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Mundo
Premiação de “No other land” é tapa com luva de pelica no racismo promovido pelo sionismo
Publicado em 03/03/2025 1:21 - Semana On
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A 96ª edição do Oscar se tornou palco de um embate político global, transformando a cerimônia em uma vitrine para denunciar as políticas do ex-presidente Donald Trump e a postura dos EUA em relação aos conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia. O evento evidenciou o desconforto da indústria cinematográfica com a atual conjuntura política internacional e a crescente censura de narrativas críticas nos Estados Unidos. Mais do que uma celebração do cinema, a premiação deste ano reafirmou o papel da cultura como instrumento de resistência e contestação.
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O momento de maior impacto ocorreu quando o documentário “No Other Land” (“Sem Chão” em português – o filme estreia no Brasil em março) venceu o prêmio de Melhor Documentário. Dirigido pelo jornalista israelense Yuval Abraham e pelo ativista palestino Basel Adra, o filme denuncia a destruição da cidade palestina de Masafer Yatta por tropas israelenses. Durante seu discurso, Adra destacou a dor de crescer sob ocupação militar e clamou pelo fim da “limpeza étnica” na região. “Fizemos esse filme juntos. Juntos, palestinos e israelenses, nossas vozes são mais fortes”, afirmou Yuval Abraham, que também criticou os EUA por sua postura no conflito.
A ausência de distribuição do documentário nos EUA ressalta a dificuldade de abordar temas sensíveis no país. Empresas de entretenimento evitam questionar diretamente a situação no Oriente Médio, temendo represálias políticas e boicotes. Este fenômeno reflete um padrão mais amplo de controle narrativo, no qual grandes conglomerados midiáticos evitam conteúdos que possam confrontar interesses geopolíticos dominantes.
Imigração, Ucrânia e a “difusão do ódio”
Trump também foi alvo de duras críticas indiretas ao longo da noite. Zoe Saldaña, ao vencer como Melhor Atriz Coadjuvante, celebrou suas origens dominicanas e ressaltou a dignidade dos imigrantes, tema constantemente atacado pelo ex-presidente. “Muchas gracias”, encerrou a atriz, arrancando aplausos do teatro. Seu discurso, além de um tributo familiar, soou como uma resposta direta à retórica anti-imigração que permeia o discurso político norte-americano nos últimos anos.
O vencedor de Melhor Ator, Adrien Brody, discursou contra a propagação do ódio e relembrou lições de guerras passadas. “A história nos mostrou as consequências da intolerância. Não podemos permitir que erros do passado sejam repetidos”, disse, sem citar diretamente Trump, mas fazendo clara alusão ao crescimento de discursos nacionalistas e xenófobos. Conan O’Brien, apresentador da noite, não poupou ironias ao mencionar que os americanos finalmente tinham alguém que “enfrentasse os russos”, referindo-se às críticas de que Trump estaria alinhado com os interesses de Vladimir Putin.
A tensão entre a indústria cinematográfica e o ex-presidente se intensificou nos últimos meses. Trump nomeou Sylvester Stallone, Mel Gibson e Jon Voight como “embaixadores especiais” em Hollywood, em um gesto interpretado como tentativa de retaliação contra as posições progressistas da indústria. Entretanto, a falta de clareza sobre suas funções apenas ampliou a percepção de interferência política no setor cultural. Esse movimento se insere em uma tendência maior de politização da cultura, na qual governos buscam instrumentalizar o entretenimento como ferramenta de propaganda.
O bloqueio de Gaza e a condenação internacional
No mesmo fim de semana da premiação, Egito, Jordânia, Catar e Arábia Saudita condenaram as ações israelenses na Faixa de Gaza, classificando o bloqueio à entrada de ajuda humanitária como “violação flagrante” dos acordos de trégua com o Hamas. A decisão de Israel de impedir a chegada de suprimentos essenciais levantou acusações de que a fome estaria sendo utilizada como arma de guerra.
O ministro das Relações Exteriores do Egito, Badr Abdelatty, alertou que a utilização da fome como arma contra civis é inaceitável e insistiu na necessidade de cumprimento dos acordos firmados em janeiro. “Não há alternativa à implementação fiel e total, por todas as partes, do que foi assinado”, afirmou. A Jordânia, por sua vez, advertiu que o bloqueio pode fazer a situação “explodir novamente”.
A crise diplomática se intensifica em um momento em que a ONU e organizações humanitárias alertam para uma catástrofe humanitária em Gaza. Com o aumento da pressão internacional, a postura de Israel e seus aliados, incluindo os EUA sob Trump, se torna cada vez mais insustentável. A ausência de uma solução duradoura para o conflito palestino-israelense alimenta o ciclo de violência e reforça as críticas sobre a falta de mediação eficaz por parte da comunidade internacional.
Arte, resistência e a luta por narrativas
O Oscar 2025 evidenciou como a indústria do entretenimento segue como arena de disputa política e ideológica. A arte sempre teve papel crucial na formação de consciência social, como demonstrado na década de 1940, quando Hollywood apoiou o esforço de guerra contra o nazismo, e nos anos 1960, ao questionar o envolvimento dos EUA no Vietnã. Agora, a indústria se vê em um novo cenário de tensão, buscando resistir às tentativas de censura e reafirmar sua influência na construção de discursos críticos.
O uso da cultura como meio de resistência não é um fenômeno novo. Ao longo da história, produções cinematográficas, literárias e musicais foram fundamentais para denunciar regimes autoritários e expor injustiças sociais. Filmes como “Casablanca” (1942) ajudaram a mobilizar o público contra o fascismo, enquanto o movimento da Nova Hollywood dos anos 1970 expôs as falhas do sonho americano em meio à Guerra do Vietnã. No século XXI, diante da ascensão do populismo e de tentativas de controle sobre a mídia, o papel da arte como ferramenta de contestação torna-se ainda mais relevante.
Seja ao denunciar a ocupação na Palestina, o autoritarismo de Trump ou as ameaças à democracia, o Oscar deste ano confirmou que o cinema não apenas reflete a realidade, mas também a desafia e a questiona. Em tempos de polarização, a cultura segue sendo um dos últimos espaços de resistência, um lembrete de que a narrativa histórica não pertence apenas aos vencedores, mas também àqueles que ousam contestá-la.
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