos populistas, mas por empresários que transformaram a política em investimento de alto retorno.
A pergunta feita por uma mulher a Benjamin Franklin em 1787 — “O que temos, uma república ou uma monarquia?” — ressoa como advertência. A resposta de Franklin — “uma república, se você puder mantê-la” — soa hoje como um epitáfio.
O colapso moral das elites norte-americanas não é um problema doméstico. Ele afeta todo o sistema internacional. Em países como o Brasil, onde figuras como Jair Bolsonaro tentam replicar o modelo trumpista, a crise institucional nos EUA serve de inspiração e legitima práticas antidemocráticas. Afinal, se a maior democracia do mundo pode funcionar como um clube privado de bilionários, por que não aqui?
A resposta está na vigilância cidadã, na imprensa crítica, na defesa intransigente da separação entre poder público e interesses privados. Democracias morrem de maneira ruidosa ou silenciosa — mas sempre com a colaboração dos que se beneficiam do caos.
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