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Mundo
ONU fala em crimes de guerra e cobra ação do Conselho de Segurança
Publicado em 05/06/2025 10:53 - Semana On
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Gaza vive mais um capítulo de horror humanitário: a Fundação Humanitária de Gaza (GHF), entidade apoiada por Israel e Estados Unidos, interrompeu na terça-feira (3) a distribuição de alimentos por 24 horas, após uma série de tragédias nos centros de ajuda que deixaram dezenas de mortos. A paralisação ocorre em meio a denúncias graves da ONU e à iminência de um novo veto americano a uma resolução de cessar-fogo no Conselho de Segurança.
A suspensão temporária das operações da GHF foi anunciada nas redes sociais da própria entidade, com a justificativa de “renovação, reorganização e melhoria da eficiência”. Embora o comunicado tenha tom neutro, o contexto expõe uma realidade alarmante. Desde que Israel impôs a GHF como principal distribuidora de alimentos na Faixa de Gaza — em substituição a agências internacionais como a Unrwa — o caos tomou conta das operações.
Os centros de distribuição, montados sob vigilância armada e controle das Forças de Defesa de Israel (IDF), têm sido palco de massacres. Relatórios da Defesa Civil palestina e de organizações internacionais indicam que dezenas de pessoas famintas foram mortas por tropas israelenses ao se aproximarem dos locais de entrega. Na terça-feira (2), pelo menos 27 civis foram mortos na rotatória de Al-Alam, em Rafah. O episódio ocorreu a apenas um quilômetro de um dos centros coordenados pela GHF.
“São armadilhas mortais”, denunciou a Organização das Nações Unidas. O secretário-geral António Guterres classificou a situação como uma “perda inconcebível de vidas”. Já o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, foi mais direto: “Estamos diante de crimes de guerra”.
Ajuda seletiva e politizada
A imposição da GHF pelas autoridades israelenses marca uma ruptura com décadas de atuação da Unrwa (Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos), tradicional responsável pela ajuda humanitária na região. Desde que Israel acusou a Unrwa de ligações com o Hamas — incluindo alegações de envolvimento no ataque de 7 de outubro de 2023 — a agência foi afastada. A nova fundação, de financiamento opaco e rejeitada por ONGs internacionais, foi instituída sem a participação dos organismos que antes coordenavam a ajuda em Gaza.
A decisão gerou forte repúdio. “As ONGs não aceitam atuar com a GHF porque ela viola princípios de neutralidade e pode estar instrumentalizada para fins militares”, afirmou Jan Egeland, secretário-geral do Norwegian Refugee Council, em entrevista à Al Jazeera. A recusa em cooperar com a fundação reflete o temor de que a ajuda humanitária esteja sendo transformada em arma de guerra — um alerta feito por estudiosos como Michael Walzer, que já advertia em Guerras Justas e Injustas (1977): “a guerra deve se submeter a limites éticos, mesmo sob ameaça existencial”.
Bloqueio persistente e colapso social
Desde o ataque do Hamas em outubro de 2023, Israel intensificou sua campanha militar em Gaza. Em maio, as ofensivas se concentraram na cidade de Rafah, com o declarado objetivo de eliminar o grupo islamista e resgatar reféns. Mas o cerco transformou Gaza em um campo de fome. Segundo a ONU, são necessários 600 caminhões de alimentos por dia para evitar a catástrofe humanitária. Na terça-feira, apenas 21 chegaram.
A lógica do bloqueio se sustenta na doutrina da punição coletiva, condenada pelo direito internacional humanitário. “Não se pode matar civis por associação geográfica com grupos armados”, pontua o jurista e ex-relator da ONU Richard Falk. Segundo dados da organização Save the Children, mais de 13 mil crianças palestinas morreram desde o início do conflito, número que desafia qualquer justificativa militar plausível.
O veto como obstáculo à paz
Na quarta-feira (4), o Conselho de Segurança da ONU volta a votar um projeto de resolução pedindo cessar-fogo imediato e acesso humanitário irrestrito. A proposta, elaborada pelos membros eleitos do Conselho, deve enfrentar novo veto dos Estados Unidos — o primeiro da administração Trump desde seu retorno ao poder. Em declarações obtidas pela AFP, diplomatas confirmaram que Washington pretende barrar a medida, como já o fez em ocasiões anteriores.
A insistência americana em proteger Israel tem sido criticada por lideranças globais. “Todos nós seremos julgados pela história pelo que fizemos para pôr fim a este crime contra o povo palestino”, advertiu o embaixador palestino na ONU, Riyad Mansour. A menção ecoa os alertas de especialistas como Noam Chomsky, que há décadas aponta para a conivência internacional diante da ocupação: “O silêncio dos poderosos não é neutralidade, é cumplicidade” (Gaza in Crisis, 2010).
