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Mundo

Trump reafirma guerra comercial, ameaça Brasil e polariza os EUA

Pronunciamento do presidente dos EUA ao Congresso marca nova escalada global e aprofunda crise política interna

Publicado em 05/03/2025 11:55 - Semana On

Divulgação CNN

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Na noite de terça-feira (4), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez seu primeiro discurso ao Congresso desde que assumiu seu segundo mandato, em uma fala marcada por nacionalismo econômico, confronto com a China, ameaças tarifárias a aliados, elogios à Rússia e ataques à diversidade. Em um pronunciamento de uma hora e quarenta minutos – o mais longo desde 1964 –, Trump reforçou o tom beligerante de sua administração, deixando claro que seu governo não buscará conciliação, mas sim a imposição de sua agenda política e econômica de forma unilateral.

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Em meio ao aumento da tensão geopolítica, o Brasil emergiu como um dos alvos do protecionismo trumpista. O republicano criticou o país por supostamente impor tarifas injustas aos produtos americanos e sinalizou que medidas de retaliação comercial estão em seu horizonte. Paralelamente, a guerra comercial entre China e EUA se intensificou, criando riscos e oportunidades para a economia brasileira. No front doméstico, o discurso foi recebido com resistência feroz da oposição democrata, transformando a sessão legislativa em um espelho da polarização extrema que domina os Estados Unidos.

A fala de Trump explicitou o desmonte de pactos comerciais, a escalada protecionista e o aprofundamento de disputas geopolíticas. Ao mesmo tempo, revelou um líder cada vez mais isolado internacionalmente, mas fortalecido internamente entre sua base republicana, que o enxerga como um “messias” político. Seu discurso evidenciou um país à beira de um novo ciclo de instabilidade e reafirmou o retorno de uma postura de confronto dos Estados Unidos com o mundo.

Brasil no alvo: protecionismo e retaliação comercial

A menção explícita ao Brasil por parte de Trump foi interpretada como um alerta pelo governo Lula. O presidente americano acusou o país de adotar práticas desleais no comércio internacional e incluiu o Brasil em uma lista de nações que, segundo ele, impõem tarifas desproporcionais aos produtos americanos. O discurso de Trump reforça a tendência protecionista da sua administração, já evidenciada na imposição de tarifas de até 25% sobre importações do México, Canadá e China.

A realidade, no entanto, contradiz as alegações do republicano. Dados da Câmara de Comércio Brasil-EUA mostram que a tarifa média brasileira sobre produtos americanos é de apenas 2,7%. Além disso, os Estados Unidos acumulam um superávit comercial superior a US$ 200 bilhões na relação com o Brasil, o que enfraquece a narrativa de que os americanos estariam sendo prejudicados.

A referência específica ao Brasil surge num momento em que Trump busca consolidar sua base eleitoral nos estados produtores de etanol, como Iowa e Nebraska. Durante o governo Bolsonaro, o Brasil eliminou as tarifas sobre o etanol americano, uma medida revertida por Lula em seus primeiros meses no cargo, restabelecendo uma taxa de 18% sobre o biocombustível importado dos EUA. Trump, em resposta, ameaça impor novas tarifas sobre produtos brasileiros, o que pode afetar as exportações agrícolas e impactar o setor energético.

O governo brasileiro avalia que o protecionismo trumpista pode ser usado como instrumento de barganha em outras frentes, como nas regulações sobre plataformas digitais e no alinhamento do Brasil com a China. Há um temor crescente de que o Brasil seja pressionado economicamente por manter uma relação próxima com Pequim, um dos principais adversários estratégicos dos EUA na nova ordem global.

