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Mundo

Trump promove cerco à América Latina para conter a China

Presidente americano reativa intervencionismo, impõe retaliações comerciais ao Brasil e corta verbas de organismos internacionais

Publicado em 01/04/2025 11:58 - Semana On

Divulgação Montagem Semana On

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Em seu retorno à Casa Branca, Donald Trump não perde tempo em reafirmar sua visão de mundo centrada na supremacia americana. A diplomacia de confronto dá lugar à coerção; o comércio vira arma política; e os organismos internacionais, antes pilares da governança global, são desfinanciados com brutalidade inédita. Se no passado o lema “America First” era retórica, agora se materializa como uma doutrina de imposição que redesenha alianças, fragiliza a cooperação global e joga o Sul Global em uma espiral de insegurança econômica e humanitária.

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Do Panamá ao Paraguai, da África à Ásia, passando por Brasília, os efeitos já são visíveis: ameaças de intervenção militar, chantagens tarifárias, demissões em massa em programas da ONU, e milhões de pessoas privadas de alimentos, medicamentos e direitos reprodutivos. O novo eixo da política externa americana, em nome de conter a China, resgata velhas práticas de dominação imperial que ressurgem sob o disfarce da defesa da soberania.

A América Latina sob tutela

Trump deixou claro que pretende retomar a influência direta dos EUA sobre a América Latina. A escolha de Marco Rubio — um político de linha dura, descendente de cubanos exilados — para chefiar o Departamento de Estado é simbólica. Rubio rapidamente embarcou em uma turnê por países-chave, pressionando líderes locais a conter acordos com a China e a firmar compromissos militares com Washington.

O caso do Panamá é emblemático. Sob o pretexto da “proteção estratégica do Canal”, os EUA ameaçaram o país com sanções e envio de tropas, caso não suspendesse contratos de infraestrutura com empresas chinesas. O mesmo tom foi usado com o Equador, que enfrenta retaliações econômicas por aderir a programas de energia verde com financiamento chinês.

Na Argentina, Javier Milei — alinhado ideologicamente a Trump — aceitou reduzir o papel da China na economia em troca de uma promessa vaga de “cooperação financeira”. No Paraguai, o presidente Santiago Peña foi mais longe: ofereceu apoio diplomático contra Pequim na ONU e assinou um acordo de “interoperabilidade militar” com tropas americanas.

Especialistas apontam o retorno da lógica da Doutrina Monroe. “É um reposicionamento de poder hegemônico no quintal estratégico dos Estados Unidos, agora voltado contra a China”, afirma Michael Shifter, analista do Diálogo Interamericano. “Mas também é um ataque frontal à autonomia política da América Latina.”

A guerra tarifária com o Brasil

Entre os principais alvos da nova ofensiva comercial está o Brasil. Em março, o governo Trump anunciou uma série de retaliações tarifárias contra produtos brasileiros, sob a justificativa de “práticas desleais”. Na prática, trata-se de uma resposta às dificuldades enfrentadas por empresas americanas no mercado nacional e uma pressão explícita para que o Brasil abra setores estratégicos à atuação irrestrita do capital estrangeiro.

Um documento exclusivo da Câmara de Comércio dos EUA, obtido pelo jornalista Jamil Chade, lista as exigências:

– Fim das barreiras sanitárias impostas pela Anvisa,

– Agilidade na concessão de patentes no INPI,

– Redução de tarifas sobre etanol e produtos agrícolas,

– Abertura do setor de telecomunicações com reconhecimento automático de certificações dos EUA,

– Menor interferência estatal em compras governamentais e regulamentações de saúde.

O documento acusa o Brasil de práticas “proibidas” e exige o fim da “política protecionista”. A retaliação americana atinge em cheio setores como aço, alimentos e agroindústria. Para o Itamaraty, trata-se de uma chantagem comercial disfarçada de negociação técnica.

Segundo a economista Monica de Bolle, do Peterson Institute, “a estratégia de Trump é forçar parceiros a se curvarem a interesses empresariais dos EUA, sob pena de isolamento econômico. Mas isso desorganiza cadeias produtivas e enfraquece os países do Sul Global.”

O desmonte da cooperação internacional

Se em 2017 Trump retirou os EUA da OMS e do Acordo de Paris, agora vai além:

– Cortou 80% da verba da Usaid,

– Cancelou contribuições obrigatórias a organismos da ONU,

– Encerrou acordos de ajuda humanitária no Iêmen, Afeganistão e Etiópia,

– Vetou o financiamento de programas de saúde reprodutiva, Aids e combate à fome.

As consequências são dramáticas.

A FAO (Organização para Agricultura e Alimentação) suspendeu operações no Sudão e reduziu em 60% as atividades na África Subsaariana. O PMA (Programa Mundial de Alimentos) cortou ração para 1 milhão de rohingyas em Bangladesh. Segundo o diretor Dom Scalpelli: “Estamos falando de fome real, de crianças que deixarão de receber alimento básico.”

O UNFPA (Fundo de População da ONU) estima que 13 milhões de mulheres perderão acesso a cuidados pré-natais e contraceptivos em zonas de conflito. “É uma sentença de morte silenciosa”, resume a médica sul-africana Tlaleng Mofokeng, relatora da ONU para o direito à saúde.

Na África, o impacto sobre o combate à Aids é direto: clínicas em Botsuana e Quênia fecharam; 8 mil trabalhadores de saúde foram demitidos. Em entrevista à BBC África, uma coordenadora do Unaids foi enfática: “Estamos perdendo décadas de avanços por decisões políticas tomadas em Washington.”

Multilateralismo em colapso

A ONU enfrenta hoje a maior crise financeira de sua história. Com os EUA retirando sua contribuição de US$ 11 bilhões anuais, o sistema multilateral perde capacidade operacional em áreas como refugiados, saúde e direitos humanos.

Ao mesmo tempo, Trump fortalece alianças bilaterais com países que aceitam sua lógica de submissão comercial e ideológica. “Ele está criando uma espécie de OTAN latino-americana, com presença militar e vigilância digital, sob o discurso do combate ao crime e ao comunismo”, alerta Celso Amorim, ex-chanceler brasileiro (El País, fev. 2025).

Essa reorganização do poder global enfraquece o Sul Global e consolida um modelo de dependência que lembra os tempos da Guerra Fria — só que agora com drones, big data e algoritmos de vigilância.

O futuro que se impõe

A volta de Trump ao poder não representa apenas uma guinada conservadora nos EUA, mas a tentativa de impor uma nova ordem global baseada na força econômica, controle geopolítico e desmonte da solidariedade internacional. Para países como o Brasil, o desafio é resistir à chantagem sem perder relevância internacional — e construir alianças que defendam a autonomia, a democracia e os direitos humanos.

Como disse Amartya Sen, Nobel de Economia, “a liberdade é tanto um meio como um fim do desenvolvimento”. Nessa nova ordem que se desenha, o mundo corre o risco de perder ambas.

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