A flotilha civil e o grito por dignidade
Em meio à devastação, um navio de resistência civil parte rumo a Gaza: o Madleen, embarcação da Coligação Flotilha da Liberdade, zarpou da Itália com mantimentos e ativistas, incluindo Greta Thunberg, a deputada francesa Rima Hassan e o brasileiro Thiago Ávila. A iniciativa remonta às tentativas anteriores de romper simbolicamente o bloqueio, como o caso da flotilha atacada por Israel em 2010, quando nove ativistas foram mortos.
A presença de figuras públicas internacionais reacende o debate sobre a legitimidade das ações israelenses e a omissão da comunidade global. Como afirmou Edward Said, intelectual palestino-americano, “o problema não é a ausência de informação, mas o controle sobre quem tem o direito de narrar”.
Enquanto isso, a população de Gaza, exausta e faminta, continua a ser submetida a uma guerra em que a fome é estratégia, a ajuda é condicionada e a neutralidade humanitária, uma miragem. O fechamento temporário dos centros da GHF é apenas mais um reflexo de uma política que transforma o socorro em armamento e a esperança em alvo.
Genocídio premeditado
O presidente Lula se emocionou hoje (5) na França ao defender a Palestina e disse que Israel comete um “genocídio premeditado” contra mulheres e crianças na Faixa de Gaza.
Lula disse que palestinos não podem ser tratados como “cidadãos de segunda categoria”. ‘”São seres humanos como todos nós (…). Estamos vendo um genocídio na nossa cara todo santo dia”, criticou o petista, em tom exaltado, durante fala a jornalistas ao lado do presidente da França, Emmanuel Macron. Ao final da entrevista, Lula pediu desculpas “pela emoção” e afirmou que não se pode perder a capacidade de indignação.
O presidente afirmou que as grandes potências mundiais precisam dar “um basta” nos ataques de Israel ao povo palestino. Lamentou ainda o fato de que, segundo ele, o “mundo se cala diante de um genocídio” em que vítimas são civis, e não soldados e integrantes do grupo terrorista Hamas. “O que está acontecendo em Gaza é um genocídio altamente preparado, contra mulheres e crianças. É contra isso que a humanidade tem que se indignar”, disse.
Sem citar Donald Trump, Lula rechaçou as falas do presidente americano sobre retirar palestinos de Gaza para construir uma “riviera do Oriente Médio” no enclave. O petista afirmou que o local não pode ser tratado como “área de lazer” e, sim, como um território conquistado pelo povo palestino depois de “muito sacrifício”. “Precisamos garantir que eles construam, em harmonia com o Estado de Israel, o direito de viver.”
Lula repetiu que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, faz uma guerra contra os interesses dos israelenses. “Ao povo judeu, também não interessa essa guerra. Interessa a paz”, criticou.
O presidente voltou a lamentar o que vê como enfraquecimento da autoridade da ONU (Organização das Nações Unidas) perante o mundo. Ele disse que o organismo internacional precisa ter “autoridade” para preservar o território palestino e avaliou que o órgão, que completa 80 anos em 2025, sofre de “grave déficit de legitimidade e eficácia”. Diante desse quadro, Lula defendeu novamente a reforma no Conselho de Segurança da ONU, para que um novo grupo de países tenha assento permanente no órgão.
Lula está na França para agendas com o presidente Emmanuel Macron. Hoje, o petista assinou uma série de acordos do Brasil com o país, após participar de uma reunião com o dirigente francês em Paris.
O que disse Lula
Desculpe a emoção, mas é triste. É triste saber que o mundo se cala diante de um genocídio, em que a grande vítima não é soldado que está em guerra, mas milhares de crianças. Sinceramente, o dia em que eu perder a capacidade de me indignar, eu não mereço ser dirigente do meu país.
Não é possível a gente aceitar uma guerra que não existe e, sim, um genocídio premeditado que um governante de extrema direita que está fazendo, uma guerra, inclusive, contra os interesses do seu próprio povo. Porque, a Israel, ao povo judeu, também não interessa essa guerra. Interessa a paz.
Não podemos permitir os discursos do presidente de Israel, que diz todo dia que quer ocupar a Faixa de Gaza, o outro diz que quer fazer um hotel, uma área de lazer, quando, na verdade, aquilo é um território que um povo conquistou depois de muito sacrifício, e precisamos garantir que eles construam, em harmonia com o Estado de Israel, o direito de viver. É importante que as potências mundiais deem logo um basta nisso.
Esses dias, sofremos com a morte de dois judeus na embaixada de Israel nos Estados Unidos. No mesmo dia, duas crianças carregando um saco de farinha foram mortas. E não houve a solidariedade que houve aos dois que foram mortos na embaixada. Não podemos tratar os palestinos como se fossem cidadãos de segunda ou terceira categoria. São seres humanos como todos nós.Presidente Lula, em declaração a jornalistas ao lado do presidente da França
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