China reage e guerra comercial se agrava

A escalada comercial entre Washington e Pequim atingiu um novo patamar com a imposição de tarifas adicionais de 10% sobre produtos chineses por parte do governo Trump. A justificativa oficial foi a crise do fentanil, mas Pequim rejeitou a acusação de responsabilidade na epidemia de opioides nos EUA, classificando as sanções como “chantagem e difamação”. A resposta chinesa foi direta e contundente: “Se a guerra é o que os EUA querem, estamos prontos para lutar até o fim”, declarou a embaixada chinesa em Washington.

Pequim reagiu com medidas retaliatórias, impondo sobretaxas a produtos agrícolas americanos, incluindo soja, milho e carne suína – setores fundamentais para a economia dos EUA. Essa decisão abre uma janela de oportunidade para o Brasil, que se torna um fornecedor prioritário para a China. Durante a primeira guerra comercial entre Trump e Pequim, entre 2017 e 2020, o Brasil já havia se beneficiado, expandindo suas exportações de grãos e proteínas para o mercado chinês.

Contudo, a instabilidade global gerada pelo embate entre as duas maiores economias do mundo pode ter efeitos colaterais. O aumento da demanda chinesa por produtos brasileiros pode pressionar a inflação interna, encarecendo alimentos no mercado doméstico. Para o economista Carlos Thadeu Freitas Filho, da BGC Liquidez, “o Brasil vai acabar atendendo ainda mais a demanda externa, o que pode reduzir a oferta interna e pressionar os preços no mercado doméstico”.

Além disso, a guerra comercial coloca em risco a estabilidade financeira global. O mercado acionário reagiu negativamente ao discurso de Trump, com quedas nas bolsas e alta no dólar, refletindo o temor de uma recessão mundial caso a disputa tarifária saia do controle.

Aproximação com a Rússia e crise na Ucrânia

Outro ponto polêmico do discurso de Trump foi sua abordagem sobre a guerra na Ucrânia. O republicano afirmou que Kiev estaria disposta a assinar um acordo de exploração de minerais estratégicos – uma afirmação que não foi confirmada pelo governo ucraniano. A fala gerou preocupações entre aliados da OTAN, pois indicaria que Trump pode estar preparando o terreno para uma retirada do apoio americano a Kiev.

A Casa Branca já suspendeu o envio de novos pacotes de ajuda militar à Ucrânia, o que fortalece a posição russa no conflito. Para líderes europeus, essa guinada na política externa dos EUA representa um risco existencial para a segurança do continente. A sugestão de Trump de que Vladimir Putin se sentiu encorajado a invadir a Ucrânia por causa da retirada americana do Afeganistão em 2021 reforçou ainda mais a percepção de que o republicano pode estar inclinado a um alinhamento com Moscou.

Polarização extrema nos EUA

No plano doméstico, o discurso foi recebido com forte resistência. A oposição democrata denunciou a radicalização do governo, acusando Trump de desmontar as instituições democráticas e governar de forma autoritária. Protestos e interrupções marcaram a sessão, com deputados segurando cartazes com mensagens como “Isso não é normal” e “Musk rouba”, em referência ao bilionário Elon Musk, que acompanhava o evento e tem sido um dos principais aliados de Trump na agenda de cortes de gastos.

Deputados democratas abandonaram a sessão em protesto, enquanto senadores como Bernie Sanders saíram antes do fim do discurso. A cena foi um retrato da divisão política que assola os Estados Unidos, onde o governo Trump é visto como um elemento desestabilizador da democracia americana.

O mundo à beira do caos

O discurso de Trump deixou claro que os próximos anos serão marcados por instabilidade global e polarização doméstica. Sua postura agressiva em relação a aliados e adversários evidencia um governo que privilegia a confrontação em detrimento do diálogo. O impacto dessas políticas será sentido não apenas nos Estados Unidos, mas no Brasil e no restante do mundo.

Se, por um lado, o Brasil pode se beneficiar da guerra comercial, por outro, enfrenta o risco de retaliações protecionistas e de um agravamento da inflação. Com Trump no poder e o cenário geopolítico em ebulição, o futuro da economia global parece cada vez mais incerto.

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