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Mundo

Trump flexibiliza bloqueio e permite envio de petróleo russo a Cuba

Relação da “ilha” com os EUA: dois séculos de ambição, intervenção e impasses

Publicado em 31/03/2026 2:24 - Semana On

Divulgação Foto: Ramon Espinosa/AP Photo/picture alliance

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A chegada de um petroleiro russo a Cuba, após quase três meses de interrupção no abastecimento, expõe uma inflexão pontual na política externa dos Estados Unidos e evidencia a gravidade da crise energética enfrentada pela ilha caribenha. O navio Anatoly Kolodkin, carregado com cerca de 730 mil barris de petróleo bruto, atracou no porto de Matanzas com autorização de Washington, apesar do endurecimento recente do bloqueio energético imposto pelo governo de Donald Trump.

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A liberação do carregamento ocorre em um contexto de colapso progressivo do sistema energético cubano. Desde o início de 2026, a suspensão das remessas de petróleo — especialmente da Venezuela — reduziu drasticamente a capacidade do país de manter serviços essenciais. O combustível é central para a geração de eletricidade e para o funcionamento do transporte, o que explica a sequência de apagões e a deterioração de setores estratégicos, como saúde e logística.

Embora o governo norte-americano tenha mantido, em termos gerais, sua política de pressão máxima sobre Havana, a decisão de permitir a passagem do petroleiro indica uma flexibilização circunstancial. Em declarações públicas, Trump afirmou não ver objeção no envio de petróleo por outros países, incluindo a Rússia, ainda que tenha reiterado críticas à liderança cubana. Nos bastidores, segundo relatos da imprensa americana, a autorização também buscou evitar um possível incidente militar com Moscou.

A crise atual está diretamente ligada à estratégia adotada por Washington após a derrubada do governo venezuelano em janeiro deste ano, episódio que interrompeu um dos principais canais de abastecimento de Cuba. A partir daí, os Estados Unidos passaram a ameaçar sanções a qualquer país que exportasse petróleo à ilha, ampliando o cerco econômico e energético.

Diante desse cenário, a Rússia reposicionou-se como fornecedora emergencial. O Kremlin confirmou não apenas o envio do petroleiro, mas também a disposição de manter o apoio à ilha. O porta-voz Dmitry Peskov indicou que a operação foi previamente discutida com autoridades americanas e enquadrou a iniciativa como um dever de assistência a um aliado histórico.

O impacto imediato da entrega tende a ser limitado, mas relevante. O volume transportado pode aliviar temporariamente a escassez de combustíveis, reduzindo a pressão sobre a rede elétrica e permitindo alguma normalização de serviços básicos. Ainda assim, especialistas apontam que a medida não resolve o problema estrutural de dependência externa que marca a economia cubana desde o período pós-revolução de 1959.

Dados recentes ilustram a dimensão da fragilidade: em 2025, Cuba importava em média 37 mil barris diários, principalmente de Venezuela e México. Em 2026, no entanto, os fluxos praticamente cessaram, com registros pontuais e insuficientes para atender à demanda interna.

No plano humanitário, os efeitos da crise já são perceptíveis. Autoridades de saúde alertam para o aumento do risco de mortalidade, sobretudo entre pacientes vulneráveis, como crianças com câncer, em razão das falhas no fornecimento de energia e da precarização dos serviços hospitalares.

A autorização concedida por Washington, portanto, não representa uma mudança estrutural na política para Cuba, mas sim um ajuste tático diante de um cenário de alto risco geopolítico e humanitário. Ao permitir a entrada do petróleo russo, os Estados Unidos equilibram dois objetivos contraditórios: manter a pressão sobre o regime cubano e evitar um agravamento da crise que possa gerar instabilidade regional — ou até um confronto direto com a Rússia.

Apagões pressionam sistema de saúde e ampliam risco de mortes evitáveis

A crise energética em Cuba, já evidenciada pela instabilidade no abastecimento de combustível, passou a produzir efeitos diretos e mensuráveis sobre o sistema de saúde. Relatos de médicos indicam que a combinação de apagões prolongados e escassez de diesel tem comprometido o funcionamento de hospitais e clínicas, elevando o risco de mortes que poderiam ser evitadas em condições normais de atendimento.

Profissionais ouvidos pelo The New York Times descrevem um cenário de deterioração operacional: cirurgias adiadas, tratamentos interrompidos e serviços de emergência limitados. Procedimentos essenciais, como quimioterapia e diálise, sofrem descontinuidade frequente, enquanto ambulâncias deixam de operar por falta de combustível. Na prática, a crise energética deixou de ser apenas um problema de infraestrutura e passou a afetar diretamente a capacidade de resposta médica.

