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Mundo

Trump transforma EUA em fator de instabilidade global e amplia ameaça contra aliados

Pressões sobre a Otan, ameaças à soberania da Groenlândia e nova escalada militar contra o Irã aprofundam a crise de confiança em Washington

Publicado em 08/07/2026 12:43 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A política externa dos Estados Unidos sob Donald Trump voltou a colocar sob tensão os pilares da ordem internacional construída em torno das alianças ocidentais. Em meio a uma nova escalada militar contra o Irã, ameaças comerciais dirigidas à Espanha, críticas públicas a integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e reiteradas pretensões de controlar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, o presidente norte-americano ampliou nesta quarta-feira (8) a pressão sobre governos historicamente aliados de Washington.

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As declarações foram feitas durante a cúpula da Otan, em Ancara, na Turquia, em um momento particularmente delicado para a segurança internacional. Enquanto os líderes da aliança tentavam reafirmar a unidade do bloco diante da guerra na Ucrânia, das tensões com a Rússia e da escalada no Oriente Médio, Trump voltou a questionar a contribuição dos parceiros europeus, atacou governos aliados e defendeu abertamente que um território pertencente a outro integrante da Otan passe ao controle dos Estados Unidos.

A ofensiva verbal do presidente norte-americano contrastou com o comunicado conjunto divulgado ao final da reunião, no qual os países reafirmaram o princípio fundamental da defesa coletiva — “um ataque a um é um ataque a todos” — e defenderam uma aliança modernizada, capaz de fortalecer suas capacidades nucleares, convencionais, antimísseis, espaciais e cibernéticas.

Trump afirmou estar “muito insatisfeito” com a Otan e retomou as críticas aos países europeus que, segundo ele, não contribuem suficientemente para atingir a meta de investimentos equivalentes a 5% do Produto Interno Bruto em defesa e segurança, estabelecida na cúpula realizada em Haia no ano passado.

Entre os principais alvos estava a Espanha. Trump classificou o país como uma “parceira terrível” da aliança e afirmou ter determinado a autoridades norte-americanas a interrupção das relações comerciais com Madri.

“A Espanha é uma parceira terrível na Otan. Eles não participam, não pagam, não quero nada com a Espanha. Cortem todo o comércio com a Espanha, inclusive visitas. Não queremos nada. Podem apostar que eles vão voltar correndo, ah, eles vão voltar correndo”, declarou.

A resposta espanhola procurou evitar uma escalada diplomática. Fontes do governo de Madri afirmaram ao jornal britânico The Guardian que a Espanha “mantém uma excelente relação social, cultural e econômica com os EUA” e não pretende alterar essa posição.

As ameaças contra um aliado europeu, entretanto, não foram o único fator de tensão durante a cúpula.

Trump voltou a criticar os integrantes da Otan por não apoiarem suas pretensões de colocar a Groenlândia sob controle norte-americano. Para o presidente dos Estados Unidos, a resistência dos aliados tornou-se “um grande problema”.

“A Groenlândia é muito importante para os Estados Unidos, mas não é importante para a Dinamarca”, afirmou.

Segundo Trump, o controle da ilha seria necessário “para a proteção do mundo, não apenas dos Estados Unidos”.

“Precisamos dela para a proteção do mundo. Ela não ajuda a Dinamarca, mas ajuda a nós”, declarou.

O presidente norte-americano sustentou ainda que “a Groenlândia deveria ser controlada pelos Estados Unidos, não pela Dinamarca” e acusou Copenhague de não investir recursos suficientes para auxiliar o território.

A disputa, segundo o próprio Trump, deteriorou sua relação com a aliança militar.

“A questão prejudicou meu relacionamento com a Otan. Estou muito chateado com a Otan por pagarmos muito, muito mais do que deveríamos”, afirmou.

As declarações receberam uma resposta direta da primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen. Ao chegar para o segundo dia da cúpula, a chefe do governo reafirmou que a Groenlândia “não está à venda” e defendeu o direito dos groenlandeses à autodeterminação.

“Somos um povo soberano e precisamos que todos respeitem a nossa integridade territorial”, declarou.

