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Mundo
Relatora que acusa Israel de crimes e empresas de lucrar com a destruição sofre ameaças
Publicado em 03/07/2025 1:50 - Semana On
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Em um movimento que ecoa os métodos do neofascismo global, o governo de Donald Trump intensificou uma ofensiva contra instituições internacionais que denunciam o genocídio em Gaza, pressionando diretamente a ONU e ameaçando o Tribunal Penal Internacional (TPI). No centro da crise está Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, cuja denúncia documentada sobre a cumplicidade corporativa na destruição da Palestina provocou fúria em Washington.
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O relatório apresentado por Albanese ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, intitulado Da Economia da Ocupação à Economia do Genocídio, expõe como mais de 60 empresas — entre elas Microsoft, Amazon, Alphabet (Google), Caterpillar Inc. e HD Hyundai — têm se beneficiado financeiramente da ocupação e das operações militares israelenses em Gaza. O documento, com 27 páginas, vai além da acusação a Israel: identifica uma rede transnacional de interesses corporativos e políticos que, segundo a relatora, transformou a destruição palestina em um “negócio lucrativo”.
“O genocídio, ao que parece, é lucrativo”, escreveu Albanese ao divulgar o relatório nas redes sociais. “Isso não pode continuar, a responsabilização deve ser o resultado.”
A resposta do governo Trump foi imediata e contundente. Em carta à ONU, a Casa Branca acusou Albanese de “antissemitismo” e exigiu sua demissão imediata, advertindo que manter a relatora em seu cargo traria “ações significativas” por parte dos EUA. O tom ameaçador da correspondência, revelada pelo jornalista Jamil Chade (UOL), inclui acusações de que Albanese promove uma “guerra econômica” contra corporações norte-americanas e compromete a “reputação global” das Nações Unidas.
A tentativa de silenciar a relatora não é um fato isolado. Desde que o TPI emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, os EUA impuseram sanções contra juízes e procuradores do tribunal. O padrão de comportamento é claro: minar qualquer instituição que ouse questionar o aliado estratégico e ideológico que Israel representa no tabuleiro geopolítico norte-americano.
Essa postura se alinha à cartilha dos regimes autoritários contemporâneos: deslegitimar vozes críticas, intimidar instituições independentes e blindar aliados em nome de uma “verdade oficial”. É o que a filósofa Hannah Arendt chamaria de “banalidade do mal” em nova roupagem — onde o genocídio não só é ignorado, mas metabolizado pelo mercado global como oportunidade de lucro.
A economia da destruição
A denúncia de Albanese vai além da moralidade. Ela documenta, com apoio de mais de 200 contribuições de Estados, acadêmicos e organizações de direitos humanos, como o aparato militar-industrial global transformou Gaza em laboratório de guerra. “Israel usou o genocídio como uma oportunidade para testar novas armas, drones letais, vigilância personalizada e outras tecnologias não tripuladas para exterminar um povo sem restrições”, afirmou durante a apresentação do relatório em Genebra.
Segundo a relatora, essa simbiose entre Estado e capital não é acidental, mas estruturada: “Enquanto líderes políticos e governos se esquivam de suas obrigações, muitas entidades corporativas lucraram com a economia israelense de ocupação ilegal, apartheid e, agora, genocídio.”.
Empresas como a Caterpillar Inc. são citadas pelo fornecimento de escavadeiras utilizadas na demolição de casas palestinas. Microsoft, Amazon e Google são responsabilizadas por proverem infraestrutura tecnológica para o exército israelense e para o controle populacional. A relatora pede a responsabilização criminal de dirigentes empresariais por “violações do direito internacional”.
Silenciamento institucional
A ofensiva norte-americana contra Albanese é também um ataque ao próprio sistema multilateral. Washington acusa a relatora de conduzir uma “campanha de guerra política e econômica” contra o Ocidente. No documento enviado à ONU, o governo Trump alega que ela “enviou correspondência ameaçadora a dezenas de entidades”, ao notificar empresas sobre a possibilidade de serem cúmplices de crimes internacionais.
Em reação à denúncia, o governo de Israel boicotou a sessão do Conselho de Direitos Humanos e não enviou representantes. Já os EUA tentaram vetar, sem sucesso, a renovação do mandato de Albanese no início do ano. “A falta de ação até o momento permitiu que a Sra. Albanese prosseguisse com sua campanha de guerra econômica visando entidades em todo o mundo”, diz o comunicado da missão americana.
A ONU, por sua vez, resiste às pressões. O secretário-geral António Guterres não se pronunciou diretamente sobre a exigência de demissão, mas fontes diplomáticas apontam que há um esforço para preservar a independência dos relatores especiais, cujo papel é justamente o de apontar violações e desafiar os poderosos.
Entre o negacionismo e a resistência
A tentativa de criminalizar a denúncia de genocídio ressoa com episódios históricos em que o poder buscou reescrever a realidade. Como alerta o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “estamos vivendo um fascismo social, no qual a exceção se torna regra e a violência se naturaliza”. O silêncio cúmplice de parte da comunidade internacional reforça essa dinâmica, tornando a resistência de vozes como a de Albanese ainda mais crucial.
A relatora conclui seu relatório com uma advertência: “A autodeterminação e a própria existência de um povo estão em jogo.” O apelo à responsabilização não é apenas jurídico, mas ético e civilizacional. A continuidade da impunidade é também a continuidade da barbárie.
