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Mundo
Setores da economia perdem espaço sob o aplauso conivente de Bolsonaro e Tarcísio
Publicado em 02/07/2025 2:54 - Semana On
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O gesto aparentemente inofensivo de vestir um boné vermelho com os dizeres “Make America Great Again” ganha outra dimensão quando os protagonistas são líderes políticos brasileiros e os custos simbólicos e materiais recaem sobre a economia nacional. Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira encenam uma fidelidade performática ao trumpismo que, na prática, tem custado caro ao Brasil — especialmente a São Paulo, coração industrial do país. O alinhamento automático à extrema direita norte-americana não se traduziu em ganhos diplomáticos ou comerciais; ao contrário, resultou em tarifas, prejuízos e humilhações diplomáticas silenciosas.
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Desde abril de 2025, o governo de Donald Trump — em seu novo mandato marcado por uma guinada ainda mais agressiva no nacionalismo econômico — reinstaurou tarifas sobre dezenas de países, com o Brasil entre os mais afetados. Embora o comércio bilateral tenha crescido em volume bruto, o detalhamento dos números mostra que o Brasil perdeu competitividade em setores fundamentais. A combinação entre tarifas de até 50% e a exclusão do país de acordos comerciais específicos vem gerando um déficit comercial que alcançou US$ 1 bilhão entre janeiro e maio deste ano.
As perdas são concretas. Exportações de óleo combustível caíram 28% no período, e só em maio, o tombo foi de 50,5%. As vendas de motores de pistão desabaram 26,6% no mês. Ferro-gusa, celulose, açúcar, madeira e equipamentos de engenharia seguiram o mesmo caminho. Esses dados, colhidos pela Câmara de Comércio Brasil-EUA, não deixam margem para dúvidas: há um realinhamento desfavorável à economia brasileira dentro da lógica protecionista de Trump.
O mais paradoxal é que essas perdas se dão enquanto políticos da direita brasileira continuam a celebrar, em atos públicos e redes sociais, a liderança de um presidente americano que sequer respondeu à proposta de acordo enviada formalmente por diplomatas brasileiros. Há dez dias, uma delegação liderada por ministros como Fernando Haddad e Mauro Vieira apresentou uma proposta que incluía a redução da tarifa brasileira de 18% sobre o etanol americano, em troca da abertura do mercado dos EUA ao açúcar brasileiro. Até agora, silêncio total da Casa Branca.
A idolatria cega e a política do espelho invertido
O episódio evidencia uma lógica de colonialismo simbólico que ainda assombra parte da elite política brasileira. Ao invés de se posicionar como parceiro autônomo, o Brasil parece ter assumido o papel de espectador ansioso por aprovação. Como escreveu o historiador Luiz Felipe de Alencastro, “há uma constante histórica de servilismo diplomático por parte de elites brasileiras que confundem alinhamento com submissão” (O Trato dos Viventes, Companhia das Letras, 2000).
Não se trata apenas de pragmatismo mal executado, mas de um projeto ideológico. O trumpismo, movimento que ressuscita o isolacionismo norte-americano, o supremacismo branco, o negacionismo climático e o autoritarismo político, foi adotado por setores da direita brasileira não como inspiração pontual, mas como modelo político total. O bolsonarismo é sua versão tropical, e figuras como Tarcísio de Freitas, embora tecnocráticas na aparência, têm repetido a fórmula à risca: destruição de pontes diplomáticas, culto à força, submissão ao mercado americano e desmonte institucional.
O boné do MAGA, nesse contexto, não é só um acessório — é um símbolo do alinhamento a um projeto de extrema direita global que despreza o multilateralismo, ignora compromissos internacionais e impõe sanções mesmo aos aliados mais fiéis.
A São Paulo de Tarcísio, a conta do trumpismo
O caso de São Paulo é ilustrativo. Governado por Tarcísio, o estado mais industrializado do Brasil depende fortemente da exportação de bens industriais e semimanufaturados. Segundo dados da Fiesp, São Paulo responde por mais de 30% das exportações brasileiras de bens com maior valor agregado. Justamente os setores que mais têm sofrido com as tarifas de Trump: siderurgia, equipamentos de engenharia, motores e celulose.
