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Mundo
Ex-presidente propõe negociação sobre territórios ucranianos e usa lei do século 18 para deportar imigrantes
Publicado em 17/03/2025 1:09 - Semana On
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O mundo vive um momento de inflexão. Com a guerra na Ucrânia se arrastando e a ascensão do populismo autoritário nos Estados Unidos, as bases da ordem internacional e do próprio Estado de Direito parecem cada vez mais ameaçadas. Nos últimos dias, Donald Trump, ex-presidente americano e favorito para retornar à Casa Branca em 2025, protagonizou dois episódios de extrema gravidade: primeiro, sugeriu publicamente que a divisão territorial da Ucrânia já está sendo discutida com Vladimir Putin; depois, ignorou uma ordem judicial federal ao deportar centenas de imigrantes utilizando uma lei de guerra do século XVIII.
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Os dois eventos, aparentemente desconectados, revelam um padrão perigoso: um líder político que desafia as instituições democráticas, ignora as normas internacionais e emprega uma retórica que normaliza o uso da força e do arbítrio. O que está em jogo não é apenas o futuro da Ucrânia ou a legalidade da deportação de imigrantes, mas o próprio destino do sistema democrático ocidental.
A Ucrânia como moeda de troca
A fala de Donald Trump sobre a guerra na Ucrânia não pode ser subestimada. Ao sugerir que já está discutindo a divisão territorial do país com Putin, Trump legitima a invasão russa e ecoa uma lógica geopolítica perigosamente retrógrada: a de que grandes potências têm o direito de redesenhar fronteiras à sua conveniência.
Essa visão remete à política de apaziguamento adotada pelo Reino Unido e pela França nos anos 1930, quando líderes ocidentais, temendo um confronto direto com Adolf Hitler, aceitaram a anexação dos Sudetos pela Alemanha nazista. O resultado foi catastrófico: Hitler interpretou a concessão como um sinal de fraqueza e, em menos de um ano, invadiu a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial.
O paralelo com Putin é evidente. Desde 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia, Moscou vem testando os limites da resposta ocidental. A invasão da Ucrânia em 2022 foi apenas o capítulo mais agressivo dessa estratégia. Se a Rússia perceber que líderes como Trump estão dispostos a aceitar novas concessões, o risco de uma nova escalada militar aumenta exponencialmente. Afinal, se a Ucrânia pode ser negociada, por que não os países bálticos? Ou mesmo a Polônia?
Como afirmou o historiador Timothy Snyder, especialista em autoritarismo e política russa, “Putin não aceita fronteiras. Ele aceita apenas esferas de influência”. Se Trump efetivamente negociar a divisão da Ucrânia, estará abrindo um precedente perigoso para a estabilidade global.
A derrota em Kursk e o enfraquecimento de Zelensky
As declarações de Trump vêm no momento em que a Ucrânia sofre um revés militar significativo: a retomada da região de Kursk pela Rússia. Com cerca de 70 mil soldados, incluindo reforços norte-coreanos, as tropas russas expulsaram os ucranianos de uma área estratégica de 500 quilômetros quadrados. A perda de Kursk não apenas reduz o território controlado por Kiev, mas também enfraquece a posição de Volodymyr Zelensky em qualquer negociação de paz.
Esse movimento russo evidencia um dado fundamental: mesmo com sanções e isolamento internacional, Putin continua sendo capaz de sustentar sua ofensiva militar. A ajuda militar ocidental à Ucrânia, embora crucial, tem sido insuficiente para uma vitória definitiva. Se Trump voltar ao poder e cortar o apoio a Kiev, como já sugeriu, a Ucrânia poderá enfrentar uma situação semelhante à do Afeganistão em 2021, quando os EUA retiraram suas tropas e o Talibã reassumiu o controle do país em questão de semanas.
Zelensky, portanto, precisa lidar não apenas com o avanço militar russo, mas também com a erosão do apoio ocidental. Para Putin, a estratégia é clara: ganhar tempo e desgastar a Ucrânia até que um governo mais alinhado a Moscou surja em Washington.
Trump contra a Justiça
Enquanto Trump sugere dividir a Ucrânia, ele também desafia frontalmente a Justiça americana ao utilizar uma lei de 1798 para deportar imigrantes sem qualquer devido processo legal. A Lei de Inimigos Estrangeiros foi criada em um contexto de guerra e usada poucas vezes na história dos Estados Unidos – notavelmente para justificar a detenção de mais de 120 mil nipo-americanos durante a Segunda Guerra Mundial.
Ao invocá-la para expulsar supostos membros da gangue Tren de Aragua, Trump revive um dos episódios mais vergonhosos da história americana. A medida foi tomada sem transparência e em total desrespeito a uma decisão judicial que suspendeu as deportações. Mesmo após a ordem do juiz James E. Boasberg, um avião já no ar seguiu viagem para El Salvador, onde os deportados foram presos sob um acordo entre Trump e Nayib Bukele.
Essa postura se alinha à tendência crescente de líderes populistas desafiando o Estado de Direito. Jair Bolsonaro, por exemplo, repetidamente atacou o Supremo Tribunal Federal e incentivou seus apoiadores a desobedecerem decisões judiciais. Viktor Orbán, na Hungria, consolidou seu poder enfraquecendo a independência do Judiciário. O mesmo padrão se repete na Turquia de Erdoğan e na Rússia de Putin.
A lógica é clara: para líderes populistas, a Justiça é um obstáculo a ser contornado. Como alerta o filósofo Jason Stanley em How Fascism Works, “quando um líder começa a minar as instituições legais, o autoritarismo já deixou de ser uma possibilidade e se tornou um processo em andamento”.
O destino da democracia ocidental
Os eventos recentes envolvendo Trump não podem ser vistos de forma isolada. Eles são sintomas de um fenômeno maior: a crise da democracia liberal. A ascensão de líderes autoritários, o enfraquecimento do direito internacional e a normalização do desrespeito às leis indicam que o mundo está à beira de uma nova era de instabilidade.
A guerra na Ucrânia não é apenas um conflito regional, mas um teste para a ordem global estabelecida após 1945. Se Trump e outros líderes ocidentais aceitarem a lógica de Putin e permitirem a divisão da Ucrânia, estarão legitimando a lei do mais forte. Da mesma forma, se os Estados Unidos permitirem que um ex-presidente desafie a Justiça sem consequências, a própria estrutura do Estado de Direito estará em risco.
Diante desse cenário, resta a pergunta: as democracias serão capazes de se defender, ou sucumbirão ao avanço do autoritarismo? Como advertiu Dalmo Dallari, “nenhuma democracia morre de um dia para o outro – ela se desfaz aos poucos, quando aqueles que deveriam defendê-la hesitam”.
O mundo está assistindo. E o futuro da liberdade pode depender das decisões que forem tomadas agora.
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