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Mundo

Trump se apropria de petróleo venezuelano e encurrala o país

Rússia entra em cena e alerta para efeitos globais da escalada dos EUA na região

Publicado em 17/12/2025 12:50 - Semana On

Divulgação The Intercept Brasil

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na noite de ontem (16) a designação do governo da Venezuela, liderado por Nicolás Maduro, como uma “organização terrorista estrangeira”, ao mesmo tempo em que declarou ter imposto um cerco naval completo ao país sul-americano. Em publicação na rede Truth Social, Trump afirmou que não recuará até que Caracas devolva aos EUA “todo o petróleo, terras e outros bens que nos roubaram”, numa escalada retórica e militar que amplia o risco de confronto direto na região.

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Segundo Trump, a Venezuela estaria “completamente cercada pela maior armada já reunida na história da América do Sul”, um bloqueio que, segundo ele, tende a se intensificar. O presidente norte-americano disse ter ordenado “um bloqueio total e completo de todos os petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela” e acusou o governo Maduro, sem apresentar provas, de envolvimento com “terrorismo, tráfico de drogas e tráfico de pessoas”.

A declaração ocorre em meio a um aumento concreto da pressão militar e econômica sobre Caracas. Dias antes, forças dos Estados Unidos apreenderam o petroleiro Skipper na costa venezuelana, o primeiro navio de petróleo capturado fisicamente pelos EUA desde a imposição de sanções ao setor petrolífero do país, em 2017. O episódio produziu efeito imediato: segundo informações divulgadas no dia 15/12, um navio-tanque com carga de nafta proveniente da Rússia e outros quatro petroleiros que buscariam petróleo bruto venezuelano deram meia-volta após a apreensão.

A ofensiva atinge o ponto vital da economia venezuelana. O petróleo responde por cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e por aproximadamente 80% de suas exportações totais, segundo dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). A China absorve cerca de 80% do petróleo exportado por Caracas. Ainda de acordo com a Opep, a Venezuela elevou sua produção em cerca de 25% nos últimos dois anos, crescimento sustentado, em grande medida, por rotas clandestinas de exportação.

Essas rotas conectam Venezuela, Irã e Rússia e se expandiram após 2022, quando Moscou passou a enfrentar embargos severos em razão da invasão da Ucrânia. O Skipper, apreendido em 10 de dezembro por ordem de um juiz norte-americano, havia sido sancionado pelos EUA ainda em 2022, quando operava sob o nome MT/Adisa, acusado de integrar uma rede clandestina de transporte de petróleo para a Guarda Revolucionária do Irã e para o Hezbollah.

Dados de rastreamento mostram que o navio manipulava seu sistema de identificação automática, simulando deslocamentos em zigue-zague fisicamente impossíveis, numa tentativa de ocultar sua posição real enquanto transportava uma carga avaliada em dezenas de milhões de dólares. A operação culminou com helicópteros do Pentágono sobrevoando a embarcação e soldados norte-americanos descendo de rapel a cerca de 600 quilômetros a noroeste da posição indicada pelos localizadores, próximo à costa venezuelana.

A empresa de inteligência marítima Windward informou que, nos últimos meses, o Skipper teria transportado petróleo iraniano para a China e possivelmente recebido carga ilícita da Rússia. Documentos vazados da estatal PDVSA à Associated Press indicam que ao menos metade da carga apreendida tinha Cuba como destino. Segundo a Windward, havia cerca de 30 petroleiros sancionados operando nas proximidades da Venezuela na semana passada.

“Existem centenas de petroleiros sem bandeira e apátridas que têm sido uma fonte vital de receitas para regimes como o de Maduro, o Irã e o Kremlin”, afirmou Michelle Weise Bockmann, analista sênior da Windward, em declaração à Associated Press. “Eles não podem mais operar livremente”, completou.

Paralelamente à apreensão naval, a PDVSA denunciou ter sido alvo de um ataque cibernético atribuído aos Estados Unidos, ampliando o quadro de uma ofensiva multidimensional que vai além das sanções econômicas tradicionais. Washington, por sua vez, afirma que suas ações visam combater o narcotráfico e sustenta que Maduro lideraria o chamado Cartel de los Soles — acusação rechaçada por Caracas e questionada por organizações de direitos humanos, especialmente após cerca de 20 ataques militares norte-americanos a embarcações no Pacífico e no Caribe nos últimos meses, que teriam resultado em mais de 80 mortes consideradas ilegais por essas entidades.

O governo venezuelano reagiu com dureza ao anúncio do bloqueio naval. Em comunicado oficial, Caracas afirmou que denunciará os Estados Unidos às Nações Unidas por violação do direito internacional, do livre comércio e da livre navegação. “A verdadeira intenção dos Estados Unidos sempre foi se apropriar do petróleo, das terras e dos minerais do país por meio de gigantescas campanhas de mentiras e manipulações”, diz a nota, que conclui: “jamais voltaremos a ser colônia de nenhum império”.