O massacre continua
Pelo menos 82 palestinos foram mortos durante à noite de ontem (2) em ataques, inclusive aéreos, incluindo 38 que procuravam ajuda humanitária, informaram nesta quinta-feira (3) os hospitais e o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza.
Cinco pessoas foram mortas perto de locais associados à Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês), organização norte-americana apoiada por Israel e pelos Estados Unidos que distribui alimentos à população do enclave, enquanto outras 33 morreram quando esperavam caminhões de ajuda em outros locais do território.
Em menos de um mês, 500 palestinos morreram e 4.000 ficaram feridos tentando conseguir alimentos em Gaza, segundo um alerta conjunto feito nesta terça-feira por mais de 160 organizações humanitárias internacionais, entre elas Anistia Internacional, Oxfam, Médicos Sem Fronteiras, Conselho Norueguês para Refugiados, Pax Christi International e Save the Children. A denúncia é categórica: os centros de distribuição de comida, criados pelos governos de Israel e dos Estados Unidos, deixaram de ser um canal de socorro e tornaram-se “zonas de massacre”.
As mortes ocorreram após a substituição das agências da ONU, que haviam coordenado a ajuda humanitária durante o cessar-fogo temporário, pela GHF. Financiada e dirigida pelos governos de Benjamin Netanyahu e Donald Trump, a GHF passou a operar apenas quatro centros de distribuição de alimentos — em contraste com os 400 pontos que funcionavam anteriormente. O resultado foi previsível e catastrófico: aglomerações massivas, controle militar rígido, tiroteios frequentes e um rastro de sangue deixado por civis que só queriam sobreviver.
Segundo os relatos, os palestinos são forçados a caminhar por horas em zonas de conflito para alcançar locais de distribuição cercados por forças armadas. “Hoje, os palestinos em Gaza enfrentam uma escolha impossível: passar fome ou correr o risco de serem baleados enquanto tentam desesperadamente conseguir alimentos para alimentar suas famílias”, denunciam as organizações.
A ajuda como armadilha
A justificativa de Israel para a substituição do modelo anterior é a alegação de que grupos militantes do Hamas estariam desviando a ajuda internacional. Mas, como destaca o comunicado das ONGs, a realidade no terreno revela outra dinâmica: “as semanas que se seguiram ao lançamento do esquema de distribuição israelense foram algumas das mais mortíferas e violentas desde outubro de 2023”.
Os relatos falam de civis famintos sendo liberados em recintos caóticos para disputar migalhas em meio ao fogo cruzado. Em um dos trechos mais dramáticos, as entidades denunciam que “crianças órfãs e pessoas que cuidam delas estão entre os mortos, com crianças feridas em mais da metade dos ataques a civis nesses locais”.
Essa estratégia — a substituição de uma logística multilateral por uma operação controlada unilateralmente e militarizada — aponta para o uso da fome como método de guerra. Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, já advertia que “quando o poder se divorcia da lei, a violência deixa de ser acidente para se tornar sistema”. A distribuição de alimentos sob mira de fuzis não é erro de planejamento, é política deliberada.
A deterioração total do sistema humanitário
O colapso em Gaza não é apenas alimentar. O bloqueio imposto por Israel após o rompimento com as agências da ONU comprometeu o acesso a combustível, água potável e atendimento médico. “Com o sistema de saúde em ruínas, muitos dos alvejados são deixados para sangrar sozinhos, fora do alcance das ambulâncias”, descrevem as organizações.
Sem eletricidade, sem gás para cozinhar, sem saneamento básico, as famílias se abrigam sob lonas plásticas em ruínas, tentando improvisar algum resquício de vida em meio ao que restou. “Muitas famílias agora estão fracas demais para competir por rações de alimentos”, alertam. É o colapso total da dignidade humana.
De acordo com a ONU, Gaza já enfrentava condições de vida precárias antes da guerra iniciada em outubro de 2023. O cerco imposto desde 2007 pelo governo israelense impediu o desenvolvimento de infraestrutura básica e restringiu severamente o comércio e a circulação de pessoas. O agravamento atual não é apenas consequência de conflito armado, mas resultado de anos de política de contenção e punição coletiva.
A normalização do horror
As organizações que assinaram o apelo denunciam uma estratégia perigosa: a tentativa de normalizar o sofrimento. Pedem que os Estados rejeitem a falsa dicotomia entre uma “ajuda militarizada” e a “negação completa de ajuda humanitária”. Reivindicam a retomada do modelo anterior, coordenado pela ONU, com acesso seguro, imparcial e contínuo à população civil.
O apelo carrega um peso ético fundamental. Como advertiu o sociólogo Zygmunt Bauman, “a desumanização do outro é o primeiro passo para que a violência seja legitimada”. Quando se aceita que civis famintos sejam tratados como ameaças militares, a civilização perde seus fundamentos morais.
Segundo o relatório da ONU de abril de 2024, mais de 1,1 milhão de pessoas em Gaza enfrentam níveis catastróficos de insegurança alimentar, com risco real de fome em larga escala. A continuidade da operação atual, segundo os especialistas, não só viola o Direito Internacional Humanitário, como compromete o futuro de uma geração inteira de palestinos.
O apelo feito pelas organizações humanitárias não é apenas um pedido por comida — é um grito por humanidade.
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