Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Presidente americano corta ajuda militar à Ucrânia e abala aliança ocidental
Publicado em 04/03/2025 12:07 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A imposição de tarifas sobre importações sempre foi uma ferramenta de política econômica utilizada por governos para proteger indústrias nacionais. No entanto, a estratégia adotada por Donald Trump representa um passo além: é uma declaração de guerra comercial. A recente decisão de impor tarifas de 25% sobre produtos do México e do Canadá e de 10% a 20% sobre produtos chineses provocou reações imediatas.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
A justificativa do governo norte-americano se apoia em duas frentes: combater a imigração ilegal e o tráfico de fentanil – um opioide sintético que tem gerado uma grave crise de saúde pública nos Estados Unidos. Trump acusa a China de facilitar o fluxo de substâncias químicas usadas na fabricação da droga e exige que Canadá e México tomem medidas mais rígidas contra o tráfico e a imigração.
No entanto, os países afetados não demoraram a responder. O governo chinês anunciou tarifas de até 15% sobre produtos agrícolas americanos e restringiu a atuação de 25 empresas norte-americanas em seu mercado. O Canadá impôs tarifas retaliatórias sobre quase US$ 100 bilhões em importações dos EUA. O México, por sua vez, deve anunciar medidas de resposta em breve.
A decisão também atingiu os mercados financeiros. A incerteza sobre o futuro do comércio global fez as bolsas americanas despencarem, enquanto o dólar disparou em relação ao peso mexicano e ao dólar canadense.
O preço das retaliações
A nova rodada de tarifas representa um sério risco para a economia global. Segundo economistas, o impacto pode se traduzir em inflação persistente nos Estados Unidos, repassando custos para os consumidores e desacelerando o crescimento. O aumento das tarifas sobre produtos agrícolas, por exemplo, pode prejudicar diretamente fazendeiros norte-americanos, uma base eleitoral tradicionalmente alinhada com Trump.
Joseph Stiglitz, Nobel de Economia, já alertava sobre os riscos da guerra comercial iniciada durante o primeiro mandato de Trump. Em artigo publicado no Project Syndicate, Stiglitz escreveu que “as tarifas não apenas encarecem os produtos para os consumidores, mas também prejudicam empresas que dependem de insumos importados para suas cadeias produtivas”.
Além disso, a imposição de tarifas sobre parceiros comerciais estratégicos pode ter efeitos duradouros na dinâmica global. Canadá e México são os maiores importadores de produtos dos EUA, representando mais de US$ 900 bilhões anuais em comércio bilateral. A introdução de barreiras comerciais prejudica diretamente a economia americana, comprometendo sua integração com seus vizinhos.
A geopolítica das tarifas e a reação global
A estratégia tarifária de Trump também reflete uma mudança de postura dos Estados Unidos no cenário internacional. Se no passado o país foi um dos principais arquitetos das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), agora adota um discurso que desafia suas normas.
O Ministério das Finanças da China criticou duramente as medidas americanas, acusando os EUA de violarem “seriamente as regras da OMC e minarem a base da cooperação econômica global”. Pequim já entrou com uma ação contra Washington na entidade, argumentando que as tarifas representam um descumprimento dos acordos comerciais internacionais.
No Canadá, o primeiro-ministro Justin Trudeau fez um pronunciamento enérgico, classificando as tarifas como “completamente injustificáveis”. “O Canadá não permitirá que essa decisão fique sem resposta”, afirmou, anunciando medidas retaliatórias imediatas. A ministra das Relações Exteriores, Mélanie Joly, reforçou a posição do governo canadense, lembrando que os dois países mantêm uma relação comercial mutuamente benéfica há décadas.
Já no México, a presidente Claudia Sheinbaum adotou um tom mais cauteloso, afirmando esperar um entendimento diplomático com os Estados Unidos. No entanto, medidas de retaliação devem ser anunciadas nos próximos dias.