Questionada sobre a possibilidade de defender militarmente a Groenlândia, Frederiksen afirmou que a Dinamarca está preparada para proteger “cada centímetro” do território da Otan.

A primeira-ministra recorreu ao próprio fundamento da aliança militar para responder às pressões vindas de Washington. Lembrou que o artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte estabelece que um ataque contra um integrante da organização deve ser considerado uma agressão contra todos.

“Se algo acontecer a um de nós, todos devem defender os restantes”, afirmou.

Segundo Frederiksen, o princípio da defesa coletiva vale para o flanco leste da aliança, diante da guerra na Ucrânia, foi acionado em benefício dos Estados Unidos após os ataques terroristas de 11 de setembro e deverá valer igualmente para a Groenlândia “se algo acontecer”.

Perguntada se considera os Estados Unidos comprometidos com o artigo 5º, respondeu: “Não ouvi que os EUA não estejam comprometidos”.

Apesar da cautela diplomática, a primeira-ministra reconheceu que o ambiente internacional se tornou “mais inseguro” e defendeu o fortalecimento da Otan.

“Eu não seria capaz de assegurar o meu povo sem a Otan e acho que o mesmo serve para os EUA. É por causa da Otan que o nosso povo transatlântico pode estar em segurança e isso vai se manter no futuro”, declarou.

Para Frederiksen, as prioridades devem ser o rearmamento da Europa, o fortalecimento da base industrial de defesa no continente e nos Estados Unidos e a ampliação do apoio à Ucrânia.

“Penso que todos sabemos que são tempos difíceis e, por isso, a nossa união neste mundo é mais importante do que nunca”, afirmou.

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, também destacou a transformação em curso na distribuição das responsabilidades dentro da Otan. Segundo ele, europeus e canadenses estão assumindo uma parcela maior dos encargos da aliança diante da redução dos investimentos norte-americanos.

Carney lembrou que uma redistribuição das responsabilidades entre os integrantes da organização já havia sido defendida pelo ex-presidente Barack Obama e considerou “apropriada” a mudança.

Mas foi a guerra contra o Irã que expôs de maneira ainda mais dramática as divergências entre Washington e seus aliados.

Trump criticou os países da Otan por não prestarem apoio suficiente aos Estados Unidos durante o conflito. Segundo ele, o Reino Unido “não nos deixou usar a ilha por duas semanas”, enquanto a Itália teria se comportado “muito mal”.

O presidente norte-americano anunciou ainda que considera encerrado o memorando de entendimento firmado com Teerã.

“No que me diz respeito, acabou. Não quero mais negociar com eles, eles são escória. São pessoas doentes, são pessoas cruéis e violentas”, declarou.

Trump acusou o governo iraniano de negar publicamente compromissos que, segundo ele, haviam sido assumidos durante as negociações.

“Fizemos um acordo e todos concordaram. Nada de armas nucleares. Fizemos o acordo. Eles saem, falam com a imprensa e dizem que nem sequer conversamos sobre isso. Há algo de errado com eles. Eles são malucos. Para mim, acabou.”

Na sequência, o presidente utilizou uma metáfora médica para defender uma postura ainda mais agressiva contra Teerã.

“Temos que nos livrar do câncer deles. E sabe o que se faz? É preciso extirpar o câncer logo no início. E é assim que eu penso.”

As declarações ocorreram poucas horas depois de o governo iraniano anunciar que não retomaria as negociações de paz enquanto Trump não interrompesse as ameaças contra o país.

Na terça-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, havia afirmado que nem a população nem as Forças Armadas iranianas se deixariam intimidar pelas bravatas do presidente norte-americano.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Ghalibaf, enumerou cinco supostas violações cometidas pelos Estados Unidos contra o acordo. Entre elas, mencionou a continuidade dos ataques israelenses no Líbano e as “ameaças constantes de novos ataques”.

A troca de acusações marcou uma nova escalada de violência em torno de um acordo que permanecera em vigor por menos de um mês.

