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Mundo

Trump piscou primeiro

Entre blefes, recuos e ameaças, a corrosão da ordem econômica global abala a credibilidade dos EUA

Publicado em 10/04/2025 1:49 - Semana On

Divulgação Semana On

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Donald Trump traz a imprevisibilidade como método de governo. Em menos de 100 dias, seu novo mandato já desencadeou uma série de choques na economia global. A guerra comercial com a China atingiu um novo patamar, com tarifas acumuladas que chegam a 145%, enquanto os mercados financeiros vivem dias de volatilidade extrema e a credibilidade internacional dos Estados Unidos entra em colapso. Por trás da retórica nacionalista e dos slogans sobre “libertação econômica”, o que se vê é um mundo à beira do abismo comercial, com consequências que podem marcar uma era.

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Mais do que uma estratégia comercial, a política tarifária de Trump é uma ofensiva ideológica, uma tentativa de refundar a ordem internacional a partir de um centro de comando volátil e centrado no culto à personalidade. Ao elevar as tarifas de importação da China de 84% para 125% — com mais 20% adicionais vinculados ao fentanil — Trump provocou reações em cadeia: as bolsas derreteram, os rendimentos dos títulos despencaram e a confiança global no dólar foi duramente abalada.

O cassino de Trump

A crise ganhou contornos tragicômicos quando, após dias de ameaças, Trump recuou parcialmente e anunciou a suspensão das tarifas para dezenas de países por 90 dias — apenas para depois reafirmar a escalada contra Pequim. A confusão deliberada minou a confiança de governos e investidores. Embaixadores, inclusive de países aliados, relataram perplexidade com os ziguezagues da Casa Branca. “Não sabemos mais com quem estamos negociando, se os acordos são válidos e se as declarações são verdadeiras”, declarou um embaixador latino-americano à imprensa internacional.

A metáfora usada por um diplomata europeu na Organização Mundial do Comércio (OMC) resume o momento: “Trump acha que o mundo é seu cassino.” De fato, o modelo de barganha adotado pelo presidente americano mais parece uma mesa de pôquer onde as regras mudam a cada rodada — e onde os blefes custam bilhões.

Como alertou o economista Larry Summers, ex-secretário do Tesouro, a base teórica por trás da política de tarifas de Trump é tão frágil que se assemelha a pseudociência: “Isso é para a economia o mesmo que o criacionismo é para a biologia”.

Europa recua, mas mantém o dedo no gatilho

A resposta da União Europeia não tardou. Embora tenha suspendido por 90 dias as retaliações planejadas, a Comissão Europeia deixou claro que todas as opções continuam na mesa. A decisão de Bruxelas veio após Trump oferecer trégua a quem não retaliou. Mesmo assim, o bloco aprovou uma legislação que prevê tarifas escalonadas sobre produtos americanos, totalizando 22 bilhões de euros por ano. A medida visa proteger setores-chave europeus e preparar o terreno para uma eventual guerra comercial em larga escala.

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, resumiu a tensão: “Queremos dar uma chance às negociações. Mas o trabalho para contramedidas continua”.

Entre populismo e psicopatia

A imprevisibilidade da política de Trump não é mero acaso. É um instrumento de poder, baseado no que o filósofo Byung-Chul Han chama de “psicopolítica” — uma forma de controle por meio da ansiedade e da instabilidade emocional. Trump governa criando crises, desmentindo seus próprios assessores, confundindo o mercado e testando limites.

Pesquisas da Reuters/Ipsos apontam que 53% da população dos EUA já desaprova seu governo e 75% acreditam que as tarifas causarão carestia. Bilionários como Elon Musk se queixaram publicamente de prejuízos, e Wall Street, longe de celebrar, oscila entre o pânico e o ceticismo.

O jornalista e analista político Josias de Souza foi direto ao caracterizar a lógica de governo: “Trump se comporta como um ‘psicopresidenteopata’. Seu único instrumento de política é o martelo, e tudo ao seu redor ele vê como prego”.

Um império em ruínas

O mais grave, porém, vai além da volatilidade econômica: é o desgaste permanente da posição dos EUA como líder da ordem internacional. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se firmaram como garantidores de um sistema de livre comércio, estabilidade cambial e previsibilidade jurídica. Trump ameaça desmontar tudo isso.

Ao transformar a política comercial em um espetáculo de força e contradições, ele aniquila a confiança que sustenta a moeda americana como padrão global. Como já alertou a ex-secretária do Tesouro, Janet Yellen: “A política comercial de Trump é a pior ferida autoinfligida que um governo impôs à sua própria economia”.

Cicatrizes globais

Em um mundo multipolar, a guerra comercial entre Estados Unidos e China simula os campos de tensão da antiga Guerra Fria. Mas, em vez de bombas nucleares, o arsenal é feito de tarifas, sanções e instabilidade sistêmica. A nova contrataria da China, de 84% sobre produtos americanos, marca o retorno da lógica do “perde-perde”, onde as consequências são globais.

O historiador Yuval Harari, em uma conferência em Davos, alertou: “Estamos vivendo não apenas uma era de transformação tecnológica, mas de regressão política. O nacionalismo econômico é o novo vírus que ameaça o tecido da cooperação internacional”.

O preço do populismo

A trajetória de Trump no segundo mandato repete os padrões de seu primeiro: polarização interna, isolamento externo e uma economia global feita refém de sua persona errática. O episódio das tarifas mostra que, em vez de restaurar a “grandeza americana”, o presidente está reduzindo o alcance, a confiabilidade e o prestígio dos EUA no mundo.

Como disse Churchill, “os americanos sempre fazem a coisa certa, depois de esgotarem todas as alternativas”. O problema é que, até lá, o estrago pode ser irreversível.

Trump, como figura, um dia passará. Mas as cicatrizes que deixa na governança global e na fé no multilateralismo podem durar gerações.

INFÂNCIA ALVEJADA


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