A história se repete
O protecionismo comercial não é novidade na política econômica norte-americana. Durante a Grande Depressão de 1929, os Estados Unidos aprovaram a Lei Smoot-Hawley, que elevou tarifas sobre importações na tentativa de proteger a indústria nacional. O resultado foi catastrófico: outros países retaliaram, reduzindo drasticamente o comércio global e agravando a crise econômica mundial.
Especialistas alertam que a atual política de Trump segue um caminho semelhante. Ao priorizar medidas protecionistas e ignorar as consequências da interdependência econômica global, os EUA correm o risco de desencadear um novo período de retração comercial e instabilidade.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) já expressou preocupação com a escalada das tarifas. Em relatório recente, a instituição alertou que “um ambiente de guerra comercial prolongada pode levar a uma redução significativa no crescimento global, com impactos negativos tanto para economias avançadas quanto emergentes”.
As tarifas de Trump são legais?
A política tarifária de Donald Trump não apenas reacende tensões comerciais globais, mas também levanta questões jurídicas complexas. Até que ponto essas tarifas são compatíveis com as regras do comércio internacional? Países afetados, como China, Canadá e México, já recorreram à Organização Mundial do Comércio (OMC) para contestar as medidas. No entanto, o próprio funcionamento da OMC está comprometido, em grande parte devido ao bloqueio imposto pelos EUA à nomeação de novos juízes no órgão de apelação.
“Trump está desrespeitando a lei comercial em vigor”, afirma o economista Jürgen Matthes, chefe do departamento de política econômica internacional do Instituto Econômico Alemão (IW). “As tarifas que ele anunciou contra a China, a União Europeia e outros países claramente violam as regras do comércio internacional. Mas isso não parece incomodá-lo.”
A frustração com a OMC é crescente. Em tese, os países prejudicados podem contestar as tarifas na entidade, como já fez a China. No entanto, o tribunal de arbitragem da organização está inoperante há anos, justamente porque os EUA bloquearam a renovação de sua estrutura. Sem um órgão de apelação funcionando, mesmo que a OMC julgue as tarifas ilegais, não haverá uma decisão vinculativa. E, mesmo que houvesse, dificilmente o governo Trump a cumpriria.
Para Canadá e México, a situação é ainda mais grave. Além da violação das regras da OMC, as tarifas impostas pelo governo americano também contradizem um acordo de livre comércio ratificado pelo próprio Congresso dos EUA: o USMCA (United States-Mexico-Canada Agreement), sucessor do NAFTA. Ainda assim, Trump encontrou uma brecha para justificar suas ações.
A professora de direito comercial Kathleen Claussen, da Universidade de Georgetown, explica que a administração Trump se ampara na Lei Internacional de Poderes Econômicos de Emergência (IEEPA), de 1977. Essa legislação permite que o presidente dos EUA interfira no comércio internacional caso declare uma “emergência nacional”. Assim, para contornar as regras da OMC e do próprio USMCA, Trump emitiu decretos alegando que a imigração mexicana e o tráfico de fentanil pelo Canadá constituem ameaças à segurança dos EUA.
“É uma estratégia deliberada”, aponta Claussen. “Trump não está interessado nas tarifas em si, mas na sua função como ferramenta de barganha. Ele usa o vai e vem de tarifas como forma de criar incerteza e manter a pressão sobre seus parceiros comerciais.”
Essa tática já foi aplicada diversas vezes. Em fevereiro, Trump anunciou tarifas punitivas, depois as suspendeu por 30 dias, apenas para reintroduzi-las em março. Da mesma forma, aplicou tarifas sobre aço e alumínio e, em seguida, prometeu removê-las sob certas condições. O resultado é um ambiente de instabilidade que beneficia seu poder de negociação, mas desestrutura as cadeias produtivas e os mercados globais.
A União Europeia, por sua vez, já sinalizou que responderá de forma dura caso Washington imponha tarifas sobre produtos europeus, especialmente no setor automotivo. “Não podemos simplesmente aceitar tudo”, adverte Matthes, reforçando que, sem uma solução negociada, a escalada tarifária pode resultar em uma guerra comercial de proporções ainda maiores.