Na noite anterior, pelo horário de Brasília, os Estados Unidos informaram ter realizado “uma série de ataques poderosos contra o Irã” em resposta a ofensivas contra petroleiros no Estreito de Hormuz.

Trump publicou na rede Truth Social um vídeo dos ataques. As imagens mostravam bombas sendo lançadas e, em seguida, explosões.

Uma das ofensivas norte-americanas atingiu Bandar Abbas, cidade portuária localizada no Estreito de Hormuz. O governo iraniano confirmou o ataque, mas afirmou que o aeroporto da cidade não havia sido afetado.

Outro bombardeio, no Khuzistão, teria provocado a morte de uma pessoa e deixado duas feridas.

Um integrante da Guarda Revolucionária do Irã também teria morrido no sudoeste do país. Explosões foram registradas ainda em Bushehr, cidade portuária onde está localizada a única usina nuclear civil iraniana.

O Comando Central dos Estados Unidos, o Centcom, afirmou que as operações militares foram realizadas em resposta aos ataques iranianos.

Segundo o comando norte-americano, as ações tinham como objetivo impor “custos pesados” ao Irã pela ofensiva contra “tripulações de navios comerciais formadas por civis inocentes em uma via navegável internacional”.

Petroleiros comerciais do Qatar e da Arábia Saudita foram atacados pelo Irã no Estreito de Hormuz, segundo informações divulgadas pelos Emirados Árabes Unidos.

O diplomata Anwar Gargash afirmou que as ofensivas demonstravam que Teerã era “incapaz de se comprometer com a desescalada” no Oriente Médio.

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, também considerou que o Irã vinha agindo de maneira irresponsável e classificou a reação militar norte-americana como uma “resposta apropriada”.

A retomada das hostilidades teve efeitos imediatos sobre a economia mundial.

O preço do petróleo avançou mais de 5% e voltou a se aproximar de US$ 80 diante do temor de novas interrupções no fluxo de embarcações pelo Estreito de Hormuz.

A rota marítima é responsável pela passagem de aproximadamente 20% da produção mundial de petróleo. Eventuais bloqueios ou interrupções no tráfego podem atingir diretamente as cadeias globais de abastecimento de combustíveis e fertilizantes.

Teerã respondeu aos bombardeios atacando 85 instalações norte-americanas em Bandar Salman, no Quinto Distrito Naval do Bahrein, e na Base Aérea Ali Al Salem, no Kuwait.

As forças iranianas também afirmaram ter abatido um drone MQ-9 dos Estados Unidos que tentava interferir na operação.

Em comunicado oficial, o comando militar iraniano prometeu uma “resposta esmagadora” às ações norte-americanas.

O governo de Teerã advertiu ainda que não aceitará interferência dos Estados Unidos no Estreito de Hormuz.

Segundo as Forças Armadas iranianas, a única rota segura para navios comerciais e petroleiros será aquela determinada pelo próprio Irã.

A escalada praticamente enterrou o cessar-fogo firmado entre Washington e Teerã em 14 de junho.

O entendimento havia sido alcançado após meses de tentativas de negociação e sucessivas recusas de encontros presenciais entre representantes dos dois países.

O documento, denominado “Memorando de Entendimento de Islamabad”, continha 14 pontos, entre eles a suspensão das sanções contra Teerã, a entrada em vigor de um cessar-fogo imediato e a criação de um plano de reconstrução de US$ 300 bilhões para o Irã.

Depois da assinatura, representantes dos Estados Unidos e do Irã deveriam se reunir para discutir os detalhes da implementação do acordo.

O encontro estava previsto para 19 de junho, em Burgenstock, na Suíça, mas acabou cancelado.

A razão oficial da desistência não foi divulgada. A suspeita era de que os ataques de Israel no Líbano colocassem em risco a continuidade do entendimento.

As ofensivas israelenses em território libanês também começaram a provocar fissuras entre Washington e Tel Aviv. Autoridades israelenses se recusavam a interromper os ataques, enquanto Trump fazia críticas públicas às operações.

Apesar da trégua entre Estados Unidos e Irã, outra frente do conflito permaneceu aberta.

