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Mundo
Acusações contra China e Rússia, e promessa de retomar testes nucleares colocam o mundo em alerta
Publicado em 03/11/2025 1:03 - Semana On
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Em meio a uma ordem unilateral de retomada dos testes nucleares pelos Estados Unidos, acusações infundadas contra China e Rússia, e reações alarmadas da comunidade internacional, o presidente Donald Trump reacende uma das maiores ameaças à humanidade: a corrida nuclear. O retorno à lógica bélica da Guerra Fria não apenas abala acordos de contenção assinados nas últimas décadas, mas também acende o alerta máximo sobre os riscos existenciais que rondam o planeta — da destruição em massa ao colapso ambiental global.
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A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de ordenar a retomada dos testes de armas nucleares — suspensos desde 1992 — provocou uma onda de indignação e temor entre especialistas, governos estrangeiros e sobreviventes das bombas de Hiroshima e Nagasaki. Em entrevista à emissora CBS, Trump acusou China e Rússia de conduzirem “testes nucleares secretos”, justificando que os EUA deveriam fazer o mesmo. “Vamos fazer testes porque outros estão fazendo, como a Coreia do Norte e o Paquistão”, afirmou. Nenhuma prova foi apresentada.
A China negou veementemente as acusações. “A China sempre seguiu o caminho do desenvolvimento pacífico e respeita seu compromisso de suspender os testes nucleares”, declarou Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores. Já a Rússia, por meio de Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, classificou os comentários de Trump como um equívoco, reforçando que os recentes testes de armamentos não envolvem explosões nucleares.
O movimento de Trump, porém, é mais do que uma retórica belicista: é um ataque direto ao Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT), assinado pelos EUA em 1996, embora jamais ratificado pelo Congresso americano. O tratado, fundamental para a contenção global de explosões atômicas, encontra-se em risco desde 2023, quando Vladimir Putin revogou sua ratificação pela Rússia, equiparando-se à ambiguidade dos Estados Unidos.
O retorno da ambiguidade estratégica
Nos tempos sombrios da Guerra Fria, o mundo viveu sob a lógica da “destruição mútua assegurada”, na qual qualquer ataque nuclear significava o aniquilamento recíproco. Com a dissolução da União Soviética, essa lógica parecia superada. Contudo, a guerra na Ucrânia, as ameaças veladas de Putin e agora o discurso agressivo de Trump reacendem a ambiguidade estratégica que dominou o século XX. O jornal francês Le Parisien destacou que, com esse cenário, “os países não falam mais em se desarmar, mas reaprendem a viver sob ameaça”.
Embora o governo americano tente amenizar, afirmando que os testes seriam “não críticos” — sem explosões nucleares, segundo o secretário de Energia Chris Wright —, especialistas alertam para o efeito simbólico e político devastador de romper um silêncio de mais de três décadas. JD Vance, vice-presidente dos EUA, reforçou a intenção: “Esses testes são parte importante da segurança americana, para garantir que esse arsenal funcione corretamente”.
Memória viva da destruição
As reações mais contundentes vieram do Japão. O grupo Nihon Hidankyo, que representa os sobreviventes das bombas atômicas e foi laureado com o Prêmio Nobel da Paz em 2024, classificou a decisão de Trump como “totalmente inaceitável”. A carta de protesto enviada à embaixada dos EUA ressalta: “Despreza os esforços de pessoas em todo o mundo que têm suado sangue e lágrimas para realizar um mundo sem armas nucleares”.
O prefeito de Nagasaki, ecoando essa indignação, afirmou que a diretiva ignora décadas de sofrimento humano. Já o prefeito de Hiroshima, Shiro Suzuki, ironizou a proposta da primeira-ministra japonesa de indicar Trump ao Nobel da Paz, perguntando se ele ainda seria digno da honraria.
Essas vozes carregam o peso de uma memória concreta: cerca de 214 mil mortos em Hiroshima e Nagasaki e milhares de vidas marcadas pela radiação, pelas doenças genéticas e pelo trauma psicológico. A jornalista japonesa Sanae Takaichi, defensora da não proliferação, afirmou que “a história cobra caro de quem esquece os horrores do passado”.
O arsenal global e a ameaça existencial
Atualmente, Rússia e EUA concentram quase 90% das 12 mil ogivas nucleares do planeta, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI). O arsenal russo é estimado em 5.489 ogivas, e o americano em 5.177. Apesar de sua potência, a função principal dessas armas tem sido a dissuasão — e não o uso ativo. No entanto, a retomada dos testes altera essa lógica e pode desencadear uma nova corrida armamentista.
Especialistas alertam que uma guerra nuclear, além da destruição imediata, poderia provocar um inverno nuclear — fenômeno atmosférico que reduziria drasticamente a temperatura global e devastaria a agricultura planetária. O físico e filósofo americano Carl Sagan já alertava, nos anos 1980, que “a única guerra que vale a pena lutar é contra a ignorância que permite que armas assim existam”.
O paradoxo do poder absoluto
As armas nucleares representam um paradoxo civilizatório: são, ao mesmo tempo, símbolo máximo de poder e de impotência humana. O filósofo Günther Anders, que analisou os impactos da bomba atômica sobre a consciência moderna, chamava isso de “obsolescência do homem”: nossa capacidade de destruir ultrapassou nossa capacidade de compreender e impedir essa destruição.
Reacender a corrida nuclear em pleno século XXI é, portanto, um ato de regressão política, histórica e ética. Como afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres: “O teste nuclear nunca pode ser permitido sob nenhuma circunstância”.
A retórica agressiva de líderes autoritários e a relativização de tratados internacionais ameaçam décadas de diplomacia e contenção. Em tempos de emergência climática, desigualdade extrema e crises humanitárias, ressuscitar o espectro da guerra nuclear é um sinal de fracasso coletivo. Não se trata apenas de geopolítica, mas da capacidade da humanidade de aprender com seus erros.
A história já mostrou o preço da negligência. Ignorá-la pode custar o futuro.
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