O presidente Nicolás Maduro reforçou o discurso de resistência. “A Venezuela está há 25 semanas denunciando, enfrentando e derrotando uma campanha de agressão multidimensional que vai desde o terrorismo psicológico até a pirataria dos corsários que invadiram o petróleo”, afirmou na terça-feira. Segundo ele, o país estaria preparado para “acelerar a marcha de uma revolução profunda que dê o poder ao povo”.

Do ponto de vista econômico, a captura física de petroleiros representa uma inflexão relevante. Diferentemente das sanções financeiras, a apreensão de navios eleva drasticamente o custo e o risco de operar com petróleo venezuelano. De acordo com a agência Reuters, ao menos uma transportadora suspendeu viagens de três navios recém-carregados, totalizando quase 6 milhões de barris do petróleo tipo Merey, o principal produto de exportação do país. “Os barris haviam acabado de ser carregados e estavam prestes a partir para a Ásia. Agora, as viagens foram canceladas e os petroleiros estão esperando na costa venezuelana, pois é mais seguro”, relatou à Reuters um executivo do setor.

Especialistas alertam que a redução do número de compradores dispostos a assumir o risco pode derrubar o preço do petróleo venezuelano no mercado clandestino, afetando diretamente a principal fonte de receita do governo Maduro. Ao mesmo tempo, o endurecimento do cerco pode pressionar os preços internacionais do petróleo, elevando custos de energia e combustíveis — um efeito colateral potencialmente sensível para o próprio Trump no cenário doméstico dos Estados Unidos.

Há ainda um componente estratégico de longo prazo. Uma eventual mudança de regime em Caracas poderia abrir o setor petrolífero venezuelano ao capital norte-americano. Atualmente, apenas a Chevron mantém operações no país sem ser diretamente afetada pela política anti-Maduro da Casa Branca. O avanço do bloqueio naval e das apreensões sugere que Washington está disposto a ir além da retórica e das sanções, redefinindo as regras do confronto com a Venezuela — com consequências que extrapolam o Caribe e alcançam o equilíbrio energético e geopolítico global.

Rússia entra em cena e alerta para efeitos globais

A escalada do confronto entre Estados Unidos e Venezuela ganhou um novo e relevante ator nesta quarta-feira (17), com a Rússia alertando que o aumento das tensões pode gerar “consequências imprevisíveis para todo o Ocidente”. A declaração, feita pelo Ministério das Relações Exteriores russo, ocorre na esteira do bloqueio naval anunciado por Donald Trump e da designação do governo de Nicolás Maduro como “organização terrorista estrangeira”, consolidando um cenário de polarização geopolítica que extrapola o Caribe.

Para Alexander Shchetinin, diretor do Departamento para a América Latina do Itamaraty russo, a situação representa um “erro crítico” com potencial de afetar todo o Hemisfério Ocidental. “Esperamos que seja evitada uma escalada ainda maior”, afirmou o diplomata, ao mesmo tempo em que reiterou o apoio de Moscou às políticas do governo Maduro “voltadas para a proteção dos interesses nacionais e da soberania da pátria”. Shchetinin também reconheceu que o povo venezuelano atravessa “tempos difíceis”, numa referência direta ao impacto das sanções e das operações militares dos EUA.

A manifestação russa não é episódica. Há uma semana, o presidente Vladimir Putin telefonou a Maduro para reafirmar o apoio político e diplomático da Rússia e garantir que “os canais de comunicação direta entre as duas nações permanecem permanentemente abertos”. Em maio, os dois países anunciaram uma reaproximação formal, com a assinatura de tratados de cooperação, especialmente nas áreas econômica, energética e comercial — ainda que sem detalhar os projetos envolvidos. O alinhamento reforça a leitura de que a Venezuela segue integrada a um eixo estratégico que inclui Moscou, Teerã e Pequim, justamente no momento em que Washington endurece sua ofensiva.

Internamente, Trump também enfrenta crescente pressão política. No Congresso dos Estados Unidos, parlamentares democratas e republicanos passaram a questionar abertamente a legalidade e os objetivos das operações militares contra navios venezuelanos, classificadas por críticos como um passo concreto rumo a uma guerra não autorizada. A Constituição americana atribui exclusivamente ao Congresso o poder de declarar guerra, e a campanha militar em curso — que já dura mais de três meses — resultou na morte de quase cem pessoas em águas do Caribe e do Pacífico, segundo dados citados por parlamentares e organizações de direitos humanos.

O secretário da Defesa, Pete Hegseth, tornou-se o principal alvo das críticas. Em entrevista à CNN, o senador republicano Rand Paul acusou o chefe do Pentágono de ter “mentido” ou demonstrado “incompetência” ao tratar dos ataques. A possibilidade de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a operação não está descartada. Em novembro, o Senado chegou a votar uma resolução que buscava impedir Trump de continuar os ataques sem autorização legislativa e reforçar os limites do poder presidencial para iniciar ações militares. A proposta foi rejeitada por margem mínima — 51 votos a 49 —, com apenas dois republicanos apoiando os democratas.

