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Especial

VAI FUGIR?

Colapso político de Bolsonaro e a tentativa de reescrever o fracasso como exílio

Publicado em 29/03/2025 10:28 - Semana On

Divulgação Montagem Semana On

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Em entrevista à jornalista Marianna Holanda, publicada neste sábado na Folha de SP, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi arguido sobre se cogita pedir asilo político aos Estados Unidos. “Zero, zero, zero. Eu acho que eu estou com uma cara boa aqui. Tenho 70 anos, me sinto bem. Eu quero o bem do meu país”, afirmou.

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Será? O que há poucos meses soava como hipótese remota agora se insinua como uma engrenagem em curso. Após ser tornado réu pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro se vê encurralado por investigações, por delações de ex-aliados e pela dissolução acelerada de sua base política. E é nesse cenário que ganha corpo, nos bastidores do Congresso Nacional e entre ministros do Supremo, uma possibilidade que ecoa como ameaça: a fuga do ex-presidente do país. Não se trata mais de uma especulação leviana, mas de uma articulação visível, ensaiada com a mesma covardia que marcou sua relação com a democracia brasileira.

O Congresso já trabalha com a hipótese de que Bolsonaro terá que escolher entre fugir ou ser preso. Esta sensação sintetiza a atmosfera política em Brasília. O julgamento iniciado pelo STF — com os cinco ministros da Primeira Turma seguindo integralmente o voto do relator, Alexandre de Moraes — escancarou que o cerco jurídico ao ex-presidente não é mais retórico, mas jurídico, técnico e iminente. A fuga, portanto, deixa de ser uma possibilidade e passa a ser um plano discutido nos corredores do poder.

A covardia como método político

O ex-presidente tem reiterado em entrevistas que não deixará o país, mas a insistência com que repete essa negativa — mesmo quando não perguntado — denuncia o oposto. É a negação antecipada de um ato já em gestação. A história política da família Bolsonaro revela que fugir é parte de sua lógica. Em dezembro de 2022, Bolsonaro partiu para os Estados Unidos antes mesmo do fim do mandato, recusando-se a passar a faixa presidencial a Luiz Inácio Lula da Silva. A Polícia Federal investiga se essa partida foi a primeira fase de uma operação de fuga relacionada aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

O modus operandi repete-se. Em março de 2023, após ter seu passaporte apreendido, Bolsonaro se refugiou por dois dias na embaixada da Hungria em Brasília — movimento clandestino revelado pelo New York Times. Trata-se de um gesto calculado: a presença em território diplomático o blindava de uma eventual ordem de prisão. A justificativa, uma vez mais, era a suposta “perseguição” por parte do Judiciário — retórica herdada da extrema direita global, incapaz de distinguir responsabilização judicial de repressão política.

A debandada: o clã Bolsonaro em fuga

O roteiro da fuga já começou, e não pelo protagonista. Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-presidente, foi o primeiro a deixar o país. Sem ter sido indiciado ou denunciado até então, o parlamentar abandonou o mandato para viver nos Estados Unidos sob o argumento de que o Brasil vive uma “ditadura”. A atitude revela um padrão: quando confrontados com a legalidade democrática, os Bolsonaro optam por desacreditá-la.

Longe de se isolar, Eduardo tenta instrumentalizar a Comissão de Relações Exteriores da Câmara para dar verniz institucional à sua conspiração. Em entrevista ao Valor Econômico, seu substituto, Filipe Barros (PL-PR), admitiu que manterá diálogo constante com Eduardo para alinhar agendas, apoiar reuniões com autoridades norte-americanas e denunciar supostos “abusos” do STF. Um escândalo anunciado: trata-se de transformar um cargo público em extensão da agenda pessoal de uma família sob investigação.

Pouco depois, foi a vez de Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio, sobrinho de Bolsonaro, deixar o Brasil rumo à Argentina de Javier Milei, onde pediu asilo político. Tornado réu por unanimidade no STF, por participação direta nos atos de 8 de janeiro, Léo passou a atacar Alexandre de Moraes pelas redes sociais mesmo estando foragido. A fuga para Buenos Aires, como a de Eduardo aos EUA, está amparada em uma narrativa de “perseguição política”, embora as evidências que os envolvem sejam robustas e fartamente documentadas pela Procuradoria-Geral da República.