Para pacientes que dependem de suporte contínuo, o impacto é ainda mais imediato. Equipamentos vitais, como ventiladores mecânicos, tornaram-se pontos de vulnerabilidade em um sistema sujeito a cortes constantes de energia. Famílias passaram a conviver com o risco diário de falhas no fornecimento elétrico. “Não sei por quanto tempo conseguiremos aguentar. A vida dele depende de eletricidade”, relatou Xenia Álvarez, mãe de um jovem de 21 anos que necessita de ventilação assistida.

Nos hospitais, médicos relatam uma mudança perceptível no perfil dos plantões. Segundo o anestesista Alioth Fernández, de um hospital pediátrico em Havana, houve aumento de óbitos associado à piora nas condições de atendimento. Ainda que não haja estatísticas consolidadas, a percepção entre profissionais é de agravamento em relação ao mesmo período do ano anterior — um indicativo qualitativo que reforça a dimensão da crise.

Além do atendimento direto, a cadeia de produção e distribuição de insumos médicos também foi afetada. A falta de energia e combustível impacta fábricas e centros logísticos, reduzindo a disponibilidade de medicamentos e elevando o risco de perda de vacinas que dependem de refrigeração contínua. O efeito é cumulativo: menos insumos disponíveis em um sistema já pressionado por limitações estruturais.

Diante da escassez, equipes médicas enfrentam um dilema recorrente em cenários de colapso: a necessidade de priorizar pacientes. Especialistas apontam que decisões de triagem tendem a se tornar mais frequentes, definindo quem recebe atendimento imediato em um ambiente de recursos insuficientes. A avaliação de Paul Spiegel, da Universidade Johns Hopkins, sintetiza esse impasse ao destacar que o impacto final da crise dependerá dessas escolhas críticas.

O quadro atual se insere em um contexto mais amplo de fragilidade acumulada. Embora historicamente reconhecido por indicadores comparáveis aos de países desenvolvidos, o sistema de saúde cubano já vinha sendo pressionado por anos de restrições econômicas e dificuldades de acesso a insumos. O endurecimento de sanções e as limitações na importação de equipamentos ampliaram esses entraves, enquanto a redução no fornecimento de petróleo agravou o funcionamento de serviços essenciais.

Como resposta, o governo de Miguel Díaz-Canel anunciou medidas emergenciais voltadas à mitigação dos efeitos mais imediatos. Entre elas, a instalação de painéis solares em unidades de saúde e a distribuição de equipamentos para reforçar a capacidade operacional. Ainda assim, os dados disponíveis indicam um sistema sob forte pressão: mais de 96 mil pacientes aguardam cirurgias, enquanto atrasos se acumulam em tratamentos de alta complexidade, como radioterapia e diálise.

No cotidiano hospitalar, a escassez se traduz em improviso. Há registros recentes de equipes que precisaram manter manualmente a respiração de recém-nascidos durante quedas de energia, à espera da ativação de geradores — cuja operação, por sua vez, depende de um combustível cada vez mais raro. O episódio ilustra o nível de precariedade enfrentado e a fragilidade das soluções emergenciais.

A evolução desse cenário dependerá não apenas da estabilidade no fornecimento energético, mas também da capacidade do sistema de saúde de absorver uma demanda crescente sob condições adversas. Até lá, médicos e pacientes seguem operando no limite entre a adaptação e o colapso.

EUA e Cuba: dois séculos de ambição, intervenção e impasses persistentes

A declaração recente de Donald Trump — “acho que poderia fazer o que quisesse com ela” — ao se referir a Cuba reacende um traço antigo da política externa dos Estados Unidos: o impulso expansionista direcionado à ilha caribenha. Longe de ser um episódio isolado, a fala se insere em uma longa trajetória histórica de tentativas de controle, influência e, em alguns momentos, aberta intervenção.

Já no início do século XIX, quando Cuba ainda era colônia da Espanha, líderes americanos demonstravam interesse estratégico pela ilha. Em 1820, Thomas Jefferson sugeriu que o governo dos EUA considerasse sua anexação. Poucos anos depois, o então secretário de Estado John Quincy Adams elaborou uma metáfora que se tornaria emblemática: comparou Cuba a uma “maçã” destinada, por uma espécie de gravidade política, a cair inevitavelmente na órbita norte-americana.

Esse pensamento não ficou apenas no campo teórico. Em 1848, o presidente James K. Polk chegou a oferecer 100 milhões de dólares à Espanha pela ilha — proposta prontamente rejeitada. A insistência continuou: em 1854, diplomatas americanos redigiram um documento secreto defendendo o direito de tomar Cuba à força caso a negociação fracassasse. Ainda assim, naquele momento, a ofensiva não prosperou.

A base ideológica dessas investidas estava ancorada na Doutrina Monroe, proclamada em 1823 sob o lema “América para os americanos”. Embora apresentada como defesa da soberania das novas nações do continente, a doutrina coexistia com a expansão territorial dos EUA. Nesse contexto, a proximidade geográfica — Cuba está a apenas 160 km da Flórida — reforçava a lógica estratégica de incorporar ou controlar a ilha.

A virada decisiva ocorreu em 1898. Sob o pretexto de proteger seus cidadãos durante a luta dos cubanos contra o domínio espanhol, os Estados Unidos ampliaram sua presença militar na região. A explosão do encouraçado USS Maine, ancorado no porto de Havana, serviu como catalisador para a guerra contra a Espanha, embora nunca tenha sido comprovado que o ataque tenha sido provocado pelos espanhóis. Ainda assim, Washington declarou guerra.

O conflito foi breve — durou apenas quatro meses —, mas teve consequências profundas. A Espanha perdeu suas principais colônias remanescentes, incluindo Cuba. Apesar disso, a ilha não foi formalmente anexada aos EUA. A oposição interna, liderada pelo senador Henry M. Teller, contribuiu para essa decisão, ainda que motivada também por interesses econômicos, como a proteção da indústria açucareira americana.

Na prática, porém, a independência cubana foi limitada. A chamada Emenda Platt, imposta como condição para a retirada das tropas americanas, garantiu aos EUA ampla influência sobre os rumos políticos e econômicos do país, além do direito de intervenção militar e da instalação de bases navais — como a de Guantánamo, ainda em operação. Cuba nascia, em 1902, como uma república formalmente soberana, mas profundamente condicionada por Washington.

Ao longo das décadas seguintes, a presença econômica americana se intensificou. Em 1926, empresas dos EUA controlavam cerca de 60% da produção açucareira cubana. O capital estrangeiro também moldou a paisagem urbana de Havana, com investimentos em hotéis, cassinos e casas noturnas. Esse cenário se aprofundou durante a Lei Seca nos Estados Unidos, quando a ilha se tornou destino privilegiado para turistas — e também para o crime organizado.

A proximidade geográfica e a fragilidade institucional transformaram Havana em um centro de atividades ilícitas, incluindo jogos de azar, tráfico e lavagem de dinheiro. A elite política cubana, especialmente sob a liderança de Fulgencio Batista, manteve vínculos estreitos com figuras da máfia americana, como Meyer Lansky, consolidando um sistema que beneficiava poucos enquanto grande parte da população permanecia na pobreza.

Esse desequilíbrio social alimentou o processo revolucionário. Em 1953, Fidel Castro liderou uma tentativa inicial de insurreição, posteriormente transformada em guerra de guerrilha que culminou, em 1959, na queda de Batista. Inicialmente, Castro buscou manter relações com os Estados Unidos, mas o alinhamento ideológico e as medidas de expropriação de empresas americanas rapidamente deterioraram o diálogo.

A resposta de Washington foi contundente. Em 1960, o governo Eisenhower impôs um embargo econômico à ilha. No ano seguinte, a tentativa frustrada de invasão na Baía dos Porcos — conduzida por exilados cubanos com apoio da CIA — marcou um dos episódios mais constrangedores da política externa americana. O fracasso fortaleceu Castro internamente e acelerou sua aproximação com a União Soviética.

O ápice da tensão ocorreu em 1962, durante a Crise dos Mísseis, quando a instalação de armas nucleares soviéticas em Cuba levou o mundo à beira de um conflito nuclear. O impasse foi resolvido com a retirada dos mísseis em troca da promessa americana de não invadir a ilha. Ainda assim, os EUA continuaram a tentar desestabilizar o regime cubano, inclusive por meio de planos de assassinato contra Castro — iniciativas que, paradoxalmente, reforçaram sua popularidade interna.

Nas décadas seguintes, houve momentos pontuais de distensão, como sob Jimmy Carter e, mais recentemente, durante o governo Barack Obama. No entanto, essa trajetória foi interrompida com a retomada de uma postura mais rígida sob Donald Trump, que voltou a endurecer as sanções e a retórica contra Havana.

As declarações recentes de Trump, sugerindo que Cuba estaria “pronta para cair”, vieram acompanhadas de medidas para restringir o fornecimento de petróleo à ilha, incluindo pressões sobre aliados como a Venezuela. A resposta cubana foi imediata: autoridades reiteraram a soberania nacional e rejeitaram qualquer possibilidade de tutela externa.

Enquanto isso, o cenário interno permanece delicado. A crise energética provoca apagões frequentes, o turismo — uma das principais fontes de receita — enfrenta retração, e problemas estruturais, como escassez de alimentos e acúmulo de lixo, se intensificam. Apesar disso, analistas apontam que o regime mantém forte controle institucional e territorial, ainda que a insatisfação popular cresça, especialmente entre os mais jovens, muitos dos quais desejam deixar o país.

Entre ambições históricas e resistências persistentes, a relação entre Estados Unidos e Cuba continua a refletir não apenas disputas geopolíticas, mas também os limites — e contradições — do poder no continente americano.

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