Ao aplaudir o trumpismo, Tarcísio trai os interesses estratégicos do próprio estado que governa. Não é só uma questão de incoerência — é uma contradição estrutural. Enquanto os industriais paulistas perdem contratos e cortam turnos, o governador desfila com o símbolo de quem impôs as barreiras comerciais que geram esses prejuízos.
Mais que ironia, trata-se de um erro de governança que beira a irresponsabilidade. O Brasil foi excluído, por exemplo, do acordo fechado entre EUA e Reino Unido, que garantiu vantagens para setores sensíveis como etanol e aeronaves — produtos de alto interesse da Embraer e do agronegócio brasileiro. A ausência do Brasil nesses pactos bilaterais, mesmo com todo o esforço de aproximação do governo Lula, evidencia o fracasso de uma diplomacia submissa, que ainda carrega o peso do desmonte institucional do governo Bolsonaro.
Protecionismo seletivo, neoliberalismo à brasileira
A contradição entre o discurso liberal da direita brasileira e o protecionismo de seu ídolo americano é gritante. Trump jamais escondeu sua rejeição ao livre-comércio. Desde seu primeiro mandato, retirou os EUA do Acordo Transpacífico, sabotou a OMC e ameaçou a existência do Nafta. Sua lógica é a da barganha permanente: vantagem para os EUA a qualquer custo.
A direita brasileira, no entanto, insiste em vender uma ilusão liberal: redução de impostos, desregulamentação, abertura de mercado. Mas quando confrontada com a realidade de uma potência que protege seus próprios interesses com punhos de ferro, opta por se calar. É o que o filósofo Paulo Arantes chamou de “a miséria do pragmatismo colonizado”: uma prática política que aceita sem questionamento o jogo desigual imposto pelas potências hegemônicas, ao mesmo tempo em que reprime toda tentativa de projeto nacional autônomo (O Novo Tempo do Mundo, Boitempo, 2014).
O custo da submissão simbólica
O Brasil não é só prejudicado em cifras. É humilhado na diplomacia. Enquanto o Reino Unido, mesmo pós-Brexit, conseguiu garantir um acordo com os EUA, o Brasil sequer teve resposta. A justificativa de Washington? A suposta criação de barreiras comerciais injustas por parte do Brasil. Mas os dados mostram que, na verdade, o superávit é americano. E que a assimetria beneficia, de longe, o parceiro do norte.
Como lembra Celso Amorim, ex-chanceler e diplomata de carreira, “um país soberano precisa negociar de igual para igual, e não como quem implora por favores” (Teerã, Ramalá e Doha, Benvirá, 2015). Ao não responder a proposta brasileira, os EUA não apenas recusaram um pacto — reafirmaram sua posição de comando. E o Brasil, ao não reagir, reforçou sua posição de subalternidade.
Muito além do boné
A tragédia brasileira não está apenas nos números do comércio, mas na inversão de valores que esses números revelam. O símbolo do boné vermelho virou farda ideológica. O que deveria ser um debate racional sobre interesses comerciais se transformou em devoção cega, que mascara uma realidade amarga: o trumpismo é ruim para o Brasil. E mais ainda para um Brasil que, em nome de afinidades políticas e culturais com a extrema direita internacional, abdica da própria soberania.
Se o objetivo da política externa é defender os interesses do país, a pergunta que precisa ser feita — e respondida — é clara: a quem serve o culto ao trumpismo no Brasil?
O impacto do trumpismo no Brasil
Semiacabado de ferro ou aço: queda de exportações de 16,4% entre janeiro e maio.
Óleo combustível de petróleo: queda de exportações 28% entre janeiro e maio. Apenas no mês de maio, a queda em valor foi de 50,5%.
Ferro-gusa: preço médio do ferro-gusa exportado em queda (2,2%), mas valor e quantidade caem em proporção maior (7,3% e 5,1%).
Celulose: mesmo com redução do preço médio de exportação em 7,3%, valor e quantidades estão caindo em 15,2% e 8,5% entre janeiro e maio. Considerando apenas o mês de maio, a queda foi de 35%.
Equipamentos de engenharia: redução também de 7,3% dos preços, porém com queda forte o valor e quantidade vendidas, de 30,0% e 24,5%.
Motores de pistão: queda de vendas em maio de 26,6%.
Açúcar e melaços: queda de exportação em maio de 20,3%.
Madeira: queda de vendas de 18,9% em maio.
Médicos Sem Fronteiras: 94% dos hospitais de Gaza estão destruídos
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