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Netanyahu nega ofensa a cristãos ao comparar Jesus a líder mongol cujas hordas devastaram a Ásia
Publicado em 30/03/2026 10:22 - Semana On
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A polícia israelense impediu o Patriarca Latino de Jerusalém de celebrar o Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro “pela primeira vez em séculos”, disse o Patriarcado, citando preocupações de segurança relacionadas à guerra com o Irã.
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O cardeal Pierbattista Pizzaballa (imagem em destaque) e o frei Francesco Ielpo foram abordados pela polícia enquanto caminhavam em direção à igreja, construída no local onde os cristãos acreditam que Jesus foi crucificado e ressuscitou, informou o Patriarcado Latino de Jerusalém.
“Como resultado, e pela primeira vez em séculos, os líderes da Igreja foram impedidos de celebrar a Missa do Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro”, afirmou em comunicado.
Também em comunicado, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a medida visava a segurança dos religiosos: “Não houve qualquer intenção maliciosa, apenas preocupação com a segurança dele (Pizzaballa) e de seu partido.”
Ele afirmou que os preparativos estavam em andamento para permitir que os líderes da igreja realizassem cultos na igreja nos próximos dias.
A polícia israelense afirmou que todos os locais sagrados da Cidade Velha de Jerusalém – incluindo aqueles sagrados para cristãos, muçulmanos e judeus – foram fechados aos fiéis desde o início da guerra dos EUA e Israel contra o Irã, particularmente os locais sem abrigos antibombas.
A polícia afirmou ter negou um pedido do Patriarcado para uma exceção neste Domingo de Ramos.
“A Cidade Velha e os locais sagrados constituem uma área complexa que não permite o acesso de grandes veículos de emergência e resgate, o que representa um desafio significativo para a capacidade de resposta e um risco real para a vida humana em caso de um incidente com múltiplas vítimas”, disse a polícia.
Páscoa, Ramadã e Pessach
O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa, a semana mais importante do calendário cristão, que antecede a Páscoa.
A Cidade Velha costuma estar movimentada, com católicos romanos passando pelas imponentes portas de madeira do Santo Sepulcro.
Este ano, cristãos, muçulmanos e judeus não puderam celebrar a Páscoa, o Ramadã ou o Pessach como de costume devido às restrições policiais.
A mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, ficou praticamente vazia durante o Ramadã, e poucos fiéis compareceram ao Muro das Lamentações, local sagrado para o judaísmo, com a aproximação do Pessach, na próxima quarta-feira.
Repercussão
O Brasil condenou a ação. Em nota à imprensa, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil lembrou que as restrições da polícia israelense vem ocorrendo ao longo das últimas semanas e afetam também a Esplanada das Mesquitas, que recebe fiéis muçulmanos, durante o mês sagrado do Ramadã, marcado por jejum, orações e caridade.
O governo brasileiro recordou o parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça de 19 de julho de 2024 que concluiu que a continuada presença de Israel no Território Palestino Ocupado é ilícita.
“Aquele país [Israel] não está habilitado a exercer soberania em nenhuma parte do Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental”, frisa a nota do Ministério das Relações Exteriores.
O Itamaraty classificou as ações recentes como de “extrema gravidade” e contrárias ao status quo histórico dos locais sagrados em Jerusalém e ao princípio da liberdade de culto.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, criticou a ação policial, afirmando em comunicado que negar a entrada a líderes religiosos “constitui uma ofensa não apenas aos fiéis, mas a todas as comunidades que reconhecem a liberdade religiosa”.
O ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, disse nas redes sociais que convocaria o embaixador de Israel para prestar esclarecimentos sobre o incidente.
O presidente francês, Emmanuel Macron, condenou a decisão da polícia israelense que, segundo ele, “se soma ao preocupante aumento das violações do estatuto dos Lugares Santos em Jerusalém”.
O embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, disse que negar a entrada do Patriarca na igreja no Domingo de Ramos era “difícil de entender ou justificar”.
Fiscalização inconsistente
Moradores da Cidade Velha e autoridades religiosas afirmaram que as restrições policiais ao culto religioso não foram aplicadas de forma consistente.
Eles observaram que os pregadores muçulmanos do Waqf conseguiam acessar a mesquita de Al-Aqsa durante o Ramadã e o Eid al-Fitr, e que os funcionários da limpeza tinham permissão para remover as inscrições de oração do Muro das Lamentações, um ritual anual, antes da Páscoa judaica.
Neste domingo, frades franciscanos e fiéis também foram autorizados a entrar em outro santuário da Cidade Velha, a uma curta caminhada pelas ruelas estreitas da Cidade Velha a partir do Santo Sepulcro, para celebrar o Domingo de Ramos.
Uma fotografia da Reuters mostrou cerca de uma dúzia de pessoas inclinando a cabeça em oração e carregando ramos de palmeira.