Israel e Hezbollah continuaram realizando ataques. O grupo extremista e o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciaram um cessar-fogo em 19 de junho, mas as hostilidades prosseguiram.

Diante das ofensivas israelenses, o Irã ameaçou fechar o Estreito de Hormuz até que Israel interrompesse os ataques.

A crise no Oriente Médio se desenvolve paralelamente às incertezas sobre o compromisso estratégico dos Estados Unidos com a segurança europeia.

Durante entrevista coletiva na cúpula da Otan, Trump afirmou que Washington está disposto a oferecer garantias de segurança à Ucrânia “para salvar vidas”.

Segundo ele, existe “muita pressão sobre o presidente Putin”.

“Não acho que ele goste do que está acontecendo”, afirmou.

Trump também declarou que os Estados Unidos estão dispostos a comprar drones produzidos pela Ucrânia.

“Nós fabricamos drones, fabricamos drones excelentes, mas eles têm a capacidade de fabricar muitos deles, o que é incrível, considerando que em uma situação de guerra eles os fabricam em porões, em qualquer lugar onde haja um pequeno abrigo ou mesmo se não houver abrigo algum”, declarou.

Apesar das críticas públicas aos aliados, relatos da Reuters indicaram que Trump adotou um tom menos confrontacional durante a reunião a portas fechadas com os líderes da Otan.

Segundo esses relatos, o presidente não se exaltou durante o encontro privado e afirmou aos integrantes da aliança que os Estados Unidos estavam dispostos a continuar vendendo armas “independentemente de como elas fossem usadas”.

Ao final da cúpula, os líderes da Otan procuraram responder às dúvidas sobre a coesão do bloco reafirmando o compromisso com a defesa coletiva.

“Um ataque a um é um ataque a todos”, declarou o comunicado conjunto.

O documento identificou a Rússia como uma “ameaça a longo prazo” para a segurança e a estabilidade euro-atlânticas.

A aliança defendeu a modernização de suas estruturas militares e o fortalecimento das capacidades nucleares, convencionais, antimísseis, espaciais e cibernéticas.

O comunicado também afirmou que a Ucrânia “contribui para a segurança transatlântica” e prometeu “apoio inabalável” a Kiev “na defesa de sua liberdade, soberania e integridade territorial”.

Em relação ao Irã, os líderes declararam que o país “nunca deve possuir uma arma nuclear” e exigiram que Teerã “respeite plenamente a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz”.

A declaração final procurou projetar unidade. As intervenções públicas do presidente dos Estados Unidos, porém, expuseram uma contradição cada vez mais difícil de administrar no interior da aliança.

A maior potência militar da Otan exige mais recursos de seus parceiros, ameaça economicamente governos aliados, reivindica o controle de um território pertencente a outro integrante do bloco e cobra apoio para operações militares conduzidas por Washington, ao mesmo tempo que mantém dúvidas sobre a extensão de seu próprio compromisso estratégico com a segurança europeia.

Nesse cenário, o desafio enfrentado pelos países ocidentais já não se limita às ameaças externas identificadas pela própria Otan.

A guerra na Ucrânia, a pressão militar da Rússia, a escalada no Oriente Médio e o risco de interrupção de uma das principais rotas energéticas do planeta continuam sendo fontes concretas de instabilidade.

Mas a postura adotada pela Casa Branca acrescenta uma dimensão inédita ao problema: a imprevisibilidade passou a partir também do centro político e militar da aliança ocidental.

Ao transformar parceiros em alvos de ameaças comerciais, questionar a soberania territorial de um aliado e ampliar confrontos militares cujas consequências ultrapassam as fronteiras norte-americanas, Trump aprofunda a crise de confiança entre Washington e governos historicamente vinculados aos Estados Unidos.

A Otan encerrou a cúpula reafirmando que a segurança coletiva depende da unidade entre seus integrantes. O problema é que, sob Trump, a principal potência da aliança tornou-se também um dos fatores que mais pressionam essa unidade — e um elemento adicional de desestabilização em uma ordem internacional já marcada por guerras, rivalidades estratégicas e crescente insegurança.

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