Diante desse cenário, o mundo se vê refém da incerteza. Com a OMC enfraquecida e acordos comerciais sendo contornados por manobras políticas, os fundamentos do comércio internacional são colocados em xeque. Resta saber até quando essa estratégia será sustentável – e quais serão as consequências econômicas e políticas no longo prazo.
O futuro da economia global
A nova ofensiva tarifária de Trump pode ter repercussões profundas, não apenas para os países diretamente envolvidos, mas para toda a economia global. A pressão inflacionária nos Estados Unidos, a desestabilização dos mercados financeiros e o enfraquecimento das relações comerciais entre nações interdependentes são alguns dos riscos iminentes.
O cenário internacional exige soluções baseadas no diálogo e na cooperação. No entanto, a postura unilateral dos Estados Unidos pode dificultar a construção de acordos multilaterais e ampliar as tensões geopolíticas.
O mundo já viu as consequências de políticas protecionistas no passado. Resta saber se os líderes globais aprenderam com a história ou se a repetirão.
Trump corta ajuda militar à Ucrânia e abala aliança ocidental
A geopolítica global acaba de sofrer um abalo sísmico. A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suspender a ajuda militar à Ucrânia representa muito mais do que um revés para Kiev: trata-se de um realinhamento estratégico que pode redefinir os contornos da política internacional nos próximos anos.
Ao interromper o envio de mais de 1 bilhão de dólares em armas e equipamentos para a Ucrânia, Washington expõe um distanciamento crescente em relação à Europa e sinaliza uma aproximação calculada com Moscou. O gesto ocorreu após um confronto público entre Trump e o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, na Casa Branca, onde o americano não escondeu seu desejo de encerrar rapidamente a guerra – nos seus próprios termos.
“Talvez alguém não queira fazer um acordo, e se alguém não quiser fazer um acordo, não acho que essa pessoa ficará por aqui por muito tempo”, declarou Trump, em tom de ameaça. A fala ecoou não apenas como um ultimato a Zelenski, mas como um aviso ao mundo: os Estados Unidos não estão mais dispostos a manter sua política tradicional de apoio irrestrito à Ucrânia.
A reação foi imediata. A Europa se viu diante de uma encruzilhada histórica. Durante uma reunião emergencial em Londres, líderes do Reino Unido, França e Alemanha, além de outros aliados, debateram formas de garantir a segurança ucraniana sem a participação ativa dos EUA. O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, foi categórico ao afirmar que “o risco de guerra no continente europeu nunca foi tão alto”, citando a aproximação da linha de frente russa e o despreparo europeu para lidar com um cenário de hostilidades prolongadas.
As perguntas que emergem dessa nova realidade são inquietantes: estaria a Ucrânia sendo sacrificada em um jogo de grandes potências? A Europa pode sustentar sua defesa sem os EUA? Trump e Putin estão redesenhando o tabuleiro geopolítico à revelia dos aliados tradicionais do Ocidente?
O que Trump quer?
Desde sua volta à Casa Branca, há seis semanas, Trump tem dado sinais claros de que sua política externa será marcada por pragmatismo extremo e um desprezo pelo conceito tradicional de alianças estratégicas. Em vez de fortalecer a relação transatlântica, ele vem aprofundando as fissuras existentes entre os EUA e a Europa.
Em sua visão, o maior erro da política externa americana nas últimas décadas foi ter permitido que a União Europeia crescesse como um ator econômico e político autônomo. “A UE foi criada para ferrar com os EUA”, declarou Trump, escancarando seu desprezo pelas instituições multilaterais. Para ele, os europeus não são aliados confiáveis, mas concorrentes econômicos que precisam ser contidos.
Na prática, essa visão se traduz em medidas concretas. Além da suspensão da ajuda à Ucrânia, Trump já ameaçou impor tarifas sobre aço, alumínio e automóveis europeus. Seu objetivo é claro: enfraquecer a coesão da União Europeia e garantir que os EUA sigam ditando as regras do jogo.
Outro fator central na estratégia de Trump é sua aproximação com Vladimir Putin. Durante sua campanha, ele já havia insinuado que poderia rever o compromisso dos EUA com a OTAN e até mesmo “encorajar a Rússia a fazer o que quiser” caso os europeus não aumentassem seus gastos militares. Agora, na presidência, ele transforma essa retórica em ação.