Enquanto isso, a Casa Branca avança em medidas práticas que aprofundam o cerco econômico. Em 10 de dezembro, Washington interceptou e apreendeu um navio sancionado pelo Departamento do Tesouro que havia acabado de sair da Venezuela carregado de petróleo, retendo tanto a embarcação quanto a carga. O governo Maduro classificou a ação como “roubo descarado”. Na sequência, os EUA anunciaram sanções contra seis empresas de transporte e seis navios-tanque adicionais. Atualmente, a Venezuela produz cerca de 930 mil barris de petróleo por dia, com a maior parte das exportações direcionada à China.

Esse endurecimento convive com uma relação ambígua entre Washington e Caracas. O governo Trump renovou, ainda que com mudanças, a licença concedida durante a administração Joe Biden à Chevron para operar na Venezuela. A empresa norte-americana responde por cerca de 10% da produção nacional, por meio de uma joint venture com a estatal PDVSA. Com as novas regras impostas por Trump, a Chevron pode exportar apenas os 50% que lhe cabem na parceria; a outra metade fica a cargo da Venezuela, que precisa buscar compradores por conta própria — justamente no momento em que o cerco naval torna essa tarefa mais arriscada e onerosa.

A escalada também se estendeu ao espaço aéreo. A Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) renovou o alerta para companhias que operam sobre a Venezuela, recomendando “cautela” diante da “piora da situação de segurança e do aumento da atividade militar”. Como resposta, a companhia panamenha Copa anunciou a prorrogação, até 15 de janeiro, da suspensão de seus voos de e para Caracas, ampliando o isolamento do país.

No plano regional, declarações recentes de Trump acenderam alarmes além das fronteiras venezuelanas. O presidente americano afirmou que ataques terrestres contra “narcoterroristas” ocorrerão “muito em breve” e não se limitariam ao território da Venezuela. Em outra fala, chegou a mencionar a possibilidade de ordenar ataques em solo mexicano. Em tom ameaçador, citou diretamente o presidente colombiano Gustavo Petro: “Petro vai se meter em grandes problemas se não acordar… Se não abrir os olhos, ele será o próximo”.

A resposta de Petro foi firme, porém diplomática. Em reunião com seu Conselho de Ministros, afirmou que Trump é “um homem muito mal informado sobre a Colômbia” e que isso o leva a atitudes “que não podem ser direcionadas a um presidente eleito democraticamente”. O colombiano convidou Trump a visitar o país para verificar pessoalmente as ações de combate ao narcotráfico. Em entrevista ao canal X, Petro apresentou dados concretos: 1.446 operações terrestres contra a máfia, 13 bombardeios contra líderes do tráfico e a apreensão de 2.700 toneladas de cocaína — “a maior apreensão da história mundial”, segundo ele, o equivalente a 32 bilhões de doses que não chegaram aos mercados consumidores.

Petro também criticou duramente os bombardeios de embarcações realizados pelos EUA. “Não é verdade que mísseis disparados contra barqueiros estejam combatendo narcoterroristas, quando os barqueiros são pessoas pobres”, disse, defendendo uma estratégia focada no rastreamento de capitais e bens dos chefões do narcotráfico, muitos deles vivendo fora da América Latina. O presidente colombiano ainda condenou a decisão de Trump de perdoar o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado por narcotráfico: “Negociar sentenças com narcotraficantes é função do sistema judiciário, não dos governos”.

No México, a presidente Claudia Sheinbaum também rejeitou de forma categórica qualquer possibilidade de intervenção estrangeira. “Eu jamais aceitaria uma intervenção estrangeira. Isso não vai acontecer”, afirmou a jornalistas em 10 de dezembro. A tensão bilateral aumentou após Trump ameaçar impor uma tarifa especial de 5% sobre importações mexicanas, caso o México não libere até o fim de 2025 cerca de 200 mil acres-pés de água — aproximadamente 65 bilhões de galões — para os Estados Unidos, no contexto de disputas sobre as bacias dos rios Grande, Colorado e Tijuana. Sheinbaum adotou um tom conciliador, afirmando que uma solução será buscada sem comprometer a população e a produção agrícola mexicana, mas deixou claro que a exigência é inviável no curto prazo.

O conjunto desses movimentos indica que a ofensiva de Washington contra a Venezuela deixou de ser um conflito bilateral e passou a redesenhar o tabuleiro político da América Latina. O alerta da Rússia, o desconforto crescente no Congresso dos EUA e a reação coordenada de líderes regionais sugerem que a estratégia de Trump pode gerar custos diplomáticos e estratégicos elevados — com impactos que, como advertiu Moscou, estão longe de ser previsíveis.

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