Farid Jubran, porta-voz do Patriarcado, disse que a polícia havia sido informada de que a missa seria realizada em caráter privado e a portas fechadas. “Mas mesmo assim, apesar dessa comunicação, eles insistiram em agir dessa forma”, afirmou.
Passo atrás
Diante da reação negativa, Netanyahu anunciou nesta segunda-feira (30) que o patriarca latino de Jerusalém teria acesso imediato à Igreja do Santo Sepulcro.
“Embora compreenda essa preocupação, assim que tomei conhecimento do incidente com o cardeal Pizzaballa, instruí as autoridades a permitirem que o patriarca realizasse as celebrações religiosas de acordo com o seu desejo”, afirmou Netanyahu.
“Não houve absolutamente nenhuma intenção maliciosa, apenas a preocupação em garantir a segurança do cardeal”, escreveu o gabinete do primeiro-ministro.
“No entanto, considerando que a Semana Santa está começando para os cristãos de todo o mundo, as forças de segurança israelenses estão elaborando um plano para permitir que os líderes religiosos orem (no Santo Sepulcro) nos próximos dias”, frisou. Israel pediu aos fiéis cristãos, judeus e muçulmanos que “se abstenham temporariamente” de visitar os locais sagrados da Cidade Velha por razões de segurança, afirmando que “os locais sagrados das três religiões monoteístas em Jerusalém” foram recentemente alvos de “mísseis balísticos” disparados do Irã.
Netanyahu nega ofensa a cristãos ao comparar Jesus a líder mongol
Na semana passada, Netanyahu defendeu-se das acusações de ter tido a intenção de ofender os cristãos ao comparar Jesus com Gengis Khan e negou ter “menosprezado” Cristo. “Mais desinformação (desta vez) sobre minha atitude em relação aos cristãos”, escreveu no X.
“Sejamos claros, não menosprezei Jesus Cristo durante minha coletiva de imprensa”, mas sim o “contrário, citei o grande historiador americano Will Durant”, acrescentou o primeiro-ministro.
Esse “fervoroso admirador de Jesus Cristo”, indicou Netanyahu, “afirmava que a moralidade, por si só, não basta para garantir a sobrevivência”. “Não quis ofender ninguém”, insistiu.
Netanyahu havia declarado, citando um livro de Durant: “A História demonstra que, infelizmente e tristemente, Jesus Cristo não tem nenhuma vantagem sobre Gengis Khan. Porque, se você for suficientemente forte, suficientemente implacável, suficientemente poderoso, o mal prevalecerá sobre o bem”.
Esse comentário provocou uma avalanche de críticas nas redes sociais.
Muitos fiéis se ofenderam com a comparação entre Jesus Cristo, Deus feito homem para os cristãos e “príncipe da paz”, e Gengis Khan, fundador no século XIII do Império Mongol, cujas hordas devastaram a Ásia, dos confins da China até o Mediterrâneo.
A declaração de Netanyahu “é ofensiva em vários níveis”, reagiu no X Munther Isaac, pastor palestino de Belém.
“Ela não se limita a comparar Jesus com Gengis Khan, também sugere que o caminho de Jesus é ingênuo, enquanto uma abordagem implacável, em que a força prevalece sobre o direito (…) seria, em última instância, o que permite que o bem triunfe sobre o mal”, acrescentou.
“Netanyahu e seus apoiadores sionistas cristãos zombam da ética de Jesus”, escreveu o reverendo luterano.
‘Ninguém pode usar Deus para justificar guerra’, diz papa Leão 14
O papa Leão 14 afirmou no domingo (29), na missa do Domingo de Ramos no Vaticano, que “ninguém pode usar Deus para justificar a guerra”.
Em sua homilia na celebração que recorda a chegada de Jesus a Jerusalém, o líder da Igreja Católica disse que Cristo “não se armou, nem se defendeu, nem travou nenhuma guerra”.
“Irmãos, irmãs, este é o nosso Deus: Jesus, rei da paz. Um Deus que rejeita a guerra; que ninguém pode usar para justificar a guerra; que não escuta, mas rejeita a oração de quem faz a guerra”, declarou o Papa.
Durante a missa, Leão 14 fez um apelo para que as partes em conflito no mundo “deponham as armas” e se lembrem de que todos são “irmãos”.
“Olhando para Ele, que foi crucificado por nós, vemos os crucificados da humanidade. Nas suas chagas, vemos as feridas de tantas mulheres e homens de hoje. No seu último grito dirigido ao Pai, ouvimos o gemido de dor de todos aqueles que são oprimidos pela violência e de todas as vítimas da guerra”, disse.
O Domingo de Ramos marca o início das celebrações da Semana Santa, a primeira do pontificado de Robert Prevost.
Na próxima quinta (02/04), Leão 14 presidirá as missas do Crisma e da Ceia do Senhor; na sexta (3), a Paixão do Senhor e a Via Sacra no Coliseu; no sábado (04/03), a Vigília Pascal; e no domingo (5), a missa de Páscoa e a bênção “Urbi et Orbi” (“À cidade e ao mundo”).
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