O historiador Norbert Frei, da Universidade de Jena, vê nessa movimentação um paralelo com grandes momentos de reconfiguração da ordem mundial: “O objetivo é claro: um triunvirato global com Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin”.
Essa nova arquitetura geopolítica – em que EUA, Rússia e China dominariam a política internacional como grandes potências autônomas – excluiria deliberadamente a Europa e forçaria outros países a escolherem lados.
Para a Ucrânia, esse cenário é devastador. O apoio militar americano era a espinha dorsal da resistência contra a Rússia. Sem ele, Kiev se vê em uma posição de vulnerabilidade extrema, ainda que Reino Unido, França e Alemanha tenham prometido aumentar seu auxílio.
O Instituto para Estudos da Guerra (ISW) alerta que, caso o apoio militar ocidental diminua, a Rússia pode não apenas garantir uma vitória na Ucrânia, mas também avançar sobre outras ex-repúblicas soviéticas, como Estônia, Letônia e Lituânia – todas membros da OTAN e da União Europeia.
Europa: um continente à deriva?
A crise gerada pela decisão de Trump revelou uma verdade incômoda: a Europa não está preparada para se defender sozinha. Durante décadas, o continente delegou sua segurança aos Estados Unidos, confiando na promessa de defesa coletiva da OTAN. Agora, essa garantia parece mais incerta do que nunca.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, reconheceu que a Europa precisa assumir um papel mais ativo na sua própria defesa. Durante a reunião em Londres, ele anunciou um pacote de 1,6 bilhão de libras para fornecer mísseis antiaéreos à Ucrânia e enfatizou a necessidade de fortalecer o aparato militar europeu.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também destacou a urgência da situação, propondo um plano de rearmamento europeu que pode chegar a 500 bilhões de euros nos próximos dez anos. No entanto, financiar essa expansão militar em meio a restrições orçamentárias será um desafio imenso.
O chanceler alemão Olaf Scholz ressaltou que, mesmo em tempos de paz, a Ucrânia precisará manter um exército grande e bem equipado – algo que, sem o apoio financeiro dos EUA, pode se tornar inviável.
O dilema europeu é claro: investir massivamente em defesa e buscar um caminho de maior autonomia estratégica ou continuar dependente de um parceiro americano cada vez mais imprevisível.
Sigmar Gabriel, ex-ministro do Exterior da Alemanha, foi contundente ao afirmar que Trump enxerga a Europa como um obstáculo, e não como um aliado:
“Tenho certeza de que ele quer enfraquecer ou até mesmo destruir a Europa, porque nós somos muito grandes quando nos mantemos unidos. E isso o incomoda” (Augsburger Allgemeine, 2025).
O futuro da Ucrânia – e da ordem global
A crise atual sugere que o conflito na Ucrânia não é apenas uma guerra regional, mas um sintoma de uma transformação profunda na ordem mundial. A decisão de Trump pode ser o primeiro passo para um novo equilíbrio global, onde grandes potências negociam diretamente entre si, sem considerar os interesses dos países menores.
O ex-ministro Sigmar Gabriel comparou esse cenário à Conferência de Yalta, onde, no final da Segunda Guerra, EUA, União Soviética e Reino Unido decidiram o destino da Europa sem consultar os países diretamente afetados:
“Trump tem uma espécie de ‘Yalta 2.0’ na cabeça, em que os ‘valentões’ da política global traçam suas zonas de influência, e os menores que se virem” (Augsburger Allgemeine, 2025).
A questão agora não é apenas o futuro da Ucrânia, mas o futuro da Europa – e, por extensão, do mundo. Estaremos assistindo à fragmentação da ordem internacional construída desde 1945? Ou a Europa conseguirá se reorganizar e garantir sua segurança sem depender dos EUA?
A resposta pode definir o curso da geopolítica global pelas próximas décadas.
Oscar critica política externa de Trump na Palestina e na Ucrânia
Deixe um comentário