O STF em alerta

A reação do Supremo não se fez esperar. Ministros da Corte ouvidos pela jornalista Andréia Sadi afirmaram que monitoram com atenção o movimento internacional da família Bolsonaro e temem que a evasão do filho seja o prenúncio da fuga do pai. “É um cálculo político: possuem palco fora, nos EUA, e podem preparar a fuga do pai, que vão chamar de exílio”, disse um ministro ao blog da colunista. Não por acaso, o STF já determinou a apreensão do passaporte de Bolsonaro, ciente de que a repetição do gesto de 2022 pode se repetir — agora com mais urgência e organização.

As investigações da Polícia Federal identificaram transferências financeiras de Bolsonaro para contas nos Estados Unidos, totalizando R$ 800 mil, o que pode sustentar uma eventual estadia longa no exterior. O plano incluiria o apoio de aliados da extrema direita internacional — especialmente nos EUA — para construir uma narrativa de exílio político, o que serviria tanto para mobilizar a base quanto para tentar constranger a Justiça brasileira em fóruns internacionais.

Um projeto de poder em desintegração

O bolsonarismo, como projeto político, caminha para o colapso. A prisão do seu líder máximo não é mais uma abstração; é uma possibilidade concreta. A direita já percebe isso. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e nome de perfil mais técnico e moderado, é tratado por veículos como Folha, Globo e Estadão como herdeiro viável da agenda conservadora. A transição silenciosa que se opera no campo da direita é estratégica: manter o discurso econômico liberal, a pauta moral conservadora e o apelo antipetista — mas sem Bolsonaro, que passou a representar mais ônus do que bônus.

Como escreveu o jornalista Moisés Mendes, “Bolsonaro preso valerá tanto quanto um Magno Malta solto”. A frase resume o espírito da direita institucional, que já prepara o terreno para abandoná-lo assim que a prisão se concretizar. E é justamente para evitar esse destino — a irrelevância — que Bolsonaro aposta tudo na fuga.

A última cartada: a anistia como negação da Justiça

Como tentativa final de sobrevivência política, Bolsonaro tem pressionado a base aliada no Congresso para aprovar o PL da Anistia, que livraria os envolvidos nos atos golpistas do 8 de janeiro de qualquer punição — ele incluído. Trata-se de um ataque direto à memória democrática do país. O Brasil já viveu esse filme em 1979, quando os crimes da ditadura militar foram apagados pela Lei da Anistia. Repeti-lo agora seria abrir um precedente devastador.

A manobra revela o esgotamento da via jurídica e o apelo desesperado à política institucional. Mas também mostra que Bolsonaro, mesmo acuado, ainda opera com perigosos instrumentos de influência: desinformação, pressão parlamentar e apoio internacional de uma rede reacionária que o vê como peça útil no xadrez global da extrema direita.

A democracia como resposta

O Brasil se vê diante de um momento definidor. Não é apenas Jair Bolsonaro que está sendo julgado. É a própria capacidade da democracia brasileira de responder com firmeza àqueles que tentam destruí-la. A tentativa de fuga — em curso ou ainda por vir — é a mais pura negação da ideia de responsabilidade republicana.

Como lembrou o jurista argentino Carlos Nino, “sem justiça, não há democracia possível”. Fugir do país, esconder-se em embaixadas, mobilizar redes estrangeiras para deslegitimar a soberania nacional: tudo isso expõe o desprezo de Bolsonaro pelas instituições que jurou defender. E, paradoxalmente, fortalece a necessidade de sua responsabilização.

O Brasil é uma democracia jovem, marcada por avanços e retrocessos. Sobreviveu ao autoritarismo, à censura, ao impeachment e aos golpes. Sobrevive agora ao bolsonarismo — não como força eleitoral, mas como ameaça institucional. E a resposta que dará à tentativa de fuga do seu ex-presidente dirá muito sobre o país que deseja ser.

Entre o verniz